ENTER THE VOID: candidato à filme da década.

por - 02:29

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a espécie humana já se encontra num salto evolutivo espantoso até pra quem vive o presente dentro dela. da minha parte pode parecer uma certa síndrome de matusalém, mas a verdade é que não existe modernidade capaz de acompanhar a evolução da forma como ela tem sido, tão imediatista assim. o volume de informação tem sido extrapolado. confesso que existem dias que minha cabeça fica cansada, realmente cansada, de tanta informação que tento absorver. vi uma entrevista com Alan Moore, dia desses, que ele explicava de forma bem convincente os saltos evolutivos do pensamento humano, a que velocidade ele se encontra hoje e como se tornará, num futuro bem próximo, inconcebível para nós acompanhá-lo; a geração Y tem maior facilidade nesse processamento, confesso, mas parece que não existe muito dicernimento de como esse lote imenso de informação pode ser estocado no medonho arquivo mental, e toda informação fica lá, não só dentro das gavetinhas demarcadas com cada assunto, mas também sobre mesas e espalhadas pelo chão de extensa sala.


isso, de certa forma, pode servir de "prefácio" para o que eu realmente queria falar aqui: o novo filme de Gaspar Noé, ENTER THE VOID.








Gaspar Noé, um argentino de 43 anos com base fixa na França, é o que se pode chamar de cyberpunk-cineasta: uma carreira de poucas porém significativas realizações, ele sempre aborda de maneira pitoresca temas geralmente "evitados", não só pelo cinema, mas pela sociedade em todo: em seu universo, a vida comum e os relacionamentos humanizados são permeados por pedofilia, violência, estupro e horror real. seu release de 2002, Irreversível, chocou o espectador ao mostrar, por exemplo, detalhes criteriosos de um homem tendo seu crânio espatifado por um extintor e ao acompanhar quase que na pele uma cena interminável de 9 minutos de estupro e espancamento: ao final da cena, quando a vi pela primeira vez, estava em posição fetal, com os dois pés em cima da poltrona do cinema. nunca mais tive coragem de assitir esse filme novamente: essa é a sensação que um filme de Gaspar Noé causa, geralmente.Enter the Void não fugiu à (des)regra: agora, após um hiato de 8 anos, ele nos proporciona o inesperado por aspectos e pontos de vista inusitados e inovadores: em longas tomadas sem corte, planagens de camera e sempre visto em primeira pessoa - os olhos do personagem principal são sempre nossos olhos, e já nas primeiras cenas do filme você se coloca dentro da estória. A partir daí seria mais do mesmo, se o personagem Oscar, um garoto sem muita noção da crueza do mundo, não nos proporcionasse sensações que a maioria de nós talvez nunca, senão jamais, sentiríamos: Gaspar tenta reproduzir (com sucesso considerável) a sensação da lombra de DMT na tela, num caleidoscópio inicialmente agradável, de cores definidas e sombrias, numa sequencia que só se nota depois, quando o bicho fica "de cara" e vai caindo pra uma "bad" perturbadora, a ponto de você querer sair dela no mesmo momento que o personagem também quer. incomoda. e incomodar é o que Gaspar Nóe sempre quer: isso é só o começo.

As experiências a seguir são (ou até então eram) indescritíveis. ao menos para mim, algumas situações colocadas daí em diante eram inconcebíveis para esse plano de existência. o foda é que se eu contar mais que isso acabo estragando o filme! mas pra ter idéia do que eu tô falando, imagina só o que é estar DENTRO do fogo ou da eletricidade e conviver de boa nesse ambiente?! pois é. no cinema de Gaspar Noé, isso é possível. parece que tudo que ele tenta mostrar, ele mostra de um angulo que você nunca viu ou imaginou: corro o risco de falar besteira aqui, mas a tecnologia compromete o resultado. não por ser obsoleta, mais pela efêmeridade que ela enfrenta: o que é inovador hoje, em seis meses é brincadeira de criança, e isso banaliza a idéia um pouco do que se vê em Enter the Void. mas considerando a experiência visual que nos é proporcionada, eu me arrisco a dizer que Noé deu o próximo passo do cinema iniciados pelos Lumière, Eiseinstein, Kurosawa e Orson Welles.

óbviamente ele gira essa experiência única pra seus próprios interesses, e é aí que muita gente torce o nariz: os assuntos tabus, já citados lá atrás. Dessa vez, Gaspar Noé bota na roda, entre outras coisas, um relacionamento quase incestuoso entre um irmão, aspirante a traficante, e uma irmã dançarina stripper (a irmã interpretada por Paz de la Horta, não economiza as cenas de nudez e sexo); lombras visuais e sonoras causadas por opiáceos; uma catástrofe automobilistica de deixar os cabelos em pé; uma perturbadora cena de aborto clandestino e uma visão quase esotérica que dividirá opiniões pro-lifer e pro-choice; esoterismo aliás que extrapola até as recentes produções espíritas do cinema nacional: desse ponto de vista, criando uma liga entre kardexismo e reencarnação tibetana, com a somatória de ter sido rodado em Tokyo, Enter the Void faria Chico Xavier sorrir e dizer "tá vendo?: era exatamente isso que eu queria dizer!..."

enfim, Enter the Void vai fácil pra minha lista de Top 5 dessa década; o visu e a viagem são garantidas. dá até pra dizer que, no fim das contas, ao menos te dá uma idéia do que esperar do lado de lá. ou não.

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2 comentários

  1. está em cartz em SP? assistem em Santigo do Chile.

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  2. infelizmente esse filme NUNCA estreou no Brasil, Raquel...

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