"O que eu leio e o que eu faço - D MinGus"

por - 12:33



“Abra os ouvidos e deixe o arco-íris entrar”. Esse é o conselho que o músico Domingos Sávio, o D MinGus, oferece para quem deseja se tornar um compositor. Membro da ótima banda de instrumental pernambucana Monodecks, Domingos criou esse lance solo agora, onde também é vocalista. Há um paralelo entre ambos os projetos: a vontade de criar trilhas sonoras. E isso não é ruim, muito pelo contrário. Dá para sentir a vibe do grande Enio Morricone, maestro que criou a trilha dos melhores filmes de faroeste já feitos, os do gênio Sergio Leone.

E Morricone já aparece na primeira música do cd do DMinGus, inclusive no título. O disco todo é cheio de referências. Massa também é ver o cuidado que o músico tem com os videoclipes. São verdadeiros curta-metragens, e combinam muito bem com o clima de trilha sonora da banda. Boa parte dos vídeos são colagens ou trechos de filmes, como do cultuado El Topo, do Alejandro Jodorowsky. Confira agora a entrevista que eu fiz com o muito simpático Domingos - sugestão do Diego, do Hominis Canidae – enjoy aê:



(Bruno Jaborandy) O nome do seu primeiro disco é “Filmes e Quadrinhos” e na capa podemos ver um desenho que remete a esse universo. Qual a importância desses dois formatos em sua vida ?


(D MinGus) Bem, a figura da capa na verdade é uma adaptação de uma ilustração contida num livro bastante presente na minha infância: "O Soldadinho de Chumbo". O original era um peixão engolindo o soldadinho e Matheus Mota, que desenhou a capa, surpreendeu-me com essa adaptação bem "recife way of life", num tom quadrinístico. Pra mim foi fuderoso, pois o cara conseguiu sintetizar não só o sentimento de medo petrificante que a figura me causava mas também conseguiu deixar à mostra, na capa, o tom meio quadrinístico das canções do disco. Quanto à importância dos dois formatos na minha vida eu diria que é enorme e tranversal, pois quando via filmes que me impressionavam quando criança, depois eu geralmente fazia histórias em quadrinhos com as cenas mais marcantes. Da mesma forma que conseguia imaginar um filme na cabeça ao desenhar quadrinhos com uma sequência de acontecimentos (o videoclipe de "Filmes e Quadrinhos" surgiu assim - só que dessa vez eu tive amigos por perto, que mexiam com video, pra registrar isso).




(BJ) Você abre seu disco com uma faixa instrumental chamada “Alien Morricone Srikes Again”, queria que você contasse pra gente quais as referências presentes nesse título.


(DM) Resumiria numa fórmula: Ennio Morricone + Space Rock = trilha de um "western spaghetti" espacial. O título também é uma refência à "Bigmouth Strikes Again" dos Smiths.

(BJ) E “Flores do teu Mal” é inspirada nas Flores do Mal, do Baudelaire ?


(DM) Na verdade a inserção dessa expressão na música, por mais que eu já tivesse lido o livro de Baudelaire na época, não foi inspirada diretamente no conteúdo dele mas sim em experiências pessoais. A letra fala sobre vícios (principalmente os relacionais).





(BJ) O que você lembra que surgiu primeiro na tua vida, a música ou os livros?


(DM) Olha, os dois provavelmente surgiram de forma conjunta, pois meus pais sempre estimularam bastante o meu lado criativo. Minhas primeiras experiências musicais em termos de tomar a atitude de ouvir determinada coisa se deram com minha vitrolinha amarela e meus discos infantis de músicas e estorinhas. Também lembro perfeitamente da boa sensação que me causava colocar música para as visitas ouvirem. Daí eu achar que antes de ser músico - ou de querer ser músico - eu fui DJ. Agora, com relação aos livros eu sempre fui de meter-me a fazer as coisas. De escrever estórias (e mais tarde poemas) mesmo sem ter ainda dominado completamente a gramática. As inspirações vinham de todos os lados: de fatos cotidianos à minha biblioteca "alimentada" pelos meus pais.

(BJ) Você acha que utilizando essas referências literárias você pode influenciar alguém a querer ler o livro que inspirou a canção?


(DM) Antes eu me preocupava mais em fazer letras que resultassem da leituras de livros relevantes, com conteúdos "profundos". Hoje em dia eu tento ler de tudo... não só palavras, mas imagens, cheiros, cores, sensações... sem muita teorização - que talvez tenha sido uma herança das bandas oitentistas como Legião Urbana, Engenheiros do Hawai, essas paradas (que tem coisas bacanas, mas às vezes exageram na dose "livresca")... Cara, até hoje é meio misterioso pra mim como entrei no curso de filosofia e me formei nisso. Suspeito que tenha sido pra conseguir escrever letras "profundas"... Ou seja, me fudi nas quebrada - hahahaha.







(BJ) Você curte ler autobiografias? Teve alguma em especial que te marcou na decisão de fazer música ?


(DM) Tem uma autobiografia em especial que me marcou bastante na decisão de fazer música mais psicodélica que não é nem de um cara propriamente músico (apesar de já ter lançado discos). Trata-se de "Flashbacks - Surfando no Caos", de Timothy Leary. Já devo ter relido umas cinco vezes e emprestei pra vários amigos (por sinal, se você que está lendo esta entrevista foi a última pessoa a quem emprestei o livro, trate de devolvê-lo ! hehehe). Eu sinceramente não sei como ainda não transformaram esse livro num filme, pois a vida do velho foi inacreditavelmente cinematográfica. Ele interagiu com muita gente relevante dos 50's pra cá - e não somente no nível da contracultura largadona mas também da academia vanguardista em diversas áreas do conhecimento. Não é de se estranhar como o cara foi coroado guru de toda essa galera.

(BJ) E sobre adaptações da literatura para o cinema, qual filme baseado em livro você acha que chegou mais perto do romance?


(DM) Putz, essa é difícil... mas vá lá: "Laranja Mecânica" de Kubrick.

(BJ) Quais são seus 5 quadrinhos favoritos?


(DM)Sem ordem de preferência: Os Invisíveis (Grant Morrison); Minha Vida (Robert Crumb); Introdução à Biologia (Charles Burns); Derrotista (Joe Sacco); Calvin & Haroldo - Completo (Bill Watterson).





(BJ) E os 5 romances?


(DM) Sem ordem de preferência: Saudade do Futuro (Douglas Tabosa de Almeida); Cândido (Voltaire); A Idade da Razão (Sartre); Contraponto (Aldous Huxley); Os Irmãos Karamazov (Dostoiévski)

(BJ) O que você diria para um músico que está começando e te perguntasse qual o segredo para compor?


(DM) Faça o curso de filosofia... brincadeira... hehehe.

Diria que, primeiramente, você tem que sentir alegria em criar - quando você cria algo genuíno é como se fizesse o tempo parar, literalmente, pois aquele instante será eternizado numa linha temporal. Eu deveria atentar para a necessidade de estudo mas eu sempre fui receoso de estudar música a fundo e tornar-me um erudi(cha)to. Até porque o meu lance sempre foi música popular - ainda que experimental, popular... Eu diria: estude até onde você sinta que a técnica/método estará auxiliando-lhe a se expressar como compositor autêntico e não moldando a sua percepção e técnica artísticas a padrões convencionais. Liberte seus ouvidos e deixe o arco-íris entrar.




Você também pode gostar

0 comentários