como abandonar um navio em alto-mar?

por - 08:32


já tem uns bons anos que decidi que não teria mais um carro. foi provavelmente num dia chuvoso, parado num semáforo verde sem poder avançar além da faixa de pedestres, para não impedir a passagem de algum transeunte nem travar a mão livre do farol, sem musica no carro, sem um livro, com um imbecil buzinando loucamente na minha traseira e de repente, num ambiente assim, me peguei gritando descontrolado e esmurrando o volante e a lateral da porta, as pessoas na rua olhando sorrateiras pra mim e... plim! algo me veio na cabeça como um letreiro de obviedade: "que diabos eu tô fazendo??: isso não sou eu. eu não sirvo pra dirigir".

Acredito assim da forma mais vislumbrante possível que as pessoas tem que saber a hora certa de parar com as coisas. eu sei que me engano dizendo que as pessoas deveriam pensar assim também... mas ok, deixa eu me enganar. o fato é que moro no centro da cidade há uns 15 anos e isso sempre pesou muito na praticidade de ir e vir a pé entre o transito infernal. isso foi só o começo. vamos incluir nesse pacote o valor do combustível, a manutenção de peças estragadas, seguro contra roubo, incêndio, enchente, o valor de um estacionamento e a dificuldade para encontrar um desses livres, o caos causado quando há um volume de veiculos em demasia na rua. é o suficiente? se não for, pense ainda no gás carbônico extra dispersado em nosso ar "respirável" e na poluição causada por grande parte dos componentes que formam um veículo, que envolve óleo de motor, água de bateria e asbestus, entre outras porcarias.

Vantagens? ok, vamos às vantagens: numa viagem longa você tem prioridades de conforto e ritmo de intervalos de parada... mas precisa de pagar pedágios caros. e muito, muito dinheiro para o combustível que queima o ar, o que seria, numa analogia de relação, seu dinheiro queimado estragando o ar que você respira.

outra "vantagem": num rolé noturno, a hora de se cansar e voltar pra casa é completamente opcional. buena, pero no mucho: se você está dirigindo, não pode beber ou fazer uso de nada que altere sua consciencia - alguém além de mim respeita isso? - ou seja, pra quê sair de casa a noite pra não se divertir?? pra isso é melhor fazer uso do transporte publico ou taxi, já que esse papo de "eu dirijo melhor quando tô bebado" é conversinha, vá.

mais algum benefício? não? então, bem, é isso: as vantagens de se ter um automóvel, pra mim, terminam por aí. desde então considero uma das poucas decisões sábias que tomei na vida.

eu não tenho muitas ilusões quando se trata do comportamento humano: simplesmente não me engano mais com isso. mas mesmo assim você tem a tendência de se ater a um fio de esperança, afinal de contas estamos falando da SUA ESPÉCIE! você faz parte dela!! e dessa forma a gente acaba pensando "ahh, as pessoas estão melhorando. levemente. sutilmente. a evolução é um caminho que força a melhoria dos atos e pensamentos humanos"... uhum.

mas daí, mesmo com o grande peso das barbáries modernas que assolam esse sofrido planetinha, ainda me aparece algo que acaba me surpreendendo:



o que dizer? o que pensar? seja lá o que for, meça suas palavras: ele é um semelhante seu! ele é bípede, mamífero, hominideo. ele desenvolveu comunicação por fala. ele desenvolveu pensamento, herdado pelos nossos antepassados; ele desenvolveu consciencia, que pode ser considerada uma evolução do pensamento onde o cérebro previamente simula situações e filtra opções cada vez mais concisas e "justas", dada o grau e ambiente da cultura local. ele também se diz civilizado, assim como você.conclui-se que existe então algo que te impede, teoricamente, de fazer besteiras imensas, algo chamado consciencia. certo? ou não?

suponhamos que você esteja sentado à frente de um volante. um pedal no seu pé direito que acelera e outro no pé esquerdo que faz parar. suponha que um grupo de ciclistas, ou pedestres, ou bois, ou cachorros, ou senhoras com bebês no colo, estejam atrapalhando sua locomoção, te atrasando pra um compromisso, pra chegar em casa e tomar um banho depois de seu chefe te esporrar o dia todo ou qualquer motivo que lhe chateie. suponha agora que você se pegue pensando "caceta, que povo lerdo da porra! quero passar!! dá vontade até de atropelar todos, passar por cima de um à um!!!!"... nunca pensou isso?? o quê!, nunca lhe passou pela cabeça??? duvido que não.

mas aí que entra a tal da consciencia, do dicernimento, da noção: você faz uma soma de A mais B na cabeça que lhe diz que não é certo você atropelar todo mundo, seja qual for seu motivo pra isso. e você não faz, não porque alguém superior à você lhe disse que não se deve fazer isso!! você SABE porque você SABE!! é tão óbvio que mal se pode explicar esse processo sem que seja necessário uma inteira aula de reações quimicas cerebrais!

o que dizer? o que pensar? seja lá o que for, eu acredito que é tarde demais. é um caminho sem volta essa direção que o comportamento humano tem tomado. um caminho que só prevê ódio contra o semelhante, mesquinharia para com o semelhante, poder sobre o semelhante, e escárnio e desprezo sobre tudo mais que está em sua volta. o futuro dessa espécie se torna cada dia mais negro, e essas cenas são a prova disso. daqui é só ladeira. sinceramente, às vezes até entendo porque as pessoas se "cegam" pro mundo em volta com algum reality show, novela, futebol, carnaval: todo mundo na ladeira, dentro dum carro sem freio, e fazendo de conta que não vê o muro que existe no fim dela.

***

nem curto falar sobre temas "trend tópics", mas isso diz respeito a algo mais "complicado" do que um simples assuntinho da moda: diz respeito ao rumo que as coisas têm tomado. e mesmo porquê, daqui uma ou duas semanas esse acontecido se apagará, dado algum outro fato mais "cabeludo" que porventura apareça nos noticiários e youtubes e facebooks. de qualquer forma, pra esse assunto não deprimir ninguém, fica quase como obrigação minha desejar "boa sorte" pros marujos de primeira viagem e pros lobos do mar que ficam com um balde na mão tirando a água que vaza pra dentro do barco pelos inúmeros furos no convés. afinal não há como abandonar o barco: eu mesmo já o teria feito.

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