MEDO E DELÍRIO EM SÃO PAULO: uma visão thompsoniana da Virada Cultural.

por - 03:06



muito bem, mais uma vez chega a atual maior festa de São Paulo: a Virada Cultural. Desde a sua criação, há 5 ou 6 anos atrás, essa festa tem tomado proporções faraônicas, abrangendo todo o centro de São Paulo e grande parte das periferias em volta. Já estive em alguns momentos marcantes do evento, como a apresentação da Central Scrutinizer com Ike Willis em 2009, shows incríveis do Macaco Bong, Mutantes, Afrika Bambaata e a treta dantesca no show dos Racionais de 2007, que quase custou a permanência do evento no calendário de afazeres paulistanos. "Vamos ver qual será a presepada desse ano..." já imaginava, semanas antes.

obviamente é o tipo de coisa que não abala a cabeça da gente (não a minha, ao menos), de ficar pensando "putz, não vou a tal rolé porque VAI ROLAR tal coisa"...  se ficar pensando no que vai acontecer quando sai de casa, você nem bota mais o pé pra fora da porta, nunca mais!... "que se lasque!", pensei: se algo tiver de acontecer, acontecerá. particularmente eu não fico procurando chifre na cabeça de cavalo, então a probabilidade de merda acontecer diminui consideravelmente, é fato.

Abastecidos de muita cerveja, drinks y otras cositas más... partimos - uma ruma de potiguares e eu, único paulistano do grupo - para a mega festa. Tomei o cuidado dessa vez  de listar cuidadosamente o que valeria a pena perder tempo apreciando, nos horários e sequencia de trajeto coerentes para que não se perdesse muita coisa daquela atração. Só pra vocês conferirem como ficou minha listinha:

21h - Orquestra da USP toca Frank Zappa (Estação da Luz)
23h - Skatalites (Palco São João)
00h - Sepultura & Orquestra Experimental (Estação da Luz)

ou

00h - Mojica Coffin Joe amaldiçoando a galera (Arena Anhangabaú)
02h - Misfits (Palco Julio Prestes)
03h - Macaco (Palco São João)
04h - Voodoo Zombies (Palco Julio Prestes)
06h - Texas Hippie Coalition (Palco Julio Prestes)
11h - The Jashgawronsky Brothers (Libero Badaró)
12h - Plebe Rude (Palco Julio Prestes)
13h - Ska Cubano (Palco São João)
15h - Los Straightjackets (Palco Arouche)

ou

15h - Mad Professor (Palco São João)
18h - Paulinho da Viola (Palco Republica)

nos intervalos entre as atrações, Dubversão e sessões de cinema "Canibais". Que tal? uma lista boa, allright? tudo perfeito, tudo suave, só encher o isopor de birra, os bolsos de prempa, e cair na folia... teóricamente, estava perfeito. mas nada que está no papel permanece "intocado", se é que me entende. pra começar saimos de casa com o chapado mode ON; a partir daí já se cria um obstáculo.




nos arrastamos ziguezagueando até o primeiro palco, da orquestra da USP tocando Zappa. creio que esse foi o único show que eu vi de fato na noite. a partir daí, corremos ao "impenetrável" show do Skatalites: era impossivel visualizar até mesmo os telões! ouvir o som então, com todo o zumzumzum do povo indo, vindo, se espremendo... meu camarada Rafael F. do Lado [R] quase tem um ataque de pânico, de tanta gente acumulada por centimetro cúbico. era realmente assustador: se acontece um tumulto, uma briga, um tiro ali, uma massa morreria pisoteada, sem dúvida. primeiro medo e delírio da noite.

desencanamos da Orquestra Experimental, acompanhada pelo Sepultura - a unanimidade decidiu que não valeria o trabalho - e partimos logo pro Misfits, já prevendo a nebulosidade caótica que estaria por esse palco. dito e feito: o aperto nos forçou a parar à pelo menos 600 metros do palco. o show do Misfits... veja bem, o show do Misfits: a gente sempre tende a ser otimista, certo! se apega pelos pontos positivos... por exemplo, seria um trio composto por 2/3 de remanescentes do Black Flag, ou seja, além dos felizes e sangrentos sons do Misfits, poderiamos ganhar de lambuja uma saraivada de Black Flag, um feito que nos deixaria deveras "poguentos" e felizes. mas nem isso. eu estava num estado lastimável, diga-se de passagem. a audição, fala, visão, tudo severamente prejudicados pelo álcool e THC. mas nem isso foi suficiente para que eu abstraisse o quão ruim foi o som! um lixo, um bolo sonoro disforme, que poderia ser desde um Boing se rachando no solo até um simples teste de bumbo - já que o único (veja bem, ÚNICO) som que se ouvia era o kick do mic do bumbo. "nah: bora daqui", todos disseram. aliás nesse exato momento fomos prensados na grade lateral pela multidão, fato que bem posteriormente ficamos sabendo que não passava da chegada dos homens da lei, pra conter algum tumulto que rolava lá no gargarejo do palco.








 a partir desse momento tudo que me sobram são resquicios, flashes de memória, tentativas frustradas de partir pra um próximo palco, e mais frustradas ainda de tentar encontrar um caminho tranquilo em direção à casa. acordei no dia seguinte com a cabeça explodindo, gosto horrível na boca. vontade incrível de beber uma Coca-Cola. perdi toda a faixa de horário que abrangia o fim do Misfits até as 11h da manhã. os mambembes do Jashgarownsky Bros também foram pro limbo dos desejos não-realizados. a próxima atração seria os veteranos brasilienses Plebe Rude, show que eu aguardava ansiosamente há alguns anos.

me adiantei a acordar quem ainda estava bodeado pelos cantos da casa, e partiu. Peguei o finzinho da Plebe, mas o gás e a língua afiada do sr Seabra, Clemente "Inocente" e companhia fizeram valer enfrentar a ressaca brava e o sol do meio dia; som claro e cristalino - muito diferente da noite anterior do Misfits, mesmo palco, que diga-se de passagem também estava perfeito na apresentação de Slim Jim Phanton, banda anterior ao Misfits, de onde se conclui um fato: quem FUDEU o som do Misfits foi única e exclusivamente o técnico de som da banda.







e foi isso. ainda sobrou um tempinho pra conferir o Ska Cubano, grande sacada sonora e dançante, qual seria muito mais proveitoso pra dançar um pouco na via pública, se a ressaca não estivesse drenando minhas últimas forças do dia. resolvi deixar pra trás todo o resto da programação pra descansar um pouco pra noite, já que ainda haveria uma pós-Virada: show do D.R.I. no Carioca Club, rolé que lavou a alma e me rejuveneceu ao menos uns 15 anos, tocando alguns clássicos que só haviam sobrado como poeira na minha memória.

resumo geral: saldo positivo pra Virada. a tendência, ao que parece, é melhorar cada vez mais e tranformar o evento em ponto de referência da capital paulista entre as festas de renome e proporções mundiais. poderia ser melhor pra mim, se eu não fosse um velho morgado e se bebesse menos... mas pau que nasce torto, você já sabe. e qual seria a graça de um evento desses sem um pinguinho de alcool, não é mesmo? o nosso querido prefeito Kassab bem tentou dar uma de drug-free e cortar nossa lombra, mas pra que servem  as sacolas térmicas e isopores pessoais, hm?... segura nóis então, Kassab!!

Você também pode gostar

2 comentários

  1. >hhahahahha...eu só consegui ver xico sá no sesc do carmo e skatalites no palco s.joao. minha lista tinha umas 12 atrações. e vi skatalites bem de pertinho! muito bom o show. fiquei numa calçada q era um pouquinho mais alta q o normal, quase um camarote naquele aperto! :)a volta tbm foi horrivel. o metro republica fechado, la vou eu até a est. anhangabau por uma ruela mal iluminada e cheia de gente muito esquisita...pra completar, não tinha comprado meu bilhete de embarque, o que me rendeu mais uns 15 minutos na fila antes de entrar no metro.sobre as bebidas, vi altas galeras vendendo e todo mundo comprando. essa do kassab não funcionou!resumo: mais fiquei andando pra lá e pra cá tentando achar um buraco onde eu pudesse me enfiar no meio da multidão e ver os shows que eu queria do que propriamente apreciando as atrações.bj

    ResponderExcluir
  2. >hehehe!!... ainda deu sorte em conseguir assistir o Skatalites inteiro. eu não consegui ver nem qual direção ficava o palco... rsrs!

    ResponderExcluir