Os 5 melhores filmes nacionais de 2010 (e um gringo Pro cês), por Gabriela Alcântara

por - 15:04

Seguindo a vibe de lista de melhores do ano, vai uma de filmes (que passaram em 2010, não necessariamente foram feitos). Entre curtas, médias e longas, esses foram alguns dos filmes que eu mais curti em 2010:
Quincas Berro D'Água - Dir: Sérgio Machado: Adaptações literárias para o cinema, no Brasil, podem gerar experiências sofríveis (que o diga O Bem Amado, também desse ano). Esse não é o caso. Quincas Berro D'Água é talvez um dos filmes mais sincronizados à literatura do baiano Jorge Amado, com o diretor Sérgio Machado apresentando-se extremamente à vontade com o universo de Amado, além de entregar ao expectador brasileiro a deliciosa comédia que ele tanto aprecia. Coroado com trilha sonora maravilhosa do mestre Siba Velloso, e com atuações fantásticas de todos os atores envolvidos, principalmente a de Paulo José (Quincas), que estava doente quando foi convidado para participar do filme, mas nos presenteia com um Quincas divertido e irônico.




Bailão - Dir.: Marcelo Caetano: Certamente um dos filmes mais poéticos de 2010, o curta Bailão, do diretor Marcelo Caetano, dá voz a homossexuais da terceira idade que frequentam um baile gay no centro de São Paulo. Falar sobre esse tema poderia levar rapidamente a um drama sem fim, e Marcelo foge da solidariedade piedosa, entrando no espaço dos seus personagens, convivendo com eles, e mostrando, entre outras coisas, a beleza dos casais na pista de dança, entrecortados por falas de senhores para os quais, como diria um deles, a liberação sexual veio muito tarde. Como documentário, Bailão se apresenta suavemente num estudo geográfico e antropológico de poesia simples e sincera, conquistando rapidamente o espectador.



Recife Frio - Dir.: Kleber Mendonça Filho: Um dos filmes mais comentados do ano, premiado em diversos festivais e extremamente aplaudido no Cine PE, Recife Frio merece todos os bons comentários que recebeu. Kleber Mendonça apresenta um universo fantástico, inimaginável no cenário da cidade: neve, pingüins na praia de Boa Viagem e vendedores do Mercado de São José que comercializam bonecos de barro vestidos com casacos, cachecóis e luvas. O diretor foi incrivelmente feliz na realização de seu "filme de ficção científica pernambucano", recheado com toques de ironia e um humor fino, que critica a sociedade conformada, que prefere passear nos shoppings a conhecer verdadeiramente a sua cidade. Nesse final de semana o filme foi lançado em dvd, e no domingo, as primeiras 300 cópias já estavam esgotadas. No Recife, além da Livraria Cultura, ele está à venda no Café Castigliani.


Dzi Croquettes - Dir.: Tatiana Issa e Raphael Alvarez: Life is a cabaret! Em meio à censura que reinava no Brasil durante a ditadura, nasce um dos mais importantes grupos teatrais do país: o desafiador Dzi Croquettes. Homens maquiados, cheios de purpurina, usando roupas femininas e deixando de fora suas pernas cabeludas. O Dzi Croquettes simplesmente não tinha "culpa de ser chique assim", como cantavam em uma de suas apresentações. Não fosse pelo documentário, porém, o grupo passaria quase esquecido na história brasileira. "Procuramos no Google e vimos que não havia nada", chegou a afirmar a diretora Tatiana Issa. Um relato sentimental, que louva a trajetória do grupo e apresenta, entre outros, depoimentos de Liza Minnelli, Ney Matogrosso, e de alguns de seus integrantes. Um verdadeiro presente, tanto para quem já os conhecia, quanto para os que passaram a conhecer após o documentário.


Viajo porque preciso, volto porque te amo - Dir.: Karim Aïnouz e Marcelo Gomes: O road movie com um personagem central que nunca aparece pode incomodar no começo, mas em pouco tempo o espectador é conquistado pela voz grave e repleta de melancolia do geólogo José Renato (Irandhir Santos), que narra os 75 minutos de história com uma sensibilidade belíssima, enquanto somos presenteados com paisagens maravilhosas e áridas, e personagens que passariam despercebidos em nosso cotidiano, mas compartilham nossos desejos mais simples, como a prostituta Paty, e seu sonho de ter "uma vida lazer". A solidão, a poeira e a melancolia parecem encher o mundo ao redor do espectador, que embalado por bregas que vão desde a belíssima Último desejo, de Noel Rosa, até Morango do Nordeste, vê o mundo através dos olhos do geólogo que viaja para esquecer o amor de sua galega.


O Gringo

Mary and Max - Dir.: Adam Elliot: Se pra mim escolher cinco filmes brazucas já foi complicado, eleger apenas um nacional desse ano pra recomendar, parecia tarefa impossível. Procurei me lembrar do filme que eu mais recomendei, desde que assisti, e então, tudo ficou mais simples. A animação em stop-motion do australiano Adam Elliot (que fez o também fantástico Harvie Krumpet) é mais do que uma simples animação. Elliot traz uma atmosfera familiar em seus bonecos, como se conhecêssemos aqueles seres aparantemente esquecidos em seu mundo. A história melancólica de uma amizade incomum entre uma solitária menina de oito anos chamada Mary (Toni Collete), e um homem de 44 anos, paranóico e obeso, chamado Max (Phillip Seymour Hoffman), nos é apresentada pelo diretor através de uma visão cheia de beleza e inteligente comicidade. Através de cartas (Mary mora na Austrália, e Max em Nova Iorque) enviadas durante 22 anos, os amigos se ajudam, enquanto contam peripécias e enviam chocolates. Assim como em Harvie Krumpet, Mary and Max nos delicia com o universo e a arte de Elliot.

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