Quem limpará os lírios do quarto de Gregor Samsa?

por - 14:20

Lírios aos Anjos. Jogo a eles flores e talvez enterre a auto-estima do eu-lírico deste disco que é, sem dúvidas, o menos querido dos fãs de Dance of Days. O título é tão auto-explicativo quanto o Six First Hits, quando sabe-se que esta foi uma fase difícil na vida de Fábio Altro (Nenê Altro): baladas do centro de SP, hotéis imundos, boca do lixo, vagando pelo Brás, pela Barão de Limeira, Guaianazes e tudo o que de mais “podre” existe na cidade de São Paulo.


A temática do disco esbarra hora em uma melancolia de quem não tem rumo, hora em quem quer sair da vida que está, mas por alguma força maior, divina, ou inconsciente, não consegue, como fica claro na faixa mais querida pelos fãs, interlúdio para um bar de beira de estrada por 33 anos fora do mapa, onde a sensação de que é possível dar outro sentido a sua existência pode ser notada nos versos, “que se foda, amor, que se foda, se a palavra suja não rima, que se foda, amor, que se foda, pecado é não viver a vida”. Em seguida, por mais inacreditável e contraditório que soe, Altro entoa a plenos pulmões: “o mundo não quer mais saber de heróis pra te proteger”, na música Por Onde Estive, que carrega todo um tom Fight Clube. Alguém se lembra quando Moe vai no bar tirar Tyler, enche a cara dele de soco, Tyler praticamente afogado em sangue, sobe em Moe e grita, cuspindo sangue na cara do velho gordo: “Você não sabe por onde estive, Moe, você não sabe por onde estive”, então, aí, fica claro?



Após mostrar isso – a contradição entre viver ou não viver presente no disco, é necessário voltar ao começo, uma espécie de faixa a faixa para quem nunca entendeu o significado de sequer uma palavra. Lembram do texto do Cave? Então, aqui, Altro estava atolado nele. Tender Prey, Your Funeral My Trial..., Let Love In e por aí vai. Mas feita a breve introdução, eis o assunto principal: Linda, A Dor não é tão glamurosa assim, afinal, inicia o disco carregando o ouvinte para uma atmosfera de sujeira e falta de perspectiva e seu refrão marca o começo do novo disco e os gritos de desespero de seu vocalista: Dor, não me arranca da vida, me diz porquê me castigas, se meu amor, eu só te quis bem. Em seguida, com um instrumental mais tenso e uma letra mais pesada que a anterior, o eu-lírico transporta-se para o papel de inimigo de si, tomado por uma abstinência e aí, deixo sua imaginação fluir: sexo, cocaína, álcool, carência, saudade... “Expressão pálida me deixa respirar/ e busca teu algoz em qualquer outro lar./ É o inimigo eu sei, e por ser tão ruim, /me salva de minhas próprias injurias.// É o inimigo, eu sei quem sou.”. Lírios aos Anjos, faixa homônima marca talvez o período mais nítido de falta de esperanças do eu-lírico, não há muito o que divagar em cima disto, sendo que está ali, nos versos: “Silêncio... Silêncio.../Deixa o vento carregar/tudo que me resta adiante.../Silêncio... Silêncio.../Deixa o jardim sufocar/ a garganta e me tomar o sopro.”. E o disco caminha falando sobre uma relação sexual em Mil Glórias, retomando a característica principal do álbum em Quem Vai Limpar o Quarto de Gregor Samsa, uma alusão ao personagem principal do clássico romance de Franz Kafka, A Metamorfose, onde Gregor acorda um inseto e sua família passa a ter nojo dele.




foto por Róxie



Vaudeville, pode ser encarada com duas intepretações, a mais convencional, de uma forma de entretenimento americano/canadense que ficou famoso no fim do século XIX – início do século XX ou a forma de composição dramática francesa. Mas confesso que é uma das minhas músicas prediletas por conta de sua última estrofe: “Minha culpa,/ minha máxima culpa... é tão nossa,/ pois quem disse amor que não há/ charme nessas flechas que se beijam/ quando dormem os medos?/ E sabe amor, já não há/ como conseguir parar todos os erros /viciados que aprendemos.”. O Vampiro e o Helianto talvez seja a música mais emocionante do disco por conta de seu tema: Yara, a filha mais nova de Altro. De forma melancólica e com um instrumental mais leve que nas faixas anteriores (exceto em Quem Vai Limpar O Quarto de Gregor Samsa?) a música remete-nos a coisas simples e emociona pela poesia contida em cada verso. Interlúdio, Por Onde Estive antecedem o momento mais tenso do disco pra mim: o fim.


Selene, segundo o próprio Nenê Altro, fala sobre a cocaína, sobre seu vício (ou antigo vício) e que marcou muitas composições desse disco: “Só sei que eu te desejo mais do que devia/ E teu escarro queima qual brasa nas narinas. /Só sei que por vezes é tão escuro e tão frio /Que desapareço sem sequer ser percebido. /Só sei que eu não encontro direção, /E as vezes até acho bom e bem menos dolorido. /Só sei selene, que não vejo mais o sol /E só quero tua voz sussurrando em meu ouvido.”, sem nenhuma faixa para quebrar o clima, começa Alice Narcoléptica que tem como estrutura de sua letra, um soneto. A faixa inicia-se com um trecho do filme Alice No País Das Maravilhas ao contrário, o vocal às vezes berrado, às vezes macabro, com diálogos invertidos do filme no fundo, faz uma ótima introdução para o fim do disco, para a última faixa, Camposanto 300km Por Hora em que talvez mescle todos os períodos do disco e os temas centrais: fuga da realidade, boca do lixo, sangue na garganta, cocaína, vício, hotel sujo, prostitutas azedas e pensamentos indescritíveis. Assim chega ao fim, o álbum menos querido dos fãs. E atrás de onde se coloca o CD, há este soneto:



Assume forma, erro sedutor,
tentação maldita, contínua penitência.
São noites longas, tempos de decadência.
Anestesia sórdida, corpo sem condutor.


Olhos que de tão cansados de lutar
me tentam pregar peças buscando
o alívio do que venho encontrando
sob diversos nomes, maldade similar.


Tua carne suada, volúpia alcoolizada
aquece esse resto de vida bastarda.
Quando amanhece e ao silêncio se acorrenta.


Me abandona aqui, me esquece ao relento
A incerteza irmão, é meu último sustento.
A alma vadia é a lua que me orienta.


Nenê Altro

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