Filme Concerto - Impressões de Baptista virou Máquina no Cine São Luiz

por - 19:07


Ao me deparar com a programação do III Janela Internacional de Cinema do Recife, que aconteceu de 12 a 21 desse mês de novembro (por sinal, mês bem movimentado na terrinha recifense), logo me chamou atenção o nome da banda paraibana Burro Morto. Finalmente conseguiria ver num cinema do Recife uma banda (muito boa por sinal) tocando a trilha sonora de um filme. Então, no dia 19 de novembro lá estava eu, sentada na primeira fila, ansiosa pelo que viria.


Devo confessar que não só o nome da Burro Morto me chamou atenção. O projeto, assinado também pelo artista plástico Shiko (que cuidou da direção de arte), e pelo diretor Carlos Dowling, foi criado a partir do disco homônimo da banda, e do texto também homônimo de Dowling. Sendo assim, o público presente na sessão das 21h30 daquele dia no Cinema São Luiz não veria uma simples sessão à moda antiga, como quando a orquestra se colocava atrás do grande ecrã para sonorizar os filmes mudos. A banda executaria ao vivo todo o cd, enquanto o roteiro seguia o texto.


Ao apagar das luzes, imagens estáticas preenchiam a tela e perturbavam o público mais desavisado e impaciente que, ao não entender porque viam imagens paradas, e porque a banda não começara a tocar, começam a fazer barulho, rapidamente interrompido. Não percebiam que as imagens e o silêncio eram como um breve aviso de que estavam para presenciar algo que fugia ao que normalmente é encontrado nos cinemas atuais. O movimento começa quando câmeras dialogam com o espectador, em frases que tanto podem dizer respeito a um futuro pouco distante, quanto ao agora. Baptista trabalha incansavelmente, apesar de ser noite, e os acordes ferozes da Burro Morto tentam encher a sala do São Luiz, procurando vencer os limites das caixas de som, que fazem com que quem sente lá atrás ouça tudo num tom um tanto quanto baixo, incomparável à sensação de quem está sentado na primeira fila, que acaba por se sentir parte integrante do filme, ao mesmo tempo que sente vontade de aplaudir sempre que a banda silencia.


Baptista solda uma vez, duas, três, quatro, inúmeras vezes seguidas, dentro de um galpão escuro, em meio a engrenagens, catracas, porcas, brocas e entulhos. Resolve descansar, até em máquinas a bateria uma hora chega ao fim. Bebe um pouco da água que guarda em meio às latas de óleo (será mesmo água?), e dorme, ainda com a máscara de solda. Acorda e se vê só. O mundo ao redor é tão inóspito e por vezes absurdo que não temos certeza se Baptista ainda sonha, ou se nos deparamos com um futuro/presente tão próximo de nós, que chega a ser fantástico. Baptista sai da fábrica e passeia pela cidade, encontra um parque de diversões, como aqueles que vemos em pracinhas, e um puteiro simples e aparentemente abandonado. A direção de arte de Shiko fica incrivelmente visível nesses dois espaços, em suas luzes, e nos elementos que compõem a cena. Quem conhece o trabalho dele chega por vezes a sentir-se como dentro de um de seus quadros, que compõem fielmente a cena retratada na tela, e, claro, não por acaso receberam o mesmo nome do filme e do disco.


Realizados graças ao Projeto Pixinguinha/FUNARTE de 2008, uma vez que Baptista virou Máquina alcança o espectador, este não consegue mais sair de seu espiral. O roteiro baseado no texto de Dowling é bem amarrado, fazendo com que tudo tenha sentido, mesmo em meio à aparente confusão. A direção de arte de Shiko é bela e obscura, enchendo os olhos de novas informações a cada segundo, e não ousamos nos despregar da tela. A atuação de Tavinho Teixeira, que se doou de forma bela ao personagem, convence. A Burro Morto, por sua vez, não dá sossego mesmo durante seu silêncio, está ali, a postos, pronta para atacar deliciosamente nossos ouvidos, e fazer com que nademos cada vez mais fundo nessa viagem. Ao fim, o apito da fábrica toca novamente, a máquina reinicia e Baptista volta, com seus passos precisos, a trabalhar incansavelmente. Uma solda, duas, três, quatro. Só uma certeza nos resta: tu ainda sonhas Baptista, tu ainda sonhas!


Obs1.: Ainda não por acaso (claro) as ilustração de Shiko serão a capa do disco e do filme, que serão vendidos em breve, para a alegria da nação.


Ps.: Foto retirada do Flickr do III Janela Internacional de Cinema do Recife

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1 comentários

  1. >Gostei do filme também. Muito boa sua impressão. Inclusive vejo que você utilizou trechos do texto do blog "Insights, Insights" para fazer o seu: http://bloginsightsinsights.blogspot.com/2010/05/baptista-virou-maquina.html

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