30 anos sem Glauber, o homem coração do cinema brasileiro

por - 12:07



Alô alô Brasil, alô alô América Latina, alô alô mundo! O assunto é o cinema de Glauber Rocha! Sim, pois independente do seu grau de interesse pelo cinema brasileiro, você já deve ter escutado esse nome. Talvez a mente mais inquieta e inflamada da criação cinematográfica no país, há 30 anos Glauber voltava da Europa para despedir-se da vida no Brasil. Chegou já quase sem vida à Clínica Bambina, no Rio de Janeiro, onde veio a falecer, segundo seu atestado de óbito, por “infecção generalizada”.

Dono de uma das mais célebres frases no cinema mundial: uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, Glauber era, na verdade, extremamente meticuloso. Quem tiver a chance de ler o roteiro de Deus e o Diabo na Terra do Sol verá um diretor que indicava ângulos de câmera, ao mesmo tempo em que se propôs a deixar seus atores livres em cena. Quando Othon Bastos deu vida a Corisco e interpretou o diálogo angustiante entre o cangaceiro e Lampião, saindo várias vezes de quadro e fazendo com que a câmera corresse para acompanhá-lo, não era por acaso: o ator havia dito a Glauber pouco antes de filmar que não saberia fazer aquilo num espaço delimitado, e o diretor, claro, adorou a ideia.

Ainda criança, o menino Glauber dava sinais de seu desassossego de ideias, encenando pequenos jograis escritos por ele mesmo, no colégio presbiteriano 2 de julho, em Salvador, onde estudava. Aos treze anos, participou pela primeira vez como crítico de cinema de um programa de rádio na Bahia. Daí para a construção de sua estética e ferocidade em Barravento e Deus e o Diabo, foi um pulo. Tamanha inquietude alarmava a mãe, dona Lúcia, que preocupava-se com o filho sempre trancado no quarto, escrevendo ou lendo. Em resposta sincera, segundo ela, Glauber afirmou: “mãe, a minha cabeça é um vulcão, e eu tenho que botar tudo pra fora. Por isso que eu tô escrevendo em duas máquinas. Porque enquanto eu tô escrevendo uma coisa, eu lembro de outra”.



Glauber cresceu para tornar-se o homem coração. Os gestos expansivos e a dialética única mostravam um homem que seguia mais o caminho dos sentimentos e intuições que o da razão. Com seu tom de voz alarmante, gritava ao mundo, e principalmente aos brasileiros, a miséria do povo e da cultura. Envolvente e demasiadamente humano, teve ainda a sorte de trabalhar com uma equipe que doava-se tanto quanto ele à arte. Exemplo disso é a cena de Deus e o Diabo em que Geraldo Del Rey (Manoel) carrega a pedra sobre a cabeça, pagando penitência, enquanto o diretor meio desesperado gritava que se a pedra caísse por cima do ator, eles não teriam mais filme.

Eleito por Pasolini como um dos representantes do Cinema de Poesia – ao lado dos nomes de Bertolucci, Antonioni e Godard, entre outros – o diretor baiano traz em seus trabalhos verdadeiras experiências fílmicas. É impossível sair o mesmo depois que se entra no universo glauberiano. O diálogo estabelecido pelo diretor na tela é intenso, e a quantidade de informações que ele joga ao espectador, seja em seu poema cinematográfico Terra em Transe, seja em seus discursos inflamados e agitados no extinto Programa Abertura – onde Glauber costumava falar com a câmera saindo de quadro e colocando revistas ou livros em seu rosto – possuem um interesse claro e quase sempre atingido: incomodar. Para além da arte, há ali o interesse em sacudir e despertar o público inerte, especialmente o da burguesia brasileira.

Se ainda hoje falamos e discutimos o Cinema Novo de Glauber Rocha, é porque seu vanguardismo continua a surpreender, e faz falta. Glauber tratava da sociedade brasileira e suas mazelas com uma estética própria e crua, visceral, e já então argumentava fervorosamente sobre as máculas culturais do Brasil, clamando por um cinema de graça para o povo, uma tomada de posição dos produtores culturais, a fim de que se tomasse posse do que era feito no país. A leitura de um de seus artigos mais conhecidos, Eztetyka da Fome, é fundamental para a compreensão desse cinema impetuoso, além de deixar claro que seus ideais ainda vivem, pois assim como consta no texto: “Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo”. Aí haverá um filho de Glauber.





O texto acima foi originalmente escrito para o site da Revista Continente

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