Elvis e Madona, juntinhos, entre risos, amores e caricaturas

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Um pai abandona a família e se assume como travesti. Anos depois, volta em busca de reconciliação, mas acaba se apaixonando pela namorada do filho. O caso, mostrado em um programa de auditório mexicano – daqueles em que os convidados lavam a roupa suja na frente do público – foi o mote inspirador para o filme Elvis e Madona, do diretor Marcelo Laffitte.

O longa, filmado entre 2007 e 2008, conta a história de amor e amizade entre uma lésbica, Elvis (Simone Spoladore), motoqueira de uma pizzaria, que quer trabalhar como fotógrafa, e um travesti, Madona (Igor Cotrim), cabeleireira que sonha em montar seu próprio show. A semelhança com o episódio que inspirou o filme resume-se ao amor “inusitado”. Com um apelo escancarado para a comédia romântica desde a abertura da história, Elvis e Madona procura adaptar-se ao público em geral, não se aprofundando em discussões mais sérias.



A falta de aprofundamento em algumas cenas gera, invariavelmente, a comparação com o também nacional “Do Começo Ao Fim”, de Aloízio Abranches, que conta a história de dois irmãos que se apaixonam. O longa de Abranches, no entanto, é um drama claramente superficial, que não aborda em momento algum os eventuais problemas que se enfrentaria num caso de incesto e amor homossexual declarados.

Já no caso de Laffitte, a aparente superficialidade é intencional. Por se tratar de uma comédia, o filme, apesar de contar a história de um casal que foge do “normal” (o que é normal?), expõe na tela os problemas universais de qualquer relacionamento, não caindo no esquema “cabeçudo” que parece quase obrigatório a esse tipo de discussão. Elvis e Madona nada mais é que uma história de amor, com seus medos e empecilhos, não fugindo completamente, porém, das situações de confronto com a sociedade, como mostrado em uma cena onde Elvis deixa Madona na porta de seu apartamento, e um vizinho grita para “deixarem de pederastia”, fazendo com que Elvis demonstre seu lado mais masculino.



O filme perde um pouco por ter um roteiro meio pastelão e kitsch, caricaturando algumas vezes os personagens principais, e uma trilha sonora um tanto quanto duvidosa, além de por horas assemelhar-se muito com certas “comédias” brasileiras atuais. Apesar disso, os atores seguram bem o rumo do longa, principalmente Igor Cotrim (mais conhecido por sua participação no seriado de Sandy & Junior), que surpreende como a travesti romântica e determinada em busca de seu sonho, mesmo que em alguns momentos fique um tanto quanto desengonçado.

Ambientado em Copacabana, Elvis e Madona rompe estereótipos, ao mesmo tempo em que encontra sucesso por ser uma comédia aberta e simples, que poderia parecer subversiva, mas acaba encontrando soluções que o tornam adequado ao sistema, e de fácil apreensão ao público em geral. Entre o escrachado e diálogos muito bons, o casal aproxima-se e se apaixona, mesmo que Elvis goste de mulheres e Madona de homens. Histriônico e caricato, o filme não se propõe a uma discussão séria em tela, é uma comédia, e por isso mesmo, poderá atingir um público muito maior, num país preconceituoso, onde o espectador das salas de cinema mais convencionais dificilmente engoliria um drama que tratasse de um relacionamento considerado tão diferente.



Mas, no fim das contas, a relação está lá. Elvis e Madona desafiam a sociedade e seus próprios pensamentos burgueses (como dito por Elvis em uma cena), e tem como grande trunfo conquistar também o espectador preconceituoso que nem sabe que está sendo conquistado, mas que sai do cinema pensando nas possibilidades do amor e da vida. Observando reações na saída do cinema, e lendo entrevistas do diretor Marcelo Laffetti, é bonito ver que o pensamento pode também ser mudado aos poucos, através do riso, como pode ser ilustrado nessa frase, dita para o diretor por um sargento aposentado, ao final do filme: “nunca pensei que eu ia torcer por um travesti”.

Curiosidades:

Inicialmente, o diretor procurou um travesti para interpretar o papel, mas não o encontrou.
Igor Cotrim passou por uma oficina com Bayard Tonelli (ex-membro do grupo Dzi Croquettes), para interpretar o papel.
Esta foi a última aparição de Buza Ferraz no cinema. O ator faleceu em abril deste ano.
O filme começou a ser rodado em 2007, mas as filmagens pararam, por falta de grana, e só foram retomadas em 2008. Ele deve ser lançado nos cinemas em janeiro do próximo ano.

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