Como ocorre a decomposição sob a máquina

por - 12:32


Post-rock, experimental, instrumental, noise ou música baseada em ruídos aleatórios? Difícil encontrar algum gênero que explique o som feito pela banda carioca, Sobre a Máquina. Lançou em 2010 seu primeiro disco, Decompor, originalmente disponibilizado pelo selo online Sinewave, do brodagem Elson Barbosa. Entrou em muitas listas de melhores do ano, ganhou resenhas na gringa e teve download disponibilizado no post-rock-xchange (site bem conhecido de quem é fã do gênero), dividindo post ao lado de bandas bem consagradas desse estilo como A Silver Mt Zion, Toe, Godspeed You Black Emperor e por aí vai, então não poderia deixar em branco esse disco tão enigmático e gostoso de se ouvir.

O CD é aberto com a faixa Expediente Contínuo. A música que começa leve, com pequenos barulhos, vai tomando uma dimensão sombria e assustadora. Com alguns barulhos que lembram o eco dentro de um galpão, de algo batendo em algo, e uma guitarra distorcida bem de leve que se une aos outros elementos de maneira tão coesa que fica difícil de perceber que de fato ela está ali. Com o passar do tempo, tudo se intensifica, tanto a guitarra, como o eco e outros elementos são adicionados na música. Um ruído de fundo, que faz você imaginar alguma coisa voadora passando de um lado pelo outro (até pela transferência de canal que ocorre: uma hora está no direito, na outra no esquerdo) soma-se com todo o ambiente ‘dark’ criado pela banda e vai encaminhando a faixa para seu fim.



Rotina, segunda música do álbum, não abandona de maneira alguma a proposta de soar amedrontador. Só que aqui, tudo ganha um ar mais musical que na primeira, Expediente Contínuo. O começo da faixa lembra bastante a sua anterior: ecos e ruídos estranhos. Quando outros instrumentos e sons são adicionados, tudo fica tão agradável de ouvir que talvez você pense: “é post-rock! Tô ouvindo claramente!”, mas não, ao fim da música, a mesma atmosfera esquisita volta rapidamente para fazer um prelúdio à sua posterior, Fôlego.

Unindo todo o noise e a distorção de bandas clássicas como o Sonic Youth, na terceira música, o Sobre a Máquina consegue um feito heroico: o de unir de uma maneira legal os trechos de alta distorção com os que soam música ambiente e instrumental calmo, como Sigur Rós e etc., entretanto, a constante oscilação de um estilo para o outro fica como marca registrada da música. O título se encaixa perfeitamente com a sonoridade: alguém tomando fôlego, fazendo a máquina e a engrenagem girarem. Nos momentos de distorção, o trabalhador está com sua energia revigorada, nos momentos mais calmos, ele respira, tenta recuperar o ar e voltar a desempenhar sua tarefa, seja na fábrica ou na rotina.


Conflito talvez seja a grande revolução do personagem desse álbum. Os ruídos do início da faixa parecem uma marcha, algumas tábuas caindo no mesmo ambiente que tudo começou e que o Expediente Contínuo tomou cara e forma. Dessa vez, seu começo não é mais distorcido, tão pouco assustador, é de cara, sem nenhuma introdução, sem nenhum aviso do tipo: “a transmissão dos nossos ruídos estão começando”, está lá, nua e crua no rosto de todos, levando uma característica mais post-rock até em torno de quatro minutos e meio, depois algumas vozes abafadas e altas são colocadas na música, barulhos de cadeado, portões se abrindo e as guitarras aumentando em um ritmo frenético. Parece que nosso funcionário está tentando se libertar de seus demônios, pela levada que a música ganha, agora mais pesada, mais Nine Inch Nails e as coisas vão se acalmando, com alguns barulhos que lembram algum componente eletrônico queimando por curto-circuito. Talvez nem sejam eletrônicos e sim o personagem, o funcionário, que entrou em curto-circuito após tentar se libertar.

Por fim um resumo da ópera, do álbum e da mensagem: se repararem bem, todo o disco carrega uma temática e não precisa de letras para expressar a angústia, medo e revolta do eu-lírico, o próprio instrumental se encarrega, e muito bem, dessa tarefa. Expediente Contínuo, Rotina, Fôlego e Conflito narra em ordem cronológica o fato de essa pessoa estar se decompondo, mesmo que de maneira lenta e mesmo tentando lutar contra isso, parece que não consegue. O disco consegue ser político sem deixar isso tão na cara, são coisas sutis, algumas vezes sombrias, em outras poéticas. Parece que o eu-lírico se decompôs por estar sob a máquina.

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1 comentários

  1. >Gostei bastante da resenha. O disco é interessante mesmo, mas senti falta do que mais gosto em qualquer banda/disco: individualidade. Algo q faça aquele som ser identificado com aquela banda. Acho q isso vem com experiência =)

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