Somewhere, o belo incompreendido

por - 13:00


Abordando novamente a solidão, a incomunicabilidade e o tédio luxuoso, Sofia Coppola apresenta-nos Somewhere quase com despretensão, mas é preciso estar atento: em cada entrelinha, cada pedaço indie de trilha sonora, a diretora inclui uma leve mensagem, com tom um pouco moralista, questionando a vida e as escolhas de seu personagem principal, o ator Johnny Marco (Stephen Dorff).

Em Somewhere, o espectador pode acompanhar um período transformador na vida de Marco. Como bom galã de Hollywood, ele é adepto fiel de festanças, bebedeiras e belas mulheres. O ator roda a cidade em sua Ferrari, mora em um hotel de luxo, comparece a coletivas banais com repórteres que fazem perguntas esdrúxulas como 'quem é Johnny Marco?', volta ao hotel e adormece bêbado enquanto strippers gêmeas tentam atrapalhadamente seduzi-lo. Johnny está sempre caminhando, tudo nele é efêmero, das mulheres ao gesso que está em seu braço, a única constante em sua vida é Cleo (Elle Fanning), sua adorável filha.








É graças a Cleo que Johnny muda seu ritmo. Quando a ex-esposa viaja sem data para voltar e o deixa com a filha, o galã se vê com uma rotina diferente, adicionadas novas obrigações e pequenos prazeres entre os dois. É também a atuação de Elle Fanning que dá mais ritmo ao filme, com olhares, caras e bocas fantásticos, a personagem ensina ao pai qual caminho deve ser seguido, através de sua sinceridade infantil.

Com essência na simplicidade (tanto no roteiro quanto nas imagens), o longa pode ser incompreendido por muitos que o assistam. Na realidade, Coppola não nos traz nada inédito, e as comparações com Lost In Translation são inevitáveis, principalmente quando Johnny vai à Itália, receber um prêmio. Cabe também o pensamento de que o filme foi inspirado no relacionamento de Sofia com seu pai (o que não é confirmado nem desmentido pela diretora), mas é preciso que o espectador entre o mais limpo possível na sessão, tanto de expectativas quanto de comparações, e apenas se deixe ser absorvido.



É nos pequenos detalhes que o filme pouco a pouco desvenda-se aos nossos olhos. Somewhere é uma obra imagética. Exemplo disso é o momento em que o ator precisa fazer um molde de sua cabeça, e para isso precisa passar cerca de 45 minutos imóvel, com o rosto coberto por uma pasta, apenas respirando. Dentro dos minutos que observamos a cena, inúmeros são os pensamentos que podem ser levantados a partir da imobilidade de Marco. Outra cena belíssima é o tão lembrado chá submerso, onde pai e filha divertem-se com delicadeza e cumplicidade. Em seguida, vemos os dois deitados em espreguiçadeiras à beira da piscina, e a câmera faz uma panorâmica, mostrando uma imagem perfeita para um fim de filme de Coppola: a calmaria e a banalidade em meio ao luxo da vida dos dois. Sem necessidade de diálogos, Sofia nos passa com clareza o que quer dizer.

Minimalista, a diretora nos apresenta o tédio de forma tão convincente, que somos capazes de senti-lo junto com o personagem. O problema é que o longa possui trechos de obviedade clara, o que piora quando essa obviedade atinge o final da história, como acontece aqui. Com pontos positivos e negativos, Somewhere foi o grande vencedor do Festival de Veneza de 2010 e pode sim gerar insatisfação (assim como gerou no festival, dividindo a crítica). Mas seja pela bela atuação de Elle Fanning, pela trilha sonora gostosa (com direito a Strokes, Foo Fighters e No Doubt) ou pela atmosfera de paz que o filme acaba por passar ao espectador, ele vale a pena ser visto, podendo evoluir na cabeça de quem o vê a medida que o tempo passa, como afirmou Tarantino à época da premiação em Veneza.



Ps.: Em Recife, o filme está em cartaz no Cinema São Luiz

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