"O que eu leio e o que eu faço - Gabriel Cerqueira"

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Ele ganhou a primeira guitarra com oito anos de idade, presente do pai, o músico alagoano Junior Almeida, e por volta dos 14 anos começou a fazer um som em Maceió tocando em bandas de hardcore, primeiro fazendo cover de Rufio e Dead Fish, e depois partindo para um lance mais autoral com a Sounds Like Sunday, que, segundo suas palavras, fazia um emocore melódico. Foi mais ou menos nessa época que ele conheceu a banda americana Mineral, considerada ícone do true emo, cujas guitarras limpas e linhas melódicas começaram a chamar sua atenção.

De repente ele tinha duas músicas compostas nessa vibe e nem conhecia ainda os sons que fazem parte do post-rock. Foi quando pegou uma carona com seu amigo Victor Almeida- jornalista, músico, mestrando e organizador, junto com Vanessa Mota, do Festival Lab – que ele conheceu a banda americana Explosions in the Sky. Hoje Gabriel toca na banda de rock instrumental alagoana Projeto Sonho, que vem ganhando nome na cena indie por essas bandas e, no Festival Lab do ano passado, abriu para a grande banda paulista Labirinto, o que para Gabriel “foi como se eu fosse parte de uma banda de rock n’roll e abrisse pros Rolling Stones”. O conjunto nasceu em julho de 2008 e já teve seu show contemplado em dois editais: Instrumental no Teatro de Arena e VI Maceió Jazz Festival.

Recebi Gabriel aqui em casa pra gente conversar sobre o que influencia seu trabalho na Projeto Sonho, as referências que o som carrega, e, é claro, sobre os livros que fizeram parte de sua vida. Com um sorriso no rosto ele contou que o cd de sua banda, com o título provisório de Onírico, está completamente gravado e sai por esses dias pela Popfuzz Records em parceria com um selo de São Paulo. Confira agora o resultado desse bom papo:

(Bruno Jaborandy) Me fala um pouco sobre esse EP aí que ta saindo do forno...


(Gabriel Cerqueira) Velho, a gente já tem um nome, que é Onírico e tal, que foi o nome do show em que a gente se apresentou com as músicas que estão no EP quando a gente achava que ele já estava pronto. A gente ganhou o edital do projeto Instrumental no Arena, que rola no Teatro de Arena. Esse título a gente não sabe ainda se coloca ou se cria outra coisa.



(BJ)E o nome da banda, de onde surgiu essa idéia, quem foi que sugeriu esse nome e tal, você acha que ele representa a banda?


(GC) Até representa, a coisa do sonho, a gente não pensou em dar nome já pensando no tipo de som que a gente ia fazer, até porque quando eu fiz a primeira música eu fui na casa do baterista e a gente achou que ficou massa, aí ficamos pensando em um nome para dar pra esse projeto, mas a gente não tinha uma idéia formada de como a gente ia fazer aquilo, só tinha uma música gravada e conhecia uma banda de instrumental. Depois entrou o Hugo, na guitarra, que começou a fazer um som com a gente e depois o Victor Caesar. A primeira música que a gente compôs, que foi “Chuva”, influenciou todas as outras, como se as novas músicas que fossem surgindo resultassem do aprendizado das outras músicas que a gente fez. O nome da banda teria a ver com o lance viajandão da primeira música.






(BJ)Você acha que mudou muito, do começo até agora?


(GC) Cara, mudou muito. Agora com a entrada do Nando, baixista, o som já ficou bem diferente, a gente começou a ouvir novas bandas, e quando a gente chegou pra compor já percebeu essa diferença.


(BJ)E como foi abrir para a Labirinto?


Foi muito massa. Para mim a Labirinto é o maior nome da música instrumental no Brasil, e o Festival Lab já tem um conceito assim aonde o cara vai e espera que vai ter música diferente, pode ter 6 bandas, mas cada uma vai ter um conceito diferente, principalmente no lance experimental.




(BJ)E quais são os planos para a banda agora, tocar fora e tal?


(GC)A gente tem vontade mas ainda não temos um planejamento. A idéia é sentar com o pessoal do Coletivo Popfuzz e ver umas rotas pra gente. As energias se concentraram para a gente finalizar o material, já tinha um trabalho na frente e a gente tinha que gravar. O resultado foi o melhor que a gente pode, se a gente olhar pro começo e pra agora foi uma evolução da porra no som.





(BJ) Você acha que ser filho de músico teve muita influência em você também tocar?



(GC) Total. Meu pai sempre deixava o violão por perto, daí eu pegava e ficava arranhando. Ele sempre me incentivou, ele sabia que eu gostava de guitarra aí dizia: - Oh, quando você quiser uma guitarra me fala que eu dou. Aí com oito anos eu ganhei uma guitarra mas não podia ter aula porque o professor dizia que só ensinava depois dos dez anos, mas com alguma insistência eu consegui que ele me ensinasse. Quando meu pai foi vendo que eu já tava desenrolando ele me ensinou algumas coisas também.






(BJ)Quais são as bandas brasileiras de instrumental que tu curte?


(GC) Cara, eu curto o Constantina, muito, o Hurtmold e A Banda de Joseph Tourton, que eu acho que faz uma coisa bem diferente com uma pegada quem tem suingue, Macaco Bong é foda também, e eu acabei perdendo o show deles aqui em Maceió, porque estava morando fora na época. A Labirinto é foda também, trabalho bonito da porra dos caras, bem na linha do Godspeed You Black Emperor, de medir cada instrumento no som.




(BJ) E tu tem vontade de incluir outros instrumentos na Projeto Sonho ?


(GC) A gente tem, mas não agora, a gente tá ainda pegando no lance baixo-guitarra-bateria mesmo. Mas eu acho que em Maceió a gente ainda não encontra músicos que compartilhem as mesmas ideias, que a gente possa incluir na banda. Tem muita gente que toca muito mas não se interessa tanto por esse lance mais autoral.







(BJ) Agora vamos falar do que te influencia, o que você gosta de ler?


(GC) Eu nunca fui um leitor muito assíduo, saca? Tem amigos meus que já leram quatro vezes o que eu li na minha vida toda, eu nunca fui muito de quadrinho e tal, mas sempre gostei de livros, e o massa de ler é que você desperta para um lance meio sinestésico, que você desperta para umas coisas e abstrai outras, que é o grande lance da arte né ¿ Daí você acaba despertando para produzir outras coisas, como é o caso da música e eu tenho certeza que as partes da minha vida em que eu li mais foram as em que eu mais produzi.


(BJ) Qual o primeiro livro que você leu?


(GC) Cara, o primeiro livro que eu li foi A Ilha do Tesouro, de uma coleção de livros que meu pai deixava para mim, quando eu tinha uns sete ou oito anos. Depois eu comecei a ler os da saga do Harry Potter, eu era viciado nos quatro primeiros. Depois eu fui ler os livros indicados pela escola, os de Literatura Brasileira, mas eu não li todos. Não sei porque mas eu acho que eu tinha um bloqueio com aquela porra daqueles livros. Eu lia Machado de Assis e pensava: meu irmão, a minha cabeça não consegue ler isso. Os livros que eu li, quase todo, foram o Guarani, do José de Alencar, e Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis. Os outros eu não conseguia, eu achava muito bizarro, e não tinha vocabulário para acompanhar aquilo.







(BJ) E depois, quais livros fizeram parte da adolescência e começo da juventude



(GC) Eu participei de um Grupo de Leitura organizado pela escritora alagoana Arriete Vilela aí eu comecei a ler contos, o que me despertou pra caramba, porque eu nunca curti ler livros muito grandes. Foi nessa época também que eu estava começando a compor para a Projeto Sonho e teve uma influência direta, total. Eu comecei a ler Gabriel Garcia Marquez, o Doze Contos Peregrinos, e compus duas músicas que a gente toca na banda, que são “O Próprio Caos tem Sua Magia” e “Bolha”e eu acho que sem esse estímulo, sem essa participação nesse grupo de leitura, não aconteceria. O que você escuta é legal para te ajudar a compor e tal, mas eu acho que outros estímulos além da música, a literatura pra quem é letrista e compositor, mexe pra caralho com esse lado sensorial. A música instrumental se parece bastante com a expressão da escrita, você ali consegue dar um escape. Abstrair do todo que tá envolta, tudo que nos toca os sentidos, com urgência ou com calma. Expressar isso em forma de música








(BJ) E o lance de participar do Grupo de Leitura, partiu de você ou alguém te indicou ?



(GC) Eu lembro que meu pai comentou que ela tinha esse grupo e eu pensei em participar, não fazia nada, tava começando a cursar Economia na Universidade Federal de Alagoas, aí eu fui preencher minhas noites lendo contos com a Arriete Vilela, e foi essencial para despertar pra leitura e tal.



(BJ) E cursar Economia, de onde surgiu isso, mesmo sendo filho de músico e tal?



(GC) Velho, eu sempre tive interesse em dinheiro, um lance filhodaputa, não sei se é coisa do signo e tal, eu sou de Touro, fora isso eu sempre pensei em investir na bolsa também e comecei a estudar Geografia e aí eu prestei atenção nos aspectos políticos e econômicos, comecei a ler Economia como uma coisa bem despretensiosa, na época eu cursava Direito, e até gostava dos aspectos filosóficos e tal, aí parti pra fazer Economia. Entrei meio sem saber como era e foi foda porque eu ainda participava do Grupo de Leitura, e tinha despertado pra literatura mas agora eu tinha que ler coisa pra caralho do curso, aí ou eu lia O Capital, do Karl Marx, ou eu lia Saramago. Foda que eu fui estimulado e não tinha mais tempo de ler literatura.








(BJ) E qual conselho você daria para quem está interessado em compor, seja instrumental ou com letra?



(GC)É prestar atenção em tudo que possa expressar alguma coisa, desde a literatura, até a pintura, tudo com que você tenha um contato e que te faça sentir e querer dar uma resposta, aí é o caminho, depois você tem que ser sincero consigo mesmo, depois é ser sincero naquilo que você quer expressar, você ver um cara legal tocando de uma forma sincera não tem pra onde. Abstrair do todo que tá em volta, tudo que nos toca os sentidos, com urgência ou com calma. Expressar em forma de música.



(BJ)Você costuma ler poesia também?



(GC) Cara, depois de começar a participar do grupo eu me tornei fã da Arriete Vilela, eu acho que daqui de Maceió os grandes nomes da poesia são ela e o Ledo Ivo. Eu tenho uns três livros do Pablo Neruda, que eu curto muito também, e que eu conheci vendo O Carteiro e o Poeta e me empolguei e comecei a ler.



(BJ) E quais os compositores brasileiros que você acha massa?



(GC)Caetano Veloso e Marisa Monte. Gosto muito do Wado também, da Tulipa Ruiz, da Céu, das bandas eu curto muito Mombojó. De Maceió eu curto também a Eek, e o meu pai, claro.




(BJ) E seu TOP 5 de livros, qual seria?



(GC) Sem ordem de importância: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, da Clarice Lispector, Caim, do Saramago, Doze Contos Peregrinos, do Gabriel Garcia Marquez, Budapeste, do Chico Buarque e A História sem Fim, de Michael Ende . Eu não gosto do que me indicam, eu gosto de alguma coisa que eu leia as primeiras páginas e aquilo tenha uma apelozinho, esses foram os livros que mais mexeram comigo, principalmente na parte emocional e tal. Quando eu falo de um livro eu não lembro de nome de personagem, nem trechos em palavras e não é surpresa se eu não lembrar a linha da própria história, mas o que eu termino levando comigo é o que pode ser posto pra fora através do que eu componho, é todo um universo imagético e de sensações particulares que aquela leitura modela e grava na gente, no tempo da gente.






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