"O que eu leio e o que eu faço - Jair Naves"

por - 19:29


Ele toca hoje a noite como headline no Festival Maionese sétima edição, em Maceió(AL) e, desde 2010, quando lançou seu EP, chamado “Araguari”, vem chamando a atenção de muita gente. Jair Naves começou tocando baixo na banda Okotô mas marcou o underground paulista como vocalista da banda punk Ludovic.

Seu trabalho solo conservou a sua voz peculiar, seu jeito de cantar e o tom de suas letras, belas narrativas literárias, mas no instrumental trocou o peso das guitarras do Ludovic pelo peso da simplicidade. O resultado é um belo disco onde as letras das canções são destaque.

Então, na série de perfis que venho elaborando: “O que eu leio e o que eu faço”, onde já entrevistei Beto Cupertino(Violins), Giancarlo Ruffato, Leo Trindade (Moderato) e Daniel Nunes (Constantina) e que está disponível no meu blog, agora é a vez de Jair Naves dizer que livros o marcaram, quais são as suas inspirações na hora de escrever suas letras e algumas dicas para quem quer começar a escrever música.

Confira agora a entrevista do músico e desde já agradeço a atenção de ter respondido as perguntas que enviei por email mesmo na véspera da Tour pelo Nordeste. Jair Naves segue na Tour Fora do Eixo que tocará no sábado (14) em Salvador/BA (no Bar Ali do Lado) e na segunda (16) em Aracaju/SE (na Rua da Cultura). Confere aê:



(Bruno Jaborandy) Eu queria que você me contasse como é a sua relação com a literatura, com que idade mais ou menos você começou a se interessar por ler?

(Jair Naves) Creio que eu comecei a me dedicar à leitura de forma um pouco mais séria no começo da minha adolescência, entre os doze e catorze anos. Da mesma forma boa parte das pessoas que eu conheço, meu primeiro contato com a literatura foi através das obras que eu tinha que ler para as aulas de português no ginásio - que, aliás, sempre me pareceram um pouco pesadas demais para crianças naquela faixa etária.





(BJ) Qual o primeiro livro "de verdade" que você leu?

(JN) Difícil essa, não sei se consigo me recordar. Lembro de ter lido alguns por obrigação escolar, como eu estava te dizendo, sem exatamente ter me divertido com a experiência. Desses, os primeiros com que eu consegui criar uma identificação foram "O Ateneu", do Raul Pompéia, e "Capitães da Areia", do Jorge Amado - que, aliás, foi o livro que fez com que ele se tornasse um dos meus escritores preferidos de todos os tempos, coisa que continua sendo até hoje. Já o primeiro que eu li por vontade própria creio ter sido "O Apanhador no Campo de Centeio", mas realmente não posso afirmar isso com muita certeza.

(BJ) Você curte ler ouvindo música? Se sim, queria que você dissesse uma boa combinação de livro + canção para ouvir lendo.

(JN) Putz, eu sei que tem gente capaz de fazer isso sem maiores problemas, mas pra mim realmente é impossível. Não consigo me concentrar de verdade em duas coisas simultaneamente, então evito ler enquanto ouço música.

(BJ) Você costuma ler livros sobre música? Teve algum que você curtiu em especial?

(JN) Costumo, claro. Já li muita coisa nesse gênero, e posso afirmar sem medo de errar que poucos chegam perto de "Just Kids", da Patti Smith. Eu já era um grande fã dela antes de ler isso, considero o "Horses" um dos melhores discos de todos os tempos. O contato com esse livro só fez aumentar minha já gigantesca admiração por ela. Um de que falam pouco é o "Bound for Glory", do Woody Guthrie. Apesar de ser quase indecifrável em alguns momentos por causa de expressões de época e etc, é formidável. Não é por acaso que o Bob Dylan o cita como uma das suas maiores influências desde sempre. O "Our Band Could Be Your Life" também é imperdível, assim como o "31 Songs", do Nick Hornby (meu preferido entre tudo que ele já escreveu). Falando sobre livros brasileiros, eu gostei muito da biografia da Maysa feita pelo Lira Neto que saiu em 2007, se não me engano. O livro do Carlos Calado sobre os Mutantes também é um clássico, uma pena ter saído de catálogo - assim como a biografia proibida do Roberto Carlos, que eu procuro até hoje e não encontro.

(BJ) Suas canções são narrativas cheias de imagens. Como você desenha esse equilíbrio entre a melodia e as palavras? O que vem primeiro: a melodia ou a poesia em sua música?

(JN) Quase sempre a melodia. Como é muito difícil encaixar letras em português em música, por causa da extensão das palavras, das sílabas tônicas que se impõem muito e tudo mais, geralmente termino a parte instrumental primeiro e só depois coloco o texto.







(BJ) Tu costuma ler poesia? Quais poetas você acha que seriam indicados para quem tem vontade de compor?

(JN) Antigamente eu me dedicava mais à leitura de poesia, mas continuo lendo uma coisa ou outra eventualmente. Não sou um especialista, devo deixar claro. Ainda assim, tenho um apreço especial pelo Maiakovski, além de sempre voltar ao Rene Depestre, à Gabriela Mistral e à Marina Tsvetaeva. Entre os brasileiros, eu gosto muito do Guilherme de Almeida, posso dizer que ele é o meu preferido.





(BJ) Teve alguma adaptação de livro para cinema que você achou massa?

(JN) O Kubrick acertou em cheio em três adaptações: "Lolita", "Laranja Mecânica" e especialmente "O Iluminado", que é infinitamente superior ao livro em que se baseia. Fora esses, consigo me lembrar de poucos casos em que o filme chegue perto. "Desejo e Reparação", por exemplo, é um bom filme, mas não é nada comparado ao "Reparação", do Ian McEwan.







(BJ) Agora uma pergunta básica: quais os cinco livros mais foda que você já leu?

(JN) Sei desde já que vou me arrepender dessa resposta, mas os cinco primeiros que me vêm à mente por terem marcado diferentes épocas da minha vida são: "Mar Morto", do Jorge Amado; "Vida e Época de Michael K", do J.M.Coetzee; "Som e Fúria", do William Faulkner; "Na Praia", do Ian McEwan e "O primeiro terço", do Neal Cassady.

(BJ) Você chegou a escrever algo em prosa?

(JN) Não, mas eu adoraria me aventurar nessa área em algum momento. Talvez um dia eu perca a vergonha e crie a coragem necessária.





(BJ) Que conselhos você daria para um compositor iniciante?

(JN) Seja o mais honesto consigo mesmo que você conseguir. Também tente ao máximo não parecer apenas uma cópia do que já fizeram antes. Ainda que você não consiga nunca se soltar completamente das suas influências, vale a tentativa. De resto, insista. Muitos grandes músicos, compositores e escritores só obtiveram reconhecimento depois dos seus quarenta ou cinqüenta anos de idade - Cartola e Saramago, para citar apenas dois.

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