"O que eu leio e o que eu faço - Vítor Brauer"

por - 21:55


O perfil que vocês vão ler daqui a pouco foi sugestão de uma leitora do Alt Newspaper, que curtiu a entrevista sobre os hábitos literários do Jair Naves e recomendou o nosso próximo entrevistado. Vítor Brauer é um senhor personagem para essa coluna.

Vocalista e guitarrista da banda Lupe de Lupe, natural de Belo Horizonte (MG), Vítor,segundo sua página no Facebook fala português, inglês, francês e mais outros três (castelhano, italiano e latim). Graduando em Letras pela UFMG e ainda segundo seu perfil ele diz que se fosse negro seria “um rapper foda”, mas que, como é meio negro, meio branco e meio índio, tem uma banda de noise chamada Lupe de Lupe.

A banda é de noise, beleza, mas cheia de elementos brasileiros, inclusive as músicas são cantadas em português o que, segundo esse que escreve esse texto, é um puta diferencial na cena indie brasileira.
Outro lance massa é que todas as canções do primeiro EP da banda tem como título um clássico da literatura, respectivamente Brejo das Almas,de Carlos Drummond de Andrade, Para Viver um Grande Amor, de Vinícius de Moraes, A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, Guessa Errante, de Soundrândade, Mar Morto, de Jorge Amado, Dom Casmurro, de Machado de Assis, Carta a minha filha em prantos, de José Geraldo Vieira.

Só para constar: essa última obra citada aparece em segundo na pesquisa do Google. Primeiro apareceu a canção da Lupe de Lupe. Curioso, não?

Confira agora um pouco sobre os hábitos de leitura do Vitor, que super gente boa enviou rapidinho as respostas por email e ainda engatamos um papo massa sobre vir tocar em Maceió, o curso de Letras e outras coisas. Enjoy:



(Bruno Jaborandy) Primeiro, para matar a curiosidade, como surgiu a ideia de colocar títulos de clássicos da Literatura Brasileira no nome das canções da Lupe de Lupe?


(Vítor Brauer) No ínicio a gente pensou basicamente na identidade das letras que eu e o Renan compúnhamos. Eram letras muito clássicas, com métrica e rima muito específicas. A letra de "A Escrava Isaura", por exemplo, é um samba de breque e "Para Viver Um Grande Amor" tem a configuração de um soneto (apesar dos versos livres, é basicamente um soneto shakespeariano). De qualquer forma, a gente queria dar uma identidade temática pras músicas. Escolhemos utilizar livros brasileiros pela nossa pretensão de fazer uma espécie de transcriação. Muita pretensão pra uma banda iniciante, eu acho. Mas foi muito divertido pois músicas como "Mar Morto" e "Dom Casmurro" quase contam a história do livro em si, e outras como "Guesa Errante" carregam o espírito da obra em questão. Um aluno da USP até nos enviou um e-mail para a utilização de "Guesa" para um trabalho sobre Sousândrade. Acabaram virando uma espécie de transcriação por moleques universitários, mesmo. Acho que a gente não poderia esperar mais.





(BJ) Me corrija se eu estiver errado, mas o nome do EP, Recreio, tem algo a ver com passar os intervalos escolares na biblioteca? É porque me veio logo isso à cabeça...


(VB) Tem um pouco a ver com isso sim, mas não acho que é passar os intervalos lendo e sim, fazendo a bagunça com tudo que a gente aprendeu nas aulas. Sei lá, uma música pode falar sobre qualquer coisa. Tem uma música nossa que tem um trecho de "Suíte dos Pescadores" do Dorival Caymmi no meio do noise, sabe? É meio que uma bagunça de referências o nosso som e as nossas letras. Recreio define essa aventura, esse desejo de vitória que a gente tem. É o nosso primeiro recreio, afinal. Acho que a gente tem de aproveitar enquanto ainda pode colocar as guitarras altas e ter a cara de pau de brincar com o cânone brasileiro.

Nos anos 80 e 90 ser jovem era apenas ser jovem, gostar de rock, ser rebelde, fazer música punk, a meu ver. Dos anos 2000 pra cá alguns nichos possuíam jovens que queriam ser velhos, cultos. Acho que estamos presos no meio disso tudo. É realmente um pecado gostar de Ludovic e Los Hermanos o mesmo tanto? Acho que não. Mas é raro conhecer pessoas que não escolhem lados entre o erudito e o punk, entre o culto e o jovem.


(BJ)Quando começou seu interesse pela literatura?


(VB) Foi depois de começar a ouvir Chico Buarque, eu acho. Eu só lia uns livros péssimos quando era novo. Gostava só de filmes e música. Na adolescência eu comecei a ouvir muito rap norte-americano e rock da época, achava que tudo era ruim, eu odiava até os dois dragões Nirvana e Guns N' Roses, só gostava de Nas e de Deftones. Com uns quinze anos eu comecei a ouvir Vinícius de Moraes e Chico Buarque e comecei a ver como o domínio da linguagem era algo impressionante. Aí eu comecei a ler Machado de Assis, Graciliano Ramos e a geração beat. Eu comecei a achar que poderia ser bom nisso: não era bom em mais nada.




(BJ)Sobre escolher o curso de Letras, quais foram os principais motivos que te levaram a essa graduação?


(VB) Eu achava que, se eu não vivesse de música, não seria o pior trabalho do mundo pesquisar e escrever sobre a literatura mundial. Fora as línguas, né? Eu já sabia falar inglês, agora na universidade eu arranho em francês, italiano e até LIBRAS. Nem sabia que existia a possibilidade de eu aprender LIBRAS. A Faculdade de Letras da UFMG é muito boa, as matérias vão desde "Tendências Críticas" até "Futebol, Linguagem e Artes". Eu não podia fazer outra coisa.




(BJ)Antes de começar a escrever letras para canções, você chegou a rabiscar uns poemas? Teve algo publicado?


(VB) Acho que hoje em dia são raros os moleques que gostam de literatura e não fizeram um blog. Eu fui um desses idiotas. Hahahaha. Escrevia qualquer coisa, de contos a poemas, lembro até de um suposto manifesto. Hahaha. Trem de gente boba. Nunca fui além disso no passado. Recentemente, fui convidado para participar de um coletivo de produção literária na UFMG. Trabalhamos com a escrita dos membros, criticamos pelo ponto de vista acadêmico e tudo mais. Agora é a hora da publicação. Estamos trabalhando numa transcriação maximalista do livro "Justine ou Os Infortúnios da Virtude" do Marquês de Sade. Esse ano sai alguma coisa, se não for a transcriação vai ser uma compilação dos melhores contos produzidos. Ainda não temos nome nem vínculo com a universidade, mas isso será resolvido em breve.




(BJ)Você acha que de repente, o garoto ou a garota que curtem a Lupe de Lupe pelo som podem prestar atenção nas letras e no títulos das canções e querer ler os livros que você cita?


(VB)Essa é uma possibilidade. Existem alguns que não sabem que a gente fez esse trabalho com os títulos. Ninguém nunca chegou para mim e falou que ficou com vontade de ler um dos livros. Pelo menos, a gente colocou alguns nomes na mente de pessoas fora do meio literário. "Carta a Minha Filha em Prantos", "Brejo das Almas" e "Guesa Errante" são obras quase que totalmente desconhecidas. A idéia também não é fazer as pessoas lerem os livros, sei lá. É mais sobre um método de composição especial e sobre a música, do que o impacto dela nas pessoas. A gente nem tem a pretensão de fazer as pessoas lerem. Seria ideal, mas acho que é fora da nossa alçada. É mais um "olha, que legal, eles tem uma música baseada no Dom Casmurro" do que "olha como eles são cultos e tudo mais". É mais um lance de identificação, de proximidade, do que de distância, de tentar impressionar. Eu vi o Marcelo Camelo citando Maria Gabriela Llansol numa entrevista, do nada, outro dia. Alguém viu isso? O que a gente tenta fazer é o contrário.




(BJ) Você que escreve todas as letras da Lupe de Lupe?


(VB) Não, não. Todo mundo escreve. Todo mundo canta mal, então todo mundo pode cantar. Hahaha. É basicamente isso. O antigo baterista não compunha pra banda. Agora que ele foi embora, o Cícero (que era guitarrista, cantor de "Guesa Errante") virou baterista e o novo guitarrista, Gustavo Scholz, entrou na banda, todos cantam. É bom que não existem tantos vícios de composição ou canseira de ouvir a voz de uma pessoa.






(BJ) Agora a clássica pergunta: quais são seus cinco livros prediletos?



(VB) A melhor pergunta do mundo! Hahahaha. Hoje em dia são: Grande Sertão: Veredas do tio Guimarães, Crime e Castigo do tio Dostô, Por Quem Os Sinos Dobram do Hemingway, Things Fall Apart do Chinua Achebe e Maíra do Darcy Ribeiro louco. Não consegui ler James Joyce e Proust até hoje, mas um dia eu chego lá e só não coloquei Gabriel García Márquez e Borges porque tenho amigos que me zoariam.


(BJ) Você curte ler Biografias ? Teve alguma relacionada a música que você achou massa?


(VB)Não sou chegado em biografias, mas já li duas do Chico Buarque. Que piada. Só li isso e a do Bob Dylan. a do Bob Dylan é muito boa. Chronicles: Volume I. Por falar nisso, tem uma matéria na Letras de autobiografia, um amigo que faz disse que a do Benjamim Franklin é a melhor. Bizarro.


(BJ)Qual conselho você daria para um compositor iniciante?


(VB) "A melhor leitura é a cópia" como diz a Maria Gabriela Llansol. Hahaha. Mas é sério, se você quer aprender um estilo, a melhor forma é você dissecar o estilo. Há um tempo eu sabia tocar umas 30 músicas do Sonic Youth, isso não fez com que eu compusesse igual o Thurston Moore ou o Lee Ranaldo, mas eu desenvolvi o meu próprio estilo por cima das afinações e barulho que eu ouvia deles. Você não disseca o estilo para fazer exatamente igual, pois isso é impossível. Você disseca para entender. Tem a história do marido de uma professora que copiou a obra inteira do João Cabral de Melo Neto. Isso mesmo, ele reescreveu, com a mão, a obra inteira. Ele é poeta e diz que o estilo dele só foi formado depois disso. Acho que esse é um bom começo. Outra coisa, não faça trocadilhos com as palavras nem faça rimas óbvias. Ouçam mais Hip Hop, principalmente MF Doom. Fale alguma coisa nas ruas letras. Não fale nada como "com meus pés no chão eu vou mais alto" ou "ana e o mar, mariana", trocadilho é coisa de gente burra, não use metáforas, o povo tá cansado de metáforas. A metáfora é uma bobagem que só permite o entendimento do que é o mais óbvio da letra. Acho que tá bom, me excedi. AHAHAHA!







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