Essa banda salvou minha vida: The Smiths e aquela dupla de Manchester

por - 12:09




Vocês devem estar cansados de ouvir alguém dizer o quanto aquele quarteto de garotos ingleses mudou a vida de uma pessoa. Morrissey, Marr, Rourke e Joycecom sua música sutil, que tocava em cheio nos anos 80 a molecada introvertida, desajeitada e que sempre preferiu ler a comer uma buceta por aí – concordo que na maioria das vezes, por falta de opção, entretanto, isso não muda o público.No fim 2007 me apresentaram um álbum: Singles, The Smiths. Era uma madrugada, talvez uma ou duas da manhã, na frente do computador, corri àquela comunidade, finada, Discografias. Achei e baixei. Na época deve ter demorado uma hora para baixar um disco de 100mb – ê 200kbps. Enfim, isso não vem muito ao caso, o que interessa mesmo é a sensação que tive ao ouvir a banda. Primeira música, sem delongas, The Boy With The Thorn In His Side, para chocar meus ouvidos e pensar: “que de banda é essa?” soava tão alegre e triste, na hora fui procurar as letras, me apaixonei logo de cara. Perguntava-me incessantemente como alguém poderia escrever de tal maneira? Tão autêntica, poética e dramática, unindo elementos que nunca tinha conseguido imaginar juntos: a tal da tristeza e alegria. Ao mesmo tempo em que Morrissey cantava “o garoto eternamente atormentado”, Marr parecia tocar uma outra música. Depois disso, me perdi em delírios numa madrugada qualquer, aos 15 anos de idade.



E tudo que veio depois de “The Boy With The Thorn His Inside”, como o hino There is a light that never goes out fez reafirmar o pensamento juvenil expresso desde o começo deste texto: “de fato, como algo consegue unir esses dois elementos?” e fui até as três e meia, quatro horas, refletindo, pensando em como cada coisa ali presente, encaixava-se de maneira coesa e extremamente agradável de se ouvir: Morrissey e Marr tinham se tornado, mesmo que tarde, a minha dupla do rock predileta. Sempre achei Beatles algo bem punheta – e me desculpe se alguém aqui é fã dos meninos de Liverpool -, portanto, Lennon e McCartney não tinham espaço aqui dentro, sabe? Mas esses dois, um com seu instrumento tocado de maneira simples e delirante, outro, com letras e uma voz marcante, das que quando ouvida com ligeira atenção, certamente canta um trecho de sua vida.Imagine agora, madrugada adentro, 15 anos, você e seus fones, no auge daquelas crises adolescentes rabugentas, descobrir Smiths? Acabar de encontrar um tesouro musical, dentro de um baú que para você estava empoeirado. Após esse início de dia, insisti fervorosamente para que meu pai arrumasse a vitrola e ele não entendeu, chegou a reclamar: “mas que caralho, pra que você quer isso?”, me calei e o vi arrumar. Na verdade não teve conserto, entretanto, após uma semana ganhei uma de meu vizinho, aquelas velhas, pick-ups, toca fita e o cacete a quatro. Já tinha estudado na galeria do rock o valor dos discos: de 5 a 15 reais. Era um valor muito baixo para ter o prazer de ouvir aquela dupla, lembrem-se a melhor do rock para mim, enquanto deitava e refletia meus pseudoproblemas. Não deu outra, passei fome uma semana (sim, fazer o quê?), comprei o tal disco numas férias: Hatfull of Hollow. Mas que maravilha! Versões diferentes das presentes nos discos normais, 7 reais numa pérola dessa, com encarte e tudo mais.



The Smiths - The Boy With The Torn His Inside


Cheguei em casa. Outro dia de luta contra o estômago fraco, gastrite no auge, mais ou menos 20 horas sem engolir nada. Almoçar? Para quê? Hatfull of Hollow na vitrola e meus ouvidos e cabeça, pedindo para que nada me incomodasse. Ah, esses meninos de Manchester!Pode parecer imbecil, eu sei, um texto contando uma historinha relacionada a Morrissey e Marr e como o editor deste site conheceu os Smiths, tudo bem, tudo bem, esse não é o ponto, a grande questão é, ESSA BANDA SALVOU MINHA VIDA, sem exageros. Vejo por aí hypes lambendo a bunda de Los Hermanos, Arctic Monkeys e Strokes, a carreira solo do Camelo e para mim, nada disso faz sentido, na verdade, voltamos ao ponto do início: essa é a dupla, o duo que conseguiu com maestria, transformar a tal da tristeza e a alegria em algo tocante e mágico de se ouvir, seja no ônibus, seja em casa, ou na vitrola.

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3 comentários

  1. >Vale ressaltar que um dos "Hermanos", assim como os estrangeiros adoram Smiths e sim, concordo, essa banda salvou a nossa vida! Excelente texto...

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  2. >Endosso tudo, com pontos e vírgulas. PONTO!

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  3. >pô, total identificação com sua história de "salvação". costumo fazer relato parecido por aí. só um parenteses aqui: você ouviu o sigles em 1997, não?

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