Beirut cai num espiral de repetição em The Rip Tide

por - 12:07



Primeiramente, eu gostaria de esclarecer uma coisa antes de começar essa resenha: eu gosto de Beirut. Gosto mesmo, fui no show do Coquetel Molotov e dei um jeito de ficar sentada nas primeiras fileiras, pra poder assistir a tudo sossegada. Só tem um problema: para as artes, existe um caminho tortuoso que, sempre que possível, não deve ser trilhado. A repetição – seja ela por preguiça ou bloqueio criativo de seu criador – é uma solução traiçoeira, pois ao mesmo tempo em que pode agradar os fãs ávidos por novos trabalhos, decepciona os mais atentos. Infelizmente, essa foi a escolha tomada por Zach Condon no novo cd do Beirut, The Rip Tide, que está previsto para chegar às lojas em agosto, mas já caiu na internet.

Depois das viagens aos Bálcãs e ao Novo México – com discos que passeavam entre melodias belas, festivas, e fúnebres, mostrando ao público uma banda que parecia estar disposta a ir na direção que o destino apontasse – Condon chegou ao que pode ser seu destino final. Não que lhe falte criatividade, pois ela ainda é perceptível em algumas melodias do disco, mas parece haver uma falta de coragem para ousar, o que resulta num álbum comercial.






Ainda que a musicalidade seja animadora e gostosa de se ouvir, a sensação que fica é a de que esta é uma coletânea da banda, pois as canções soam como algo já conhecido, e limitam a curiosidade de se continuar a ouvir o álbum. Perdido em sua fórmula de feliz melancolia, com ukelele e brincadeiras eletrônicas – além do famoso trompete, claro – o Beirut parece ter criado para si uma zona de conforto da qual teme sair.

A entrega à expectativa do público chega a ser irônica, visto que The Rip Tide é o primeiro a sair pela gravadora do próprio Condon, a Pompeeii Records, e que segundo o músico, foi criada a fim de dar liberdade criativa à banda. A verdade é que o álbum possui seus momentos de sutil felicidade, especialmente em Goshen e The Rip Tide (faixa título), que trazem piano e violino para a brincadeira, quase como se tentassem dar um fôlego novo ao disco. Mesmo assim, a maré rasgada (tradução literal) restringe-se ao nome estampado na capa – que por sinal é também uma das menos inventivas da banda, pra ser simpática, limitando-se a trazer o nome da banda e do disco, mas numa cor tão pálida que pode facilmente passar despercebida nas lojas.




É mesmo uma pena que a banda anteriormente capaz de fazer quem a ouvisse viajar em sonhos e terras distantes tenha agora medo de soltar-se, preferindo o lucro. Com a liderança de um músico que tem influências nascidas no jazz e chegam ao folk dos Bálcãs e ao ukelele, espera-se que essa seja apenas uma má fase – mesmo que duradoura, já que depois de Elephant Gun, o Beirut veio vacilando aos pouquinhos . Para quem gosta do grupo, no entanto, o disco não deve ser ignorado. O ouvinte deve apenas estar preparado para decepcionar-se.

O texto acima foi escrito originalmente para o site da Revista Continente

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1 comentários

  1. Céus, que resenha infeliz e atrozmente previsível. É uma lástima que seus autores (que não devem, de nenhum modo, serem chamados de "críticos", pois que não dialogam com mais nada, senão com seus próprios clichês) estejam, um após o outro, com nobres e raríssimas exceções, preferindo enfileirar nojeiras normativas e incompreensivelmente arrogantes, do tipo "o ouvinte deve apenas estar preparado para decepcionar-se"... Pergunto-me: quem tal pessoa pensa que é para emitir um juízo puramente pessoal como uma espécie de "lei" que o pobre leitor deve apenas engolir e aceitar, na ilusória crença de que o autor da resenha é alguém mais "esclarecido" e "antenado" do que ele? Portanto, caro leitor, aceite um "bom conselho" frente ao genocídio cultural promovido por opiniões como a que lemos na autointitulada "resenha" acima: persiga o seu feeling apenas. Esqueça os babacas que infestavam os cadernos culturais dos jornais da grande imprensa (nas décadas de 80/90) e que agora poluem os blogs da web. São pobres coitados incapazes de produzir, e sem o evidente brilho de Zach Condon, que por não terem o que dizer ficam nessa de cagar regras e alardear que o artista está se repetindo, e blá blá blá... Uau. Vontade de socar o dedo na garganta e vomitar. Zach Condon e sua banda produzem música superlativa e raríssima. São inventores. Inventaram uma linguagem (coisa que 99% dos artistinhas de merda deste mundo não fazem) e têm, por conseguinte, plenos e legítimos direitos de explorar os desdobramentos de tal linguagem. Ademais, embora anda prefira "The March of Zapotec" (pela genialidade aliada a ousadia e arrojo de linguagem), "The Rip Tide" é um álbum lindíssimo e profundamente tocante. Ouça-o ao invés de ler a "resenha" acima. Vosso bom senso agradece.

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