Jair Naves - Araguari (2010)

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Jair Naves é um músico (mesmo que ele não goste desse título, ou ao menos não gostava) e com esse EP mostrou uma evolução enorme em seu trabalho. Tanto no vocal (dessa vez, limpo, sem gritos e acompanhado por Julia Frates, cantora) quanto em suas letras que estão de uma poesia enorme e a sonoridade bem diferente de tudo que todos esperavam. Algo calmo, mais fácil de se digerir do que o Ludovic (ex-banda de Jair Naves) a qual comparações não serão feitas. Se me pedirem para classificar o som ou dar uma dica do que o som se parece, eu diria: pega um pouco de Joy Division na época do unknown pleasures, de Dolores Duran, Walter Franco e Maysa. Agora mistura tudo, é, lembrará um pouco. A primeira faixa, Araguari I (Meus amores inconfessos) te assusta no lado bom da palavra. Vem com uma introdução e depois é marcada pela letra forte e o vocal declamado de Jair. Silenciosa, em uma pegada mais folk, só piano, violão e voz, te leva a uma sensação de melancolia e escuridão. De um relacionamento que chega ao fim e o eu-lírico vencido pelo desânimo, recita: “Se bem que eu não me incomodo/Pode ir agora que eu já nem ligo”. De Branquidão Hospitalar (delirando queimando em febre eu me apaixonei) te carrega para uma atmosfera do post-punk nacional, marcado por uma linha de baixo que chega a ofuscar os outros instrumentos em certas partes. A letra é tocante e bem oposta a faixa anterior, o vocal mais calmo e controlado. Mas é agora que a surpresa vem e na minha opinião, a melhor faixa do álbum: Araguari II (Meus dias de vândalo). O vocal é recitado com uma emoção fora de sério, a letra é uma mistura da rebeldia e fúria das letras do Ludovic com as metáforas bem trabalhadas deste projeto. Destaco: “Ninguém imagina o que eu enfrentei/o quanto doeu, o quanto rezei/minha reza de ateu, num desespero que eu nunca me atrevo a demonstrar”. Araguari sem sombra de dúvidas está entre os melhores lançamentos do ano, da década e é um dos CDs mais tocados em toda minha vida. Aquele o qual você até dorme junto.


Não tem como definir o som de Jair Naves, não tem como rotular, apenas posso repetir o que foi dito no HominisCanidaee quando foi postado o disco: não é rock. Não é folk. Não é samba. Não é moda de viola. É apenas o melhor letrista da atualidade em um projeto sincero e visceral.


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