Um Homem que Grita

por - 11:24


Quantos filmes africanos você já assistiu? Infelizmente, para a maioria de nós, a resposta mais comum é: zero, nenhum. Isso se deve graças a diversos fatores que não cabe discutir aqui, entre eles a dificuldade de se ter acesso ao cinema africano, o que acaba nos deixando com uma ideia cada vez mais generalizada do continente, visto que só temos maior acesso visual a ele em forma de notícias sobre tragédias, ou filmes que rezam a cartilha fome/miséria/guerra civil, com uma ênfase muito maior na guerra que em seus personagens.

Dentro dessa escassez, e tendo ganho o prêmio especial do júri em Cannes ano passado, chega aos cinemas brasileiros o longa Um Homem que Grita (Un Homme qui Crie), do diretor Mahamat-Saleh Haroun. O longa, uma co-produção do Chade com a Bélgica e França, conta a história de Adam (Youssouf Djaoro, em belíssima atuação), ex-campeão de natação que se vê realizado como salva-vidas principal da piscina de um hotel de luxo, junto com seu filho, Abdel, e parece ignorar a guerra civil do Chade, que surge durante uma revolta ao governo (em meados de 2007) e se aproxima cada vez mais de sua família. Enquanto isso, o hotel onde pai e filho trabalham é vendido a um grupo de chineses, e Adam perde seu amado posto oficial na piscina para o filho, passando a assumir o uniforme de porteiro, sentindo-se humilhado e trabalhando sem paixão.


Com delicadeza e sem pressa, Haroun vai nos mostrando a proximidade da guerra, e seus efeitos na família e na cidade, com os habitantes fugindo o mais rápido que podem, levando nos braços os filhos e o necessário para sobreviver. Adam se vê obrigado a enviar Abdel para a batalha, já que não possui dinheiro suficiente para contribuir com os seus aliados na guerra. A tristeza e a sensibilidade exibidas na tela são grandes, como se o espectador observasse o desespero de uma população através dos olhos de um homem que não sabe o que fazer, e já não acredita mais em deus, mas acorda e move-se em busca do filho.

Apresentando cenários belíssimos (com fotografia que faz jus a eles), o diretor e roteirista consegue unir o drama de uma família ao drama de toda uma sociedade cercada pela miséria, sem forçar amarras. Para aqueles que não se incomodam com planos e closes longos, e souberem apreciar o silêncio contemplativo de Adam, essa é uma ótima chance de ver um filme esteticamente belo, com bom roteiro, que olha para o Chade sem clichês. Um filme que, se não tivesse ganho prêmio em Cannes, dificilmente teríamos a chance de conhecer.



Curiosidades (atenção, spoiler!) :
O filme termina com uma belíssima citação de Aimé Cesairé: "Não fique indiferente, a vida não é um espetáculo. Pois um homem que grita não é um urso que dança."

Você também pode gostar

0 comentários