Como Esquecer: perdas, amores e recomeços

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Ao entrar na sala de cinema, quem espera encontrar um filme sobre um relacionamento homossexual, engana-se profundamente. Quem espera encontrar um filme de amor num estilo quase novelesco, com atores globais conhecidos, também. Como Esquecer, da diretora Malu de Martino, vai além desses rótulos. É um filme delicado e simples, que encontra a beleza na sua simplicidade, ao falar de perdas, definitivas ou não, e das diferentes reações para superá-las.



Baseado no livro Como Esquecer - Anotações quase inglesas, de Myriam Capello, o filme tem como personagem principal a professora universitária Júlia (Ana Paula Arosio), que ao terminar seu relacionamento de dez anos com Antônia, entrega-se ao sofrimento sem o menor pudor, atingindo por vezes o masoquismo, como no começo do filme, quando queima uma foto e apaga o fogo com a própria mão, enquanto amassa a fotografia. Júlia precisa esquecer Antônia, precisa seguir com a vida, precisa descobrir como pagar o aluguel de seu apartamento, como concentrar-se novamente nas aulas, precisa aprender a viver sem a constante presença do outro, que após dez anos de convívio diário, passa a ser pedaço do seu próprio eu. "O que será que é o contrário do amor?" pergunta Júlia, e essa dúvida martela na cabeça do espectador, que a acompanha na busca pela resposta.

Em meio à tormenta, Júliatem como companhia o amigo Hugo (Murilo Rosa), ator viúvo que perdeu o marido recentemente em um acidente de carro, mas apesar do luto, procura encarar a vida com otimismo e bom humor, e tenta trazer um pouco de alegria para a professora universitária, que é encarada como uma mulher seca e sarcástica. Além deHugo, ela passa a conviver também com Lisa (Natália Lage), uma garota meio hiponga que é abandonada pelo namorado ao descobrir que está grávida. E é graças ao jeito de Hugo ver as coisas e a tentativa de ajudar Lisa, que a vida de Júlia passa a mudar, mesmo que lentamente. E é também graças ao papel exercido por Murilo Rosa que o filme ganha um tom mais leve, chegando até a arrancar algumas risadas da platéia, que identifica-se com os personagens.







Além de ter um belo roteiro - que se perde apenas em uma cena onde a professora conversa com a menina debaixo da chuva, e que poderia ser facilmente retirada do longa -, Como Esquecer ganha o público especialmente graças aos seus atores. Ana Paula Arosio, Murilo Rosa e Arieta Corrêa (Helena) nos apresentam a homossexuais nada caricatos (coisa rara no cinema brasileiro), e sim pessoas normais, adultos, que amam, sofrem e vivem como cada um de nós. Com entregas humanas aos personagens, os atores provam que fogem do rótulo "global", e podem experimentar outros papéis com certo sucesso. Outro trunfo do filme são as cenas no estilo amador, onde Ana Paula nos é apresentada com leveza e beleza espetaculares, através do olhar da câmera carinhosa, revelando cenas de um relacionamento que ainda existia e florescia. Além disso, mesmo que entrando um pouco no clichê, a trilha sonora tem seu louvor, um sentimental jogado de cara para o espectador, que escuta Retrato em branco e preto na voz de Elis Regina, logo nas primeiras cenas, casando perfeitamente com a estória apresentada.



Ainda fugindo belamente dos clichês encontrados no cinema brasileiro, Como Esquecer nos apresenta a uma linda cena de sexo, onde o olhar apelativo e masculinizado finalmente dá lugar ao delicado, à beleza, e talvez até ao carinho e admiração ao corpo feminino. Decididamente o filme não é nenhuma pérola cinematográfica, mas a naturalidade com que trata a situação de seus personagens conquista rapidamente o público, que sai da sala com a sensação de que, por mais que demore, tudo passa (principalmente com a ajuda de bons amigos). E para aqueles que esperavam ver mais da bandeira homossexual no filme, a atriz Ana Paula Arosio tem um recado: "A homossexualidade, de ninguém no filme, é mais uma preocupação. São pessoas assumidas e bem resolvidas com isso.Quem for para ver uma sessão da tarde gay...Não é exatamente isso. Porque a questão são os sentimentos das pessoas e não o que elas fazem com a vida delas".


Curiosidades:
Ana Paula Arosio ganhou o prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor atriz por sua atuação no longa
Durante a pré-produção, a produtora Elisa Tolomelli recebeu muitos "nãos", mas sua primeira foi procurar a mesma distribuidora que lançou Brokeback Mountain.

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