Um Passeio pelos Labirintos do Anatema...

por - 08:00


Não faz nem dois anos tive o prazer de ir à Casa Dissenso em São Paulo assistir o lançamento da coletânea Dis #1, com quatro bandas bem legais do instrumental nacional. Fui ao lançamento paulista, tendo como integrante da coleta a banda Labirinto. Lembro que foi uma ótima noite, foram três bons shows num local legal. Mas o fato é que se eu não tivesse falado com o Eric e com a Muriel (integrantes da labirinto) naquele dia, poderia acreditar bastante que aquela Labirinto era uma farsa, outra banda que vi naquele dia. Mas não, era apenas uma banda diferente do Labirinto que acabou de lançar um dos melhores discos do ano, intitulando “Anatema”.


 

E não estou aqui desmerecendo o trio que vi naquela noite, estou glorificando a evolução e o rumo que a banda tomou num intervalo de tempo tão curto. A banda cresceu, atualmente é praticamente uma orquestra de Rock Instrumental. São oito músicos com uma enorme quantidade de instrumentos, em dedicada e declarada paixão ao som que estão desenvolvendo. Eles transcendem a música, o Rock, o conceito de banda normalmente vista no Brasil, eles vão além e por isso já merecem todo meu respeito.


 

Mas vamos ao motivo desse texto, o primeiro álbum cheio da banda, Anatema, o excomungado da igreja católica ou a maldição. A desgraça dentro dos moldes gregos, seguidos pela banda para contar a história mitológica sobre o ciclo da criação, destruição e eterna reconstrução do mundo. A arte do trabalho é uma coisa fora do normal, do senso comum. O encarte vem solto na PAC do disco, seis artes belíssimas feitas pelo artista João Ruas . O Anatema tambem terá uma versão em vinil triplo, imagina a moral?! Aconselho muito! O disco conta com seis faixas,  cada arte remete a uma faixa, que demonstram os sentimentos dos protagonistas ao seguir os caminhos necessários para completar tal ciclo. Os seis temas seriam na ordem: Reverso, Incendiários, Chromo, Huo Yno, Flagelo e Anatema...




Você pode pensar que é uma historia curta, rápida por conta do numero de faixas. Antecipo que é um engano primoroso, cada faixa se constrói com uma maestria, esta tudo no lugar que deveria. Destaco muito o lirismo trazido as faixas pelo violino, o “orquestramento” do Rock só deixou mais experimental e expansivo o conceito. Em pouco mais de uma hora a história se desenrola com uma sensibilidade extrema, alternando a calmaria com o caos. As faixas estão realmente conectadas e interligadas, você mal percebe a passagem de uma para a outra. Destaco o banjo do Nathan Bell em Chromo, ficou genial a participação e sensibilidade do mesmo.


 

Ai está a grande questão do disco, vou te dar um conselho, mas peço que você pense bem se vai realmente querer segui-lo. Escutem o álbum no repeat e vocês irão perceber que o álbum é cíclico, completamente interligado e infinito. O problema é que você pode acabar se perdendo ainda mais nesse labirinto circular e talvez não conseguir sair nunca.  Quem sabe vocês não me encontram por la? Eu ainda estou perdido entre os meandros de um lindo labirinto e não sei se quero sair...


 

Tive o prazer de ver ao vivo na Tour pelo NE que a banda fez lançando o disco recentemente, mas vou deixar a tarefa de falar da banda ao vivo pro Paulo marcondes, que foi no lançamento do disco no último domingo em Sampa!




Antes de começar a falar sobre o show de lançamento do primeiro full lenght do Labirinto intitulado Anatema, no dia 12 de setembro, no CCSP (Vergueiro) gostaria de frisar algo, tentar deixar o mais claro possível que eu nunca tinha ido a um espetáculo instrumental – sim, espetáculo, mais tarde vocês entenderão o porquê – duas baterias armadas no palco, três guitarras, às vezes até quatro quando o Elson tocava um pouco, um baixo, um violino, um violoncelo e um sintetizador. A forma como isso conseguiu mudar minha concepção de shows foi incrível. Fui criado no punk, show pra mim era “mosh boy” enchendo o saco e gente com camiseta do Black Flag, mas não, o Labirinto conseguiu me emocionar.


 

Cheguei acompanhado de um amigo ao Centro Cultural São Paulo e comprei o ingresso a 6 reais, um bom investimento ao que tudo indicara. Fomos até a sala Adoniran Barbosa onde iria acontecer o show e vimos o pessoal afinando os instrumentos e passando o som. Uma sensação estranha me tomou: a de nunca ter visto tanto instrumento e dedicação com ambiente/nota/musicalidade. Comecei a ficar ansioso e o espaço abriu, desci e me acomodei. Fiquei lá sentado esperando. A banda entra no palco. Todos vestidos de preto, exceto a baterista e uma das meninas que tocava violoncelo. Elson ajusta o sintetizador começa a fazer uns barulhos e logo os dois bateristas começaram a acompanhar e timidamente uma guitarra entra, por mais cru que estivesse o som com apenas estes instrumentos, acabei me arrepiando logo de cara, depois sim, todos os outros músicos entram e o show começa de fato.


 

Foram aproximadamente uma hora de espetáculo (agora sim faz sentido?). A banda seguiu todas as músicas do disco na ordem e sem pausa para uma água ou alguma falação, tocaram tudo seguido. Uma faixa acabava emendando na outra conseqüentemente e isso deu um tom maravilhoso para as músicas, dando a impressão de que tudo se encaixava que no fundo as seis faixas do Anatema são umas só, divididas em seis momentos diferentes musicalmente e emocionalmente, pois em algumas horas, o instrumental é mais pesado e em outras, mais ameno, mas além de tudo, seis momentos coesos e firmes, constantes e bem tocados. Não há palavras para descrever para mim, um leigo no assunto de música instrumental/experimental/ “post-rock” comparado a uma parte do público, o quão bonito foi o ESPETÁCULO da banda, o quão gracioso e bem tocado foi aquilo. Tenho certeza de que depois desse show, nunca mais verei outras bandas tocando com os mesmos olhos.



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