A Playlist Perfeita (ou pelo menos pensei que era...)

por - 17:53

“descobri a sequência de shuffle perfeito!”, gritei comigo mesmo, lá dentro da cabeça. pelo menos foi o que eu pensei, na hora que comecei a sacá-la, enquanto me ocupava com alguns bons afazeres em casa. ignore o fator da modificação estrutural química que se aplicava no momento. sem soar pretencioso também: eu disse “é sim, o shuffle perfeito. depois que eu acordar amanhã e programar a mesma sequência de novo, vou continuar pensando o mesmo, tenho certeza”. e foi isso. ou quase isso, sei lá. "mas é do tipo que vale a pena", fiquei com isso na idéia. quase me fez pensar se o fator caótico da aliatoriedade não entrava ali em colapso, mas daí já ia começar a complicar demais o que tava simples, eu sei. parei. De qualquer forma, pessoalmente, sou capaz de apostar com qualquer um que existem pelo menos 3 músicas, dentre as vinte aqui apresentadas, pelo menos 3 que você adora, boto essa fé. mas o importante mesmo é que o sistema aleatório se tornou quase um amigo pra mim, naquela hora. “ou um robô que lê pensamentos, talvez”...; quase pensei em perguntar "hal 9000, você está aí?", mas fiquei com medo de ouvir uma resposta positiva vinda do computador.

enfim, foi o que eu fiz no dia seguinte. e deu certo: o shuffle foi meu amigo de novo. salvei a playlist. hoje, com um tempo a mais, botei pra rolar de novo e soltei um breve texto-comment
de faixa por faixa, enquanto rolava. olha só o que deu, não estou delirando:

1. Jimmie Haskell and His Orchestra (astrosonic)
– foi o start!, ou pelo menos o que refrescava mais em distância da minha memória no momento que comecei a sacar: rock'n roll sagaz que lançava os primeiros indícios do "cool" que moldou o jazz bebop posteriormente. não teve como começar melhor.

2. 13th Floor Elevators (you're gonna miss me)
- a garageira psychedelic rocker: meninos comportadamente revoltados que começavam a tomar doce, como o Roky Erickson nos vocais que invocava um Van Morrison gemedor de sacudir qualquer Mick Jagger.

3. Supremes (baby love)
– hm? Amy Winehouse? o instrumental era total, mas não, a voz não era rasgada, era aveludada. Uma Beyoncé completamente eficiente no que se propõe a fazer (cantar)?: pois é, o nome dela era Diana Ross. Tá falida, mas vozes assim permanecem pra posteridade.

4. Mission of Burma (red)
- uma energia punk travada pelo new wave, que impedia agitar o corpo à mais de 2 palmos de distância, quase incontido. o prolongamento interventivo do meio evidenciava Sonic Youth ao ritmo da cozinha do Gang of Four: o som que o Franz Ferdinand sempre sonhou compor, e nunca conseguiu.

5. Frank Black (kicked in the taco)
- o ex-atual-lider do Pixies em seu segundo disco solo estava mais livre, ressonante... uma fase mais "zen arcade" e menos "the peter paul and mary album", soltando a raiva e alívio de ter se livrado da bebaça Kim Deal.

6. Dinosaur Jr. (this is all i came to do)
- essa fase atual do Dino Jr nem preciso dizer que tem sido sua melhor desde, desde... you're living all over me?... talvez. a melodia da composição inteira se presta como perfeito encaixe sonoro, uma sonata moderna recheada de solos de guitarra do mais puro favo do rockão skatepunk. pop da melhor qualidade, soando como Dinosaur Jr mais do que nunca. j+lou+murphy rulez, dude.

7. Billy Bragg (this guitar says sorry)
- é a mais pura verdade esse título: essa guitarra pede desculpas! esse é o cara que sabe o que fazer sozinho, de pé num palco , na frente de uma multidão, com uma guitarra nas mãos. tem culhão.

8. Monster Magnet (murder)
- ahhhh o black sabbath! como diz meu amigo Barata, "as pessoas precisam de mais Black Sabbath no coração!"; e o Monster Magnet leva isso à risca do facão, só botando um pouquinho mais de fuzz serra-elétrica garageiro na cobertura e uma pitada de vocais exclamados de peito aberto a lá Al Joungersen. pra escutar alto, mas na hora eu não podia mexer no volume. tava ocupado.

9. Ozric Tentacles (spyroid)
- e aqui o melasso feito de cerveja e thc engrossou, se é que você me entende. o Ozric Tentacles, que geralmente soa Pink-Floyd-King-Crimson-Emerson-Lake-&-Palmer, aqui numa pegada mais "moderna" assim por dizer, abusando da tecnologia tecneira do trance. a variante do pico balanceou suave.

10. Desmond Dekker & The Aces (007)
- poh... a felicidade! não existe momento ruim na vida, desde a pior enxaqueca até o mais brutal ódio, em que a pessoa não ouça isso e fique tudo bem. não existe possibilidade de não ser feliz ouvindo isso, é sério. nem precisa chapar pra sacar isso.

11. Fugazi (returning the screw)
- versão mix Steve Albini. começa suave, entra bateria minimalista com caixa lá em cima, estalando que nem uma batida de carro. a voz do Ian dentro dum cano de banheiro. o baixo e a segunda guitarra mantendo um giro hipnótico até quebrar na falsa estrofe (que não há no mix original); a brutalidade fica estampada, querendo escapar , e cada vez mais vai sendo contida por uma muralha no wave, até a barreira do suportável. O Steve albini produziu nesse momento um fugazi que não é fugazi, óbvio, essa descrição não serve pra eles. mas fugazi soando como slint é interessante de ouvir.

12. Robert Johnson (rambing on my mind)
- olha esse turnon! o shuffle tava inspirado, de boa... modernidade do fugazi deu espaço pra raiz do blues, pra notas marcantes do solo e acompanhamento tudo ao mesmo tempo. e ainda cantando (a pergunta que nunca quis calar, como esse brotha fazia isso?) sem dúvida não há coisa mais... original. the devil is the blues.

13. Karate (baby teeth)
- a garota dormindo sob um lençol fino, o gato na janela, olhando o luar... e karate rolando! esse shuffle é meu amigo mesmo: som fino do karate, um jazz encharcado de post rock, um grupo de no wave tentando soar mais cool possível, dando um espaço pra tempos quebrados á la Polvo e solos inspirados em John Maclaughling: K.O.

14. João Donato (bambu)
- o único brasileiro que meu shuffle escolheu, estranhamente. confesso que tem pouca coisa brasileira na minha biblioteca, mas tem! e de qualquer forma, foi uma ótima escolha: a brasilidade estampada num cartão postal do rio do swing porno-chic dos 70, instrumental insano embebido em ácido e cachaça.

15. Sly & the family Stone (everyday people)
- e então o shuffle me lança isso! puro refresh, porra! uma dose de bem estar no cérebro, dose maciça de serotonina inserida pelas vias auditivas. toda beleza que o soul poderia nos dar, e nos deu! não é realmente uma lista e tanto? esse shuffle tava abençoado, diga ae! Oxalá meu pai, são João Coltrane!

16. Regulator Watts (seedtick east)
- de repente o clima muda novamente. entra Regulator Watts: profundo, negativado, arrastando um caminhão: as melhores porções do post rock diluido em drone que a trupe do Hoover nos daria (crédito da parte de Alex Durham). Melvins com Yes, Boris com Jawbox.

17. Trenchmouth (the dawning of a new sound session)
- e continua a sensação de caos, perda de direção e pânico, com riffs dissonates, vocal perdido em porções de ilhas de areia movediça num pantano sonoro que inclui no wave, reggae e post punk. doooido, jow! trenchmouth merecia mais reconhecimento. Muito subestimado, muito....

18. New Model Army (big blue)
- olha que maravilha essa entrada! as novas melodias que soam como velhas do New Model Army deram uma continuidade curiosa, dissuasiva na lista. você sente segurança instantânea, sente quase como se o Justin Sullivan fosse um amigo de bar, puxando uma cadeira pra que você se sente e insiste pra tomar uma Guiness gelada enquanto conversam sobre cabeçadas da vida, porra!!! fucking A, man!

19. Gaudi + Nusrat Fateh ali Khan (ghamgar bare ne)
- ahh, um pouquinho de dub nunca fez mal à ninguém! principalmente sob a hipnótica maciez no piloto automático que tem a voz de nusrat fateh ali khan, um mestre da arte de fazer a voz soar como instrumento, sopro divinamente indultor. a voz de ali Khan embeleza a cultura qwaali, ramificação mulçumana paquistanesa; dá pra sacar porque eles o idolatravam tanto: ele fazia por merecer.

20. Tom Waits (fish in the jailhouse)
- em contraponto à voz divina de Khan, entra a ranhura bêbada, suja de motel barato e privada de buteco, o desdém demoníaco do blues rústico na voz de Tom Waits. uma continuidade mais ácida do som incinerante de Screamin' Jay Hawkins (outro gênio, alias). uma das melhores do velho diabo. e ponto.

21. Andrew Bird (tenuousness)
- era pra serem vinte, mas quando essa começou eu não consegui desligar o som. andrew bird é um trapaceiro do pop: o cara estudou a raiz do folk, definhou a origem do pop, desmontou riff por riff , uniu as pontes de cada um desses riffs da maneira mais coerente e voilá: o arrombado descobriu uma fórmula quase científica de como fazer uma boa canção. porra, assim também é covardia com os outros concorrentes...!

muito bem, taí um shuffle inspirado: experimenta e depois me diz se é ou não é.

baixe e ouça no seu walkman, andando na rua.

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