Exorcismo, nostalgia e suor. Gravação do DVD do Street Bulldogs no Hangar

por - 16:30

Sábado, 17hs, São Paulo. A chuva ameniza mas ainda embaça a visão de quem usa óculos e o vitro do ônibus. Nas ruas, pessoas fumam cigarros embaixo de toldos de lojas, fogem e se protegem da chuva da maneira que dá. Eu, Paulo, com um guarda-chuva velho, me dirijo rumo ao ponto para ir ao Hangar, onde haveria um dos maiores shows do ano, Street Bulldogs. Ônibus lotado, um calor desumano, chão molhado, trânsito anormal para o horário e para o local. Recebo uma ligação da minha namorada avisando que meu amigo não poderia ir, por segundos exitei e pensei em voltar pra casa, mas não, não hoje, era Street Bulldogs, a banda que me fez passar 24hs sem comer para comprar o disco, a banda que não parava de tocar um segundo sequer no meu mp3 quando eu tinha 15/16 anos.

Subo a Rebouças e o coração começa a apertar: a ansiedade começou a tomar conta de mim. Consolação. Paro, acendo um cigarro na rua e tento baixar os nervos. Após não fumá-lo inteiro, vejo que o melhor é descer a escadaria e ir até lá. Trianon, Brigadeiro, Paraíso. Vergueiro, São Joaquim, Liberdade, Sé, Luz, Tiradentes, Armênia. Fiquei uma cota com o pessoal lá no bar, tomando umas e conversando, todos ali estavam ansiosos, principalmente quem nunca tinha visto a banda ao vivo. Fila. Tô dentro da casa, agora a resenha começa de verdade.

Street Bulldogs, ao vivo no Hangar, 11.12.2010



Um calor insuportável, o Hangar estava lotado. Os ingressos estavam esgotados. Me ajeito em um buraco e aguardo. Rolou um documentário enquanto o pessoal esperava, infelizmente não deu pra ouvir direito, mas segundo o Wladimir Cruz do Zona Punk, vai estar no DVD como bônus, então não se desesperem. Alguns avisos e a banda chega no palco. O público grita e reage de uma forma arrepiante, uma coisa era fato: estava presente quem realmente curtia o som e sente falta dos Bulldogs. Sweet Threat foi o som que abriu a noite nostálgica do dia 11 de dezembro. Em versos como “this is our sweet threat for you/ i'll dance, dance, dance in front of you”, os fãs cantavam em um único coro, todos de mãos erguidas e movidos apenas pela vontade de ouvir o som. Logo depois, sem pausa, outro hino, We build our own way, do primeiro disco full, lançado em 98, aconteceu a mesma coisa que na primeira, todo mundo cantando, Sheep and shepherds foi a terceira da noite, o que me achou atenção foi o fato de que quando chegou na parte do Nekro (Fun People, Boom Boom Kid) a platéia cantou e abafou o microfone do Léo e foi de causar uma certa emoção quando todos cantaram “I'm God free”. O show continuou rolando no mesmo ritmo: o público não parava sequer um minuto e o calor gigantesco que fazia não incomodava mais ninguém.

O quarto bloco, na minha opinião, foi o mais insano, imagina você, fã dos Bulldogs ouvir tudo isso seguido: Play this song again/ Rainy day/ Reaction/ Listen to me one more time/ Can't hear you call my name. É de estourar os tímpanos, não? Pois é, isso aconteceu. Sem pausas, sem nada. Todos, sem nenhuma exceção, cantavam os sons, dos mais moleques (me incluo nessa) aos mais velhos, vi gente de 30 anos ou mais, cantando, dançando, pulando, gritando e curtindo feito adolescente. Sem dúvidas, o bloco mais animado.




 Street Bulldogs, ao vivo no Hangar, 11.12.2010


Mas(s)ters/ Sensation/ Less than your words, davam a entender que tudo estava se encaminhando para o fim. No meio de muitos agradecimentos de todos os membros da banda, inicia-se o penúltimo bloco. Insano, insano, insano, meus caros! Nostalgia de quando eu pegava o cd e ficava ouvindo sem parar, riscando de tanto ouvi-lo. A plateia parece que também partilhava do mesmo sentimento, não se aquietaram e foram até o fim.

Último bloco oficial do show contou com Tornado, Call me at home e Spider. Não sei muito bem a letra de Tornado, apesar de ter ouvido bastante durante meus 16 anos, mas Call Me at Home eu sei de cor e salteado e cantei até o fim, sem pausa, vez ou outra conseguia ouvir minha própria voz. Spider animou todo mundo por ser um baita som, mas começou a chatear algumas pessoas que estavam a minha volta por indicar que, tudo isso, todo esse espetáculo nostálgico estava chegando ao fim. Red Roses Bouquet, sugou todo o resto da minha energia. Ensopei a camiseta de suor e mesmo ali, no meu canto, sem moshar, sem bate-cabeça, curti o som de uma maneira que nem eu imaginara. Depois o Léo avisou: vamos ter que refazer dois sons e depois a gente toca Tarde Demais pra vocês. O público delirou e eu também.





 Street Bulldogs, ao vivo no Hangar, 11.12.2010



Play This Song Again e Spider tiveram que ser retocadas. Maravilha. Mais dois sons para nós. Por incrível que pareça, mesmo que o cansaço já houvesse batido, as músicas foram mais animados (sim, acreditem). Um riff de guitarra que eu conhecia muito bem, tanto quando executado pelos Bulldogs, quanto executado pelo Dead Fish, Tarde Demais começa e agora sim, para fechar com chave de ouro, a galera se descontrolou - no melhor sentido da palavra. A música em português fez quem não entendia de inglês cantar sem ter medo de errar a pronuncia ou a palavra. A estrofe mais marcante: “Tudo se confunde sem noção de nada/ Bombas são brinquedos e flores talvez possam explodir/ A vida é um quebra cabeças incompletos/ Onde a peça que falta se chama esperança”. Últimas palavras e a música para finalizar, o esgotamento das energias de todos, mais o objetivo foi alcançado: lavei a alma.

Um tempo depois de conhecer a banda e nunca imaginar vê-los ao vivo, consegui. A nostalgia tomou conta de todo o meu corpo – até doía como antigamente, sai do Hangar com a sensação de ter passado por uma sessão de exorcismo, daquelas que aconteciam na Record. Parabéns a organização que conseguiu começar pontualmente o show, a todos os presentes, a banda e a dor que me incomodou o dia inteiro.





Street Bulldogs - Tarde Demais (11.12.2010, Gravação de DVD no Hangar 110)



Saí da casa, fui pro metrô, sentei ainda tomado pelo sentimento que o show me trouxe, o trem chegou. Próxima estação: Tiradentes. Penso: “Exorcismo, nostalgia e suor. Gravação do DVD do Street Bulldogs no Hangar”. Boa noite.

obs: todas as fotos usadas foram retiradas do Flickr da Karen Lusvardi

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