"O que eu leio e o que eu faço - Leonardo Panço"

por - 17:33


Belos livros são escritos quando o autor tem não só a vibe de criar narrativas como também viveu ou vivenciou o assunto sobre o qual escreve. É só lembrar de Hemingway, Kerouac, Twain, entre tantos outros. Talvez por isso as biografias ou auto-biografias são tão interessantes. Muitas vezes a não-ficção parece mais surreal do que a ficção. É nesse sentido que os escritos de Leonardo “Panço” se orientam.

Fundador da banda Jason e da finada ( e admiradíssima) Soutien Xiita, Panço é jornalista, produtor e ainda administra o Tamborete Entertainment. Diante de todas essas atividades ele teve a sacada de escrever livros contando um pouco a história de como é fazer a coisa dar certo no Underground. Bons livros têm saído nessa onda, como o “Guitarra e Ossos Quebrados” do Quique Brown e “Una Gira en Sudamérica” por Fábio Mozine. Panço já publicou dois: “Jason 2001- Uma Odisséia na Europa” e “Caras dessa idade já na lêem manuais”.

Pela entrevista que fiz com o Panço por email você já pode notar que ele é um cara que curte contar ( e viver ) uma boa história. Belas respostas que falam de seu primeiro contato com a literatura e sua relação com a música. Ele adianta também um pouco do que vem por aí em seu novo livro e dá umas dicas de como começar a escrever. Confere ae e lê até o final que lá tem dizendo como você pode comprar os livros do cara

(Bruno Jaborandy) O que veio primeiro pra você: a aproximação com a música ou com a literatura?


(Leonardo Panço) Total com a literatura. Aprendi a ler com 3 anos em casa mesmo, com uma tia, irmã do meu pai. A gente morava em casas separadas, mas no mesmo quintal. Ela era professora, viu que eu gostava, e me ensinou. Quando entrei no pré no ano seguinte, fiz a cartilha (chamava assim, eu acho, nos anos 70) toda no mesmo dia. A professora veio falar com a minha mãe, queria me pular para a primeira série. Minha mãe não deixou e acho que foi a melhor coisa. Se até hoje eu ainda sou confuso e indeciso, imagina se eu terminasse o ginásio com 10, 11 anos. A música veio mais tarde. Meus pais sempre ouviam muita coisa, muito Roberto Carlos brega dos anos 80, Cama e Mesa, etc, muita Jovem Guarda também, minha mãe gosta muito até hoje. Depois comecei acho que com a Blitz, com todo o rock dos anos 80, Titãs, Ultraje pra caralho, Legião, Paralamas, Plebe Rude, essa coisa toda. Aí em 87 indo pra escola, um amigo me emprestou uma fita cassete TDK. A gente estava dentro do ônibus, o 676, Méier-Penha. De um lado o primeiro dos Replicantes, O Futuro é Vórtex, e do outro o primeiro dos Garotos Podres. E minha vida mudou exatamente nesse dia. Depois eu viciei completamente no segundo dos Replicantes, provavelmente o disco que eu mais ouvi na vida: 'Histórias de Sexo e Violência'. Aí entrei para a aula de violão pertinho de casa e o resto é história.

(BJ) Quais os primeiros livros que marcaram a sua vida?


(LP) Os primeiros lá muito pra trás, não sei se lembro. Sei de um antigo que era sobre uns cachorros que fugiam em bando, uma coisa infantil ainda, mas não lembro mais o nome. Não li grandes clássicos, tipo James Joyce, gosto de coisas mais simples. Dois que li bem jovem foram o 'Feliz ano velho' do Marcelo Rubens Paiva e o 'Apanhador no campo de centeio'. Depois dois bem fortes foram o 'Cartas na rua' do velho Bukowski e o 'On The road', do Kerouac, que me deu uma grande vontade de viajar mais ainda.

(BJ) Você curte ler autobiografias? Teve alguma, sobre algum músico, que você achou massa?


(LP) Adoro saber a vida dos outros, se for músico melhor ainda. Estão aqui na fila uma do AC/DC, a do Keith Richards e a do Lobão. Recentemente li a do Slash e a do Ozzy. Mas já li Renato Russo, Cazuza, um monte delas. Queria ler o livro do baixista do Blur, mas não rolou ainda. Eu fico esperando os amigos comprarem para me emprestar. Não tenho mais espaço para colocar coisas em casa, então prefiro pegar emprestado, ler e devolver.

(BJ) Você acha que o público do hardcore costuma ler?


(LP) Ao que me parece, não muito. Mas o brasileiro no geral não lê muito, né. Tem aquela história de Buenos Aires ter mais livrarias que o Brasil inteirinho junto. Não sei se é uma lenda urbana, mas creio que não. De qualquer modo, meus livros não foram só vendidos para os fãs do Jason, acho que foram para todo tipo de pessoa. Uma coisa que eu ouvi várias vezes, foi de pessoas que compraram e depois disseram que as mães tinham lido também e gostado. Quanto mais isso acontecer, melhor para todos.






(BJ) Teve alguma banda que, pelas referências de literatura, te levou a querer ler algum livro?


(LP)Não sei se banda, mas pessoas ligadas à musica ou a movimentos, como a citação mais óbvia que é o 'Get in the van' do Henry Rollins, ex-Black Flag. Depois li o 'Dance of Days', que conta a história do punk em Washington D.C.. Li o do Nenê Altro, do Dance of Days, de São Paulo, que gostei muito. Parece que ele está nos últimos momentos de seleção para o novo dele.

(BJ) Como surgiu a ideia para os seus livros? O que você pode considerar como o gatilho para a sua vontade de escrever?


(LP) Sempre quis escrever um livro. Nunca soube muito bem o motivo, mas acho que tem a ver com ego. Os dois que eu lancei foram assim: o primeiro, 'Jason 2001 Uma odisséia na Europa' surgiu de maneira bem óbvia. Quando eu comecei a marcar a turnê, a escrever para o planeta todo tentando marcar os shows, ensaiar, enviar material, release em inglês, pensar em foto, e tudo o mais, vi que 80 dias dentro de uma van por 13 países, seria um livro. Era narrar e pronto. Claro que hoje em dia eu mudaria coisas, mas ele foi basicamente escrito nestes 80 dias. Começou a viagem, começou o livro, acabou a viagem, acabou o livro.





(BJ) Me conta um pouco sobre a ideia para o segundo livro.


Foi uma história mais complexa. Uma banda aqui do RJ, Noção de Nada, a juventude do conjunto, conversou comigo que queria fazer uma tour gringa. Que eu marcaria os shows e eles bancariam minha passagem. Fechamos tudo, eu comecei os contatos e tal. Neste meio tempo, me chamaram para trabalhar no globoesporte.com, eu sou jornalista e lá no site na época tinha dois amigos que tocaram comigo no Soutien Xiita. Eu aceitei, mesmo sabendo que sete meses depois, iria me demitir para viajar. Mas achei melhor ter dinheiro para viver por sete meses do que por nenhum mês. Faltando umas quatro ou cinco semanas para a viagem, eu me demiti, o povo do site achou irado, legal, se demitir para viver do rock, etc. Quando faltavam 13 dias para a turnê, o baterista deu para trás, desistiu de ir. Os outros quatro se reuniram, decidiram cancelar a ida para a europa e terminar a banda. Então eu fiquei sem emprego e com uma passagem na mão de ida e volta. Fiquei uns dias decidindo, mas resolvi falar foda-se, peguei o avião para Frankfurt e fui embora passar 90 dias fora com pouco mais de mil reais, sem seguro de saúde, mas com vários amigos por lá. E assim foi. Viajei com duas bandas alemãs para alguns shows, fiquei duas semanas em tour com o Agrotóxico, de SP, e no restante do tempo, gigolei meus amigos alemães. Fiquei em squat, em sítio hippie, em casa de família playboy, em ap dormindo no sofá, em vários lugares onde fosse possível ficar. Sempre tentava não ficar tanto tempo no mesmo lugar para não perturbar muito. Dois lugares que eu fiquei mais tempo, foi porque era tranquilo.

No sítio da Heike, que tinha um quarto para mim, todos saíam para trabalhar, era muito relax de ficar lá. E em Hamburgo, num prédio onde fica o Lobusch, um lugar de shows. Era um squat nos anos 80, mas hoje eles têm os documentos já. No último andar, mora um cara, que é motorista de bandas. Quando eu estava por lá, ele foi para a Indonésia com a namorada passar uns dois meses. Aí deixou o ap comigo. Aí eu fiquei lá umas duas semanas. Alguns dias foram difíceis, sozinho, dava saudade de casa, muito frio, pouco dinheiro. Mas mesmo assim o cérebro fica bem vazio, sem stress, sem pensamentos normais como pagar contas, coisas do dia a dia. Você só precisa pensar em arte, em ouvir música, passear, ir a shows, tomar cerveja, ver filmes, conversar. Eu saia para andar com meu disc man e um bloquinho, por várias horas, pelas ruas de Hamburgo e de Berlim, principalmente. E assim eu escrevi quase todos os textos que viraram o segundo livro. Às vezes penso em fazer uma viagem dessas de novo e voltar com outro livro.



(BJ) Para quem está começando: quais dicas você daria para um compositor iniciante, ou um escritor iniciante?


(LP) A velha história, e que não é nada fácil, que é conseguir ter seu próprio estilo, ou ao menos reciclar coisas que você goste, de maneira que as pessoas não percebam. Das duas uma.

(BJ) Tem mais algum livro vindo por ae?


(LP) Tem sim. Este ano ainda eu lanço o 'Esporro'. Vai ser meu terceiro livro, mas é na verdade o primeiro que eu escrevi. Já tem 14 anos que ele está escrito, mas eu nunca consegui terminar, diagramar, escanear fotos, é muito complexo. Isso tudo se arrasta há vários anos, mas agora está nas mãos do Flock, que fez todo o trabalho do segundo livro 'Caras dessa idade já não lêem manuais' e vai sair. Conta histórias de algumas bandas aqui no RJ, no underground, em 92 e 93, anos muito loucos por aqui, com muitos shows, bandas legais como Piu Piu, Gangrena Gasosa, Second Come, Beach Lizards, Sex Noise. Gostaria muito de lançar um outro de crônicas mais tarde, mas acho que vai levar algum tempo ainda, já que tenho escrito muito pouco.

Para comprar os livros do Panço, cds também, é só mandar um email para leonardoster@gmail.com ou adicionar ele no Facebook

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