Entrevista: Cadu, sobre a maquina e sobre outras coisas

por - 13:07



A ideia dessa entrevista não era de ser publicada. Entrevistei um monte de gente para um trabalho de faculdade, em que minha pauta era a de mostrar a música "torta" saindo do país. Falei com o Guilherme Granado (Hurtmold/Bodes & Elefantes/SP Underground), Elson da Sinewave, Daniel (Lise/Constantina), Erick (Labirinto), com o João do Experimental ETC e com o Cadu. Trocando ideia com ele, chegamos ao acordo de lançar a entrevista por aqui, então ... saca aí:

1-) O Sobre A Máquina é uma banda experimental... como você vê esse estilo na música

nacional? Acha que tá tendo futuro?

Resposta: Pensando de forma breve sobre o assunto, acho que há um certo cansaço da fórmula usada ao longo dos anos pela música pop em geral. Hoje, na Mtv por exemplo, rola umas vinhetas com uns noises e no fim dizem algo como - Você vai ouvir isso amanhã – assim no imperativo mesmo. Creio que isso diga muito sobre a disposição das coisas no momento, as pessoas  aparentam estar mais abertas e dispostas a tentar entender o que é supostamente diferente. Quanto ao futuro, vamos ter esperar pra ver.


2-) Atualmente tem muita banda saindo do país, o Constantina tocou num festival do Texas, Macaco Bong na Argentina... o foco de vocês é esse também? Viajar pela gringa tocando?

É engraçado, mas não sentamos pra jogar carteado e discutir o futuro.  Nosso único foco acaba sempre sendo a música, venho com um monte de esboços e resolvo que vamos gravar um trabalho a partir daquilo, e isso acaba se tornando nosso foco, até agora foi assim. No início nem pensavamos em fazer shows, agora já sentimos essa segurança e marcamos shows. Tocar na gringa seria o máximo mas no momento a idéia é disseminar o som ainda mais e poder tocar por outros estados, na gringa pensamos depois.

3-) Qual a expectativa pra esse ano, turnê, shows, discos...

Lançamento do nosso novo trabalho - o EP Areia - , um clipe que está em fase de pré-produção e mais shows na medida do possível.




4-) Você é jovem, tem 23 anos e teve um projeto chamado Ceticências que já fazia música experimental. Quando foi seu primeiro contato com isso e através de que?

Começou tudo como brincadeira de adolescente, com os instrumentos que tinha em casa e o meu primeiro computador. Quando percebi já tinha criado o Ceticências com algumas músicas que mostrei apenas pra amigos e percebi que devia montar uma banda ou projeto. Sempre fui muito curioso. Na adolescência comecei a prestar atenção nas diferenças, passei a me informar sobre e freqüentar pequenos shows da região. Me enturmei com uma galera mais velha que me apresentou o Fugazi, em seguida veio o Tortoise, e isso, embora hoje em dia não pareça muito, abriu meu mundo. Depois vieram coisas muito marcantes que terminaram  escancarando tudo: Einsturzende Neubauten, SPK e o Early-Industrial, Merzbow, algumas bandas da Kranky como o Stars Of The Lid e outras da Constellation, o free jazz pelo qual me apaixonei com o Peter Brötzmann, Ornette Coleman, Cecil Taylor, os projetos do John Zorn e por aí vai... Daí pra frente veio muita coisa, mas o "primeiro contato" foi por aí.

5-) O que acha da internet como ferramenta de divulgação?


Pra mim a internet é um divisor de águas. Embora ainda não seja acessível pra muita gente, democratizou a informação e a cultura, te trouxe a opção de buscar "sem pagar", tirou um pouco a barreira elitista. Pra mim foi de suma importância. Com certeza não teria acesso a muita coisa que gosto sem a internet, não conheceria nem metade das bandas que conheço. E isso limitaria meu som.


Pra divulgação, é uma ferramenta sem a qual minha banda e outros projetos provavelmente não conquistariam um espaço abrangente, limitaria mesmo.




6-) Acha que a tendência da música experimental é sair dos guetos e um dia não entrar no mainstream, mas chegar a incomodar muito, como foi o caso do punk nos anos 70?

Depende muito haha, voltando aquela idéia dos ouvidos cansados da primeira pergunta, se pararmos pra pensar, dependendo da forma como se resolva experimentar, pode ser que a tendência seja uma abertura maior pra experimentalismos no mainstream.

É meio complicado de teorizar, o Radiohead por exemplo, é uma banda do mainstream que costuma ser muito criticada pelos fãs e mídia ao experimentar um pouco mais em alguns de seus discos, embora eles não deixem de faze-lo, isso mostra um pouco da pré-disposição das pessoas para com a liberdade de expressão de uma banda estabelecida, tudo bem que nisso fica implicito também conceitos de gosto...

Enfim, um exemplo menos pedante é o Animal Collective, uma banda experimental que conseguiu flertar com o pop utilizando de harmonias vocais bonitas e muito bem gravadas dentro de paredes de noise, e efeitos. Acabaram na minha concepção gerando uma tendência nova no "mainstream indie" - se é que isso existe mesmo, mas vejo que termo "indie" e o "alternativo" em geral anda num momento exaltado, meio que "na moda" -  lá de fora, vejo bastante do Animal Collective no som do Toro y Moi e dessas bandas taxadas como "chillwave", embora tenham alguns direcionamentos diferenciados. Enfim o Animal Collective em si já parece incomodar bastante, basta ver os xingamentos em comentários de blog e videos sobre a banda. Mas apesar disso, possuem já uma legião de fãs e admiradores convictos. O ultimo album deles, Merriweather Post-Pavillion esteve no topo da maior parte de listas de melhores do ano de 2009 por aí.

No fim das contas não dá pra dizer que o Merzbow ou a Keiji Haino venham a frequentar radios populares, mas indo pela linha que comentei acima, o mainstream já tá sendo cutucado.



7-) Como vocês compõem? Deve ser bem diferente do clássico de reunir e começar a tocar até sair algo legal.


De inicio parte de uma idéia minha, começo a pensar a partir de alguma coisa subjetiva, desenvolvo esboços, gravo as idéias de modo rudimentar em casa para que possa mostrar pro emygdio. Falo com ele sobre tudo que eu gostaria de passar com a música e trabalhamos em cima dela pensando no que podermos encaixar. Encontrei no Emygdio uma parceria enriquecedora, é um excelente músico que apesar das dificuldades de diálogo - são poucas haha -, costuma entender bem minhas intenções e acrescentar com seu bom gosto pra timbres e talento pra mixar. Na sequência o que sai é apresentado ao Ricardo que tem o importante papel de ouvinte atencioso antes de participar. Utilizamos das opiniões e impressões dele pra balancear com as nossas que nessa parte do processo já são uma só. Após conseguirmos equilibrar isso nos reunimos todos pra gravarmos o que falta e fecharmos toda a idéia. Óbvio que nem sempre é religiosamente dessa forma mas no geral o processo é mais ou menos como citei.

8-)Por fim, a mais difícil, hahaha. Como você define a música experimental?


Dificil mesmo essa... Falar de música experimental como sendo uma coisa só, pra mim, é impossível, mas vou tentar generalizar de alguma forma.

No momento penso que seja um exercício de desapego, mas não sei se é uma boa definição porque acabo apegado a isso. Mas experimentar é uma vontade de transcender as noções, de se expressar da forma mais nua possível. De ser livre de parâmetros rígidos. Hoje penso que seja praticamente impossível fugir por completo do esteticismo e da vaidade mas encaro a sonoridade experimental como um desafio a isso... Mas ela pode repentinamente ser o total inverso disso e se transformar na mais pura vaidade de todas...   No fundo, à primeira vista tu já tens a melhor definição: que o título "música experimental" já é auto-explicativo.

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