Pena que me levou tanto tempo pra ver, pra ouvir e pra saber, quem eram vocês

por - 14:00

Eu sempre quis escrever algo sobre o Ludovic. Não sei ao certo o motivo. Pode ser porque é uma das bandas que eu mais dou valor do mundo (sim, por mais exagerado que soe) ou porque foi uma das bandas que mais marcou minha vida e principalmente aquele período conturbado de adolescente (dos 15-18 anos, e olha que eu tenho 18 e ainda vivo isso), sei lá, isso não é tão importante quanto parece, o que importa é o significado disso, dessas quatro pessoas que fizeram por muita gente, o que várias bandas nacionais nunca conseguiram: despertar emoção em pessoas duras, fechadas e introvertidas. Falo isso porque sou assim, porque vivo isso da hora que acordo à hora que vou dormir. Sim, a banda acabou e muita gente sente falta.



Jair Naves em sua carreira solo continua com genialidade e conseguiu uma evolução tremenda, o Hugo no Hierofante Púrpura também, o Quarto Negro do Eduardo é um projeto muito bem montado e tocado, mas lá no fundo, sinto falta da adolescência que era passada no Ludovic. Das guitarras mais “sujas” soando hora Black Flag - como no disco servil, hora mais Sonic Youth e Mission of Burma - no Idioma Morto, dos berros infindáveis do Jair aos solos magistrais e por incrível que pareça simples do Zeek, das letras perturbadoras, como é o caso de Mais Um Vexame Para Minha Coleção a letras que tratam diretamente de um dos sentimentos mais complexos do mundo, o amor. Não sei ao certo se foi o momento, se foram as letras bem construídas ou o clima post-punk criado pela banda, sei que sinto falta.


Infelizmente, não pude acompanhar nenhum show; era menor de idade e não podia entrar nas casas onde a banda tocava e convenhamos que esse lance de RG falso é bem fã de Amelie Poulain, o que eu repugno, mas enfim, não é esse o foco; o foco é a genialidade de uma banda classificada por Jair Naves (seu ex-vocalista) como ridícula, em um texto perdido no antigo site da banda que hoje encontra-se fechado. Quem conhece e acompanhou os dois CDs de forma atenta, sabe sobre o que falo, sabe como é ouvir Mais Um Vexame Para Minha Coleção e Trégua e logo em seguida pensar: “caralho, mas já acabou?”, aí você vai e aperta o play de novo e volta a deitar no sofá com o encartezinho na mão vendo as fotos, lendo dedicatórias e pensando na sua vida, imaginando como a banda canta cada pensamento que já rondou sua cabeça. Talvez soe estranho um texto disso ou vocês achem que é pura rasgação de seda, chupação de saco ou seja lá do que quiserem chamar, só sei que sinto falta e me arrependo amargamente de não ter tentado uma única
vez explicar tudo isso que escrevi para o segurança da casa.



Neste exato momento, ao som da primeira faixa do Idioma Morto, tento achar algum motivo para essa banda não ter tomado o Brasil e muitas pessoas. Li uma vez que o que fazia a banda genial para a maioria dos fãs era o fato deles serem pessoas normais, que trabalham de segunda a sexta, que agüentam chefe enfiando o dedo na sua cara e te dando ordem. Aquela velha história do crachá ter o peso de uma cruz. Lembra, Jair? E concordo. Pessoas ‘normais’, talvez isso seja a chave, o que trouxe a tona o ódio que sentia do mundo e de muita gente através da música deles, pois se são pessoas normais, sabem o que os outros sentem, passam por coisas parecidas. Chega. Agora percebo que começo a divagar e esta é a hora que o melhor é parar, deixa pra lá, só sei que sinto falta.




Ludovic - CVV

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2 comentários

  1. >Eu ia dizer que meu primeiro show do Ludovic eu era menor de idade.Mas fazendo as contas, em 2006 eu já era maior de idade!Caraleo, hoje me sinto velho, com 18 anos me sentia tão moleque, e era moleque de fato.Ludovic foi a banda que mais marcou minha vida. Claro, existem outras, mas foi a unica que presenciei, que fiz parte da história. Uma daqueles bandas que ou você não gostava, ou você viciava, não existia o meio termo.Os shows eram os melhores, toda platéia que fica ali naquele meio em frente ao palco você via que curtia tão quanto você. Ser adolescente é complicado, tu ainda não conhece nada da vida, começa a conhecer mas com muitos tombos.E os meus tombos sempre foram acompanhados de alguma musica, uma discussão no trabalho, nós os milionários, um amor não correspondido, Vane Vane Vane, uma tremenda idiotice, mais um vexame para a minha coleção.Como uma droga, precisava de doses de tempos em tempos, um vicio que me fez viajar duas horas de trem, que depois de um pouco de Ludovic para lavar a alma andei da rua augusta até a minha casa.Hoje vivo em abstinência, talvez isso foi o melhor pra mim.O trabalho novo do Jair é excelente, mas não é um Ludovic, não é o rock sujo, não tem os riffs do Zeek, não tem os discursos e as ofensas em frente ao microfone.Mas é isso, todos os ciclos de nossas vidas tem que ter um fim. E meus 18 anos foram até então o melhor de minha vida.

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  2. >É, PH, já tem um pouco mais de 1 ano que eu faço a mesma lamentação do título do seu escrito. Conheci bem tarde, com "Eu Fiz Pouco Caso de um Gênio" na MTV e a reação mista de paixão e arrependimento me pegou de jeito. A paixão veio com a recepção de uma sinceridade ácida e vinda do âmago do Jair, algo que eu não tinha presenciado até aquele momento (na verdade, aconteceu de novo, com Araguari II), já que nos últimos 6 anos, a maior parte do que eu ouço é metal extremo com umas poucas alternâncias entre rock mais brando. E com isso veio o arrependimento, por tantas vezes ter visto Ludovic no now playing do MSN de uma amiga e pensado "ela curte essas coisas emo e Ludovic deve ser emo também, deve ser um tremendo lixo". Arrependimento forte, já que Ludovic & Jair Naves me inspiraram a uma mudança de como eu entendia os sentimentos e essa mudança chegou tarde. Mudança esta que hoje me dita que é possível expressar uma variedade de emoções através de uma variedade de formas, sem, definitivamente, soar meloso e "emo". Mudança esta que me faz colocar "CVV" e "Um Grande Nó" pra tocar em alto e bom som, pegar um microfone e cantar como se eu fosse o último habitante da Terra. É um soar significante entre insignificantes seres.E entre muitos cabeludos tatuados que em seus guturais cultuam a "Satan" (já que ainda curto muito metal), Jair Naves é um justo ídolo e Ludovic uma justa obra.Abraço

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