Entrevista: Karina Buhr - Um ano mentindo para você...

por - 17:31


Nesse dia primeiro de Abril, você deve ter visto em diversos sites por ai postagens com o belo disco da Karina Buhr, lançado no ano passado, entitulado: Eu Menti Pra você. No link divulgado vão todas as faixas do disco e o encarte completo em pdf com letras, artes e tudo que tem direito. Fora isso, vai de brinde as cifras da canção que da nome ao disco para todo mundo tocar certinho neste dia da mentira. Numa bela estratégia, pela primeira vez a Karina fez uma campanha de downloads do disco, foi uma bela idéia atrelar o mesmo ao dia de hoje. Você pode baixar o disco da beldade la no Hominis Canidae (ainda cata um bootleg dela tocando ao vivo), e subimos apenas o encarte e a crifa neste Link (caso ja tenha o disco e queira ter o resto) e ainda confere uma entrevista com a bela cantora.

A cantora, que nesse mês faz shows dia 9 de Abril no Circo Voador, no Rio de Janeiro (Toca na mesma noite de Marcelo Jeneci e Arnaldo Antunes) e no dia 17 de Abril no festival Abril Pro Rock, no Recife (com um monte de gente, Tulipa Ruiz, Holger, etc). Porem, em vez de apenas fazer um post com este link, tentamos contato com a beldade e fizemos algumas perguntas. Tal qual a pessoa que escreve agora, a Karina topa idéias em cima da hora e participa da melhor maneira possível, segue então a entrevista/papo/conversa. Se não conhece a cantora, aproveite para conhecer e sacar o som...


01. Primeiro uma curiosidade, porque demorou t
anto pra você lançar o primeiro disco solo?! Tem um gap ai entre a comadre florzinha, por exemplo, e o disco. Acha que demorou mesmo?

Não acho que demorou nem que não demorou, porque eu não tinha um prazo pra fazer, então rolou na hora que foi natural rolar. Banda é um troço melindroso e desapegar desse formato é uma coisa que sempre dá uma tremida no chão. Já vi isso acontecer várias vezes e comigo também foi assim. A Comadre é um trabalho que comecei, junto com mais uma pessoa, que batizei a banda e sempre tive uma ligação igual a de um trabalho solo, principalmente depois que só eu continuei da formação original, então mais ainda não sinto como se tivesse demorado.

02. Como foi o processo de escolha da sua banda?! Falei com o Guilherme (Guizado) e ele me disse que o provável link dele contigo
foi por você ter curtido o punx. Pensou na construção da banda?! E na gravação?! Foi usada a mesma banda que usa nos shows?!

É, eu convidei Guizado depois de um show bem massa do Punx. Comecei essa história com Otávio Ortega, tecladista, dj e amigo, do Teatro Oficina (onde passei 5 anos) e Guilherme Calzavara, baterista e trompetista, também do Oficina. Com a saída dos dois acabei procurando por um trompete, pra continuar a ter esses timbres nas músicas. Convidei Gigante Brazil, com quem tinha tocado algumas vezes, no show de Celso Sim e ele topou. Mas os deuses têm mania de ir embora. Convidar Bruno Buarque foi natural, por conhecer ele há muito tempo e admirar o músico que ele é. Dustan eu já conhecia do Cidadão Instigado e convidei pro lugar de Otávio. Ter os teclados dos dois no disco foi uma coisa inesperada, já que eu não previa que Otávio saísse, mas foi também um luxo, porque são dois monstrinhos, com estilos bem diferentes.

Mau
eu conhecia há muito tempo também, sempre tocando com Bruno Buarque, principalmente reggae, na banda Afetos, no Rockers Control e depois com Anelis Assumpção. Essa liga de baixo e batera é um tesourinho também. Os dois produziram o disco junto comigo. Durante um ano fiz o show propositalmente sem guitarras. Sempre gostei disso e fazia questão, mas desconfiava que quando tivesse uma guitarra no disco eu não conseguiria mais me separar dela. Era idéia antiga convidar Catatau e assim foi.

Edgard
(Scandurra) caiu de para quedas nos 48 do segundo tempo, pra fechar minha banda absurda (risos)... Não o conhecia pessoalmente. Ele foi assistir a um show ainda sem guitarras e no dia seguinte me mandou uma mensagem de myspace falando que se eu precisasse de uma guitarra era só chamar… (risos). Liguei na hora, que com presente dos céus não se brinca. Sou muito fã de todos eles e a gente se diverte muito tocando junto, tanto criando arranjos pras minhas músicas, quanto nos shows.

03. Depois de um ano mentindo pra todo mundo, o que mudou na artista karina Buhr depois de um ano do primeiro disco solo?! Algum novo vislumbre ou pensamento desta nova cena brasileira?! O download no seu caso ajudou ou atrapalhou?!


Não foi mentindo pra todo mundo, foi pra você. Depois de um ano, eu fiquei um ano mais velha. O download, embora eu só esteja divulgando ele um ano depois, pela idéia mesmo de deixar correr livre, sem fazer campanhas de download, ajudou sim. A distribuição não é legal, então o download é uma arma massa.

Não digo nem que a gente tá vivendo um momento especial na música brasileira. Ele é especial sim, mas sempre foi. O que tá mudando é o olhar das pessoas sobre isso e a possibilidade de se chegar perto de coisas que antes não chegavam ao grande público por questões de Mercado que a gente já conhece. De toda forma ainda acho que se deixa de olhar muito para os lados, no caso, pra fora do eixo Rio/São Paulo. Chega a ser clichê falar isso, de tanto que se repete, mas o sudeste é ainda tido como “O Brasil” e o que vem dos outros lugares é tido como exótico, regional. Mas tá melhorando devagar e sempre.

04. Vejo que voce transita bem entre o alterna e o main
stream (na minha opinião, cada vez mais proximo ou homogeneo), no carnaval voce cantou com referencias pops radiofonicas como Pitty e Maria Gadú...

Gosto de muito tipo de música diferente um do outro e isso me fez trabalhar com muita gente diferente uma da outra como o Maracatu Estrela Brilhante e a banda Eddie; o marcatu Piaba de Ouro e Bonsucesso Samba Clube… E às vezes até de facções contrarias mesmo… (risos), como o caso de Zé Celso e Antônio Nóbrega; Cidadão Instigado e Ariano Suassuna (ele não gosta mais de mim. Depois do Segundo disco da Comadre Fulozinha, em 2003, ele disse que abanda “ficou muito pop”).

Acho que isso eu vou carregar sempre e aí é que entra isso da misturas entre o alternativo e o mainsteam, pelo menos no meu caso particularmente, porque eu vou me sentir em casa tanto cantando e tocando zabumba num forró em Nazaré da Mata, quanto cantando com Marina Lima ou Arnaldo Antunes, ou Pitty.

Citando esse show do carnaval que você falou, isso foi bem concreto. Durante muito anos toquei no carnaval no chão, com os maracatus que falei e também em afoxés e em palcos com bandas como Eddie, Comadre Fulozinha, Dj Dolorese outras. Na abertura oficial do carnaval, a parte mainstream da história… Foi a primeira vez. Maravilha, porque aí é mais um ingrediente na corrente chão/palco pequeno/palco grande/palco oficial…


05. Falando em cena, como é ser uma das poucas mulheres compositoras em destaque nesta cena?! Ja que interpretes existem varias...


Realmente existem várias cantoras que não compõem, mas homens também! Veja, por exemplo, a quantidade de duplas sertanejas. Vários deles não compõem… E ainda é de dois em dois… (risos).

Não vivo apenas entre mulheres e não separo dessa maneira. Estou entre pessoas, homens e mulheres e faço parte disso. É preciso entender que mulher é gente igual, não é um setor específico da música. Não tem isso de eu me sentir diferente, por fazer músicas “entre outras mulheres que só cantam”. “Universo feminino” inclusive é um termo infame que ouço bastante quando se fala de letras escritas por mulheres. As mulheres não vivem no mundo das mulheres. As mulheres vivem no mundo.

O meio musical não escapa da regra geral da humanidade e é muito machista. Por isso essa separação, por isso perguntas como essa sua… Mesmo quando se fala nos grandes nomes da música mundial, as mulheres figuram “entre as mulheres”, entre as musas, entre as cantoras. Na Rolling Stone do mês passado teve um encarte “Especial Mulher 2011”… (risos).

06. No final de 2010 perguntamos a algumas pessoas um top5 de discos nacionais legais que ouviram no ano. Jarmeson de Lima (Coquetel Molotov) destacou a versatilidade do seu disco. Hugo Montarroyos (finado(
:P) jornalista do Recife Rock) destacou a simplicidade de suas canções e as letras ácidas e inteligentes, disse ate que seu disco foi mais inteligente que ele ouviu no ano. Você esperava esse reconhecimento todo?!

Eu fiquei bem feliz com isso tudo. Esse disco chegou a lugares e em pessoas e em quantidade de pessoas que eu ainda não tinha chegado com outros trabalhos. Isso é massa, mas não fico assim esperando uma aprovação generalizada, nem preocupada se as pessoas vão gostar, se os críticos vão adorar. Torço pra isso acontecer e trabalho pra divulgar, principalmente por ter sido um disco e produção totalmente independente, mas tudo numa relax, numa tranquila, sem ser exatamente uma preocupação. Se acontecer esse reconhecimento, maravilha, mas não é uma prioridade pra mim, não faço minha música pensando nisso. Acho, inclusive, que se eu tentasse fazer dessa maneira não ia conseguir fazer nada.


07. Vamos filosofar um pouco! Jovens artistas de todos os tempos sempre tiveram como premissa e compromisso a ruptura e a busca do novo. Nosso tempo aparenta um bocado de deficiência nesse quesito. Estamos rodeados de "re-leitores" das mais variadas estirpes, a ponto de contarmos c
om novidades vindas de "jovens" como Tom Zé. Estaria a nossa geração esgotada? E caso tenha um não como resposta, estariam seus ouvidos suficientemente aguçados a ponto de indicar fazedores de substância fresca para os timpanos de nossos leitores?

Acho que o que esgotou foi a maneira de falar sobre isso. Além dessas coisas requentadas que você falou acontecem uma infinidade de coisas incríveis, maravilhosas e impressionantes no Brasil todo, em todos os lugares do mundo. O problema é que existe uma obsessão coletiva das grandes mídias mundiais de só investir e só falar das mesmas coisas e dos que imitam essas mesmas. Existe um mundo inteiro diferente disso, na cara de todo mundo e se fica aguardando uma sensação de celebridade, de poder, pra se realmente apostar nessas coisas, nessas pessoas tão preciosas.

Erasto Vasconcelos
, por exemplo, é um cara genial, que tá lá em Maranguape, quietinho, todo mundo tem condições de saber disso e ele não está nas revistas, nos sites, nos blogs. Os discos dele pouca gente conhece. Lula Côrtes acabou de morrer e assim pude ver matérias legais sobre ele em vários lugares. Não era pra ter sido sempre assim?

Esgotados estamos não nós, mas nossos cérebros e sensações, de suportar tudo isso. Mas o bom é que nossa paciência também vem se esgotando mais e mais e isso leva, como falei numa pergunta lá em cima, a uma mudança desse olhar pessimista. Eu sou pessimista, mas o mundo tá ficando melhor eu acho, mesmo que a caminho do fim.

08. Mudando um pouco o foco, ja tem algum novo trabalho em vista?! Se sim, quais os caminhos a ser seguidos?! Quais novas mentiras?!


Tô começando a levantar os arranjos das músicas novas, pro disco que vou lançar no fim do ano. Uma coisa nova é que, depois de ter feito esse disco totalmente independente, sem grana, sem selo, sem gravadora, sem distribuidora, a Natura vai patrocinar meu segundo disco.

Mas antes de lançar ele quero andar ainda bastante com o Eu Menti…

09. Ta ansiosa pelo show do Abril Pro Rock (já que, mesmo você sendo baiana, é radicada por recife), como foi a experiência de tocar o disco em casa e o que espera do show?! Já sabe qual banda vem?!


Toquei em muitas edições de Abril Pro Rock, com várias bandas diferentes. É um festival muito especial pra mim, porque vi como começou e fiz parte disso, numa época maravilhosa que Recife vivia. Voltar a tocar, com esse disco, nesse festival é muito massa. Mas não tô ansiosa, tô esperando alegremente a chegada… (risos). Vai ser numa noite bem legal e cheia de gente incrível e querida nas outras bandas. Sem falar no Skatalites, que acho que vou chorar.

A banda que me acompanha desde o primeiro show desse disco é a mesma. São meus incríveis Bruno Buarque na bateria, Mau no baixo, Guizado no trompete, Dustan Gallas no teclado, Catatau e Scandurra nas guitarras.

10. Espero mais um bom ano de mentira pra voces, mandai o que voce quiser mandar, grite, xingue, etc...


Puta que pariu!

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6 comentários

  1. >Vige...esse meu Word tenta corrigir pro inglês. Eu, novata, não consegui ainda arrumar isso e acaba que, mesmo depois de eu dar uma corrigida ele fica com pérolas como "official" ou "Os discos deles pouca gente conhecem"...rs. Mas tentei, amigos, tentei. :/

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  2. Visual e Merchandisi1 de abril de 2011 18:54

    >bela entrevista karina...to divulgando...seu maravilhoso trabalho...sucesso sempre...visitem meu bloglucivanvm.blogspot.com.br

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  3. >Eita, obrigada Lucivan! E agora o texto já se organizou ;)

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  4. >Sou louco por esse disco. Ate dublei Mira Ira enrolado num lençol aqui no quarto.Quero disco novo, quero dvd, quero mais shows, quero tudo que a Karina possa dar. Diva!

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  5. >Ah, e toda vez que vou presentear alguém, eu dou o disco!

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  6. >Cara, uma das minhas maiores frustrações de 2010/2011 foi perder o show da Karina por aqui por vacilo. Agora, sem previsão. Ela é muito talentosa, inteligente, além de linda ;) Me amarrei na entrevista =)

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