Acendendo as ideias com o Curumin

por - 12:01


Luciano Nakata, o Curumin – com n mesmo no fim, ok? – , é um desses caras que não podem passar despercebidos pelos apreciadores de música. Atual baterista de Arnaldo Antunes, e já tendo trabalhado com outros artistas como Céu e Gui Amabis – ele participou do Memórias Luso Africanas, tocando bateria em Sal e Amor – , Curumin é autodidata, e começou a tocar quando ainda era só um curuminzinho.

Com influências riquíssimas, que incluem dentro do caldeirão os temperos do soul, jazz e samba, só pra citar alguns, os seus dois discos Achados e Perdidos (2003) e Japan Pop Show (2007) possuem um gingado maravilhoso, e mesmo nas músicas mais calmas o suingue está presente. Sem medo de ousar tanto na melodia quanto nas letras, Curumin é considerado pelo New York Times um dos jovens mais espertos da música paulista, e a faixa Tudo Bem Malandro, de seu primeiro disco, foi escolhida por Natalie Portman para integrar uma coletânea.

Para a alegria dos recifenses, Curumin faz show este sábado no Baile Tangolomango (e o Altnewspaper e o Hominis Canidae vão sortear ingressos!), que também vai trazer Academia da Berlinda – com repertório de seu mais novo disco, Olindance – e Mundo Livre S/A, que promete apresentar novas músicas ao público presente no Galpão 445, novo espaço de shows da cidade.

Numa conversa rápida, Curumin falou um pouco sobre suas parcerias com Nereu Gargalo e Marku Ribas, suas influências, recepção no exterior e também sobre o novo disco, que já está pronto.

Você é baterista autodidata, e começou a tocar muito cedo. Porque você escolheu a bateria? Toca outros instrumentos?

Putz, escolher um instrumento pra tocar é meio que nem escolher uma roupa, ou um livro, sei lá. Depende da sua personalidade, das coisas que você gosta. Na real eu comecei tocando violão mas quando comecei a ensaiar numa banda e saquei a bateria, eu não conseguia tirar ela da cabeça. Tanto que eu ficava tocando ela imaginariamente, no ar, em casa. Até eu juntar umas peças de percussão que eu catei de um tio, juntar com umas sucatas e montar uma bateria caseira. Fiquei uns anos nela até conseguir juntar dinheiro e comprar uma de verdade.

Suas influências são riquíssimas, e vão desde o programa que você via na tv quando criança, e nomeou seu segundo disco, até o soul, funk, jazz, samba...O que mais rola no seu iPod?

Olha, rola de um tudo. Mas é isso ai mesmo, gosto de balanço: reggae, funk, soul, samba, hip hop, baião, carimbó e vai. Mas São Paulo tem um trilha sonora que cai bem demais: os hip hop instrumentais e reggae batem forte aqui.


Possivelmente por causa de todas essas influências, você tem uma música que ao mesmo tempo em que olha para o passado, flerta com o futuro, o que faz o seu som sempre curioso e inovador. Como você vê o atual momento da música brasileira?

Acho que é um bom momento. As coisas tão caminhando, novidade chegando quente. Nos últimos anos foram lançados discos muito bons e isso vai abrindo portas pra todos. O ultimo disco do Cidadão, do Otto, do Criolo, da Anelis, do Lucas Santtana, do Emicida e outros, vieram com muita força e deram uma chacoalhada geral. O Criolo é de um talento impressionante! Mas é um momento muito louco também. Toda quantidade de coisas que nós temos que fazer pra poder fazer o som existir! Tem que gravar, arranjar, escrever, tocar, tem que divulgar, redes sociais, Twitter, Youtube, tem que fazer vídeo, marcar show, arrumar apoio e por aí vai uma lista sem fim.

O problema disso é q as vezes você vê gente muito talentosa, mas que num consegue sair do lugar. Ou vê gente que é ótimo letrista, mas que faz um disco mal tocado, ou o contrário, ótimo músico que faz um disco com letras péssimas, ou um disco com bons músicos e boas letras mas que é mal gravado pra caramba.
Enfim, é impossível fazer tudo, mas às vezes não tem escapatória.

O New York Times te considerou um dos jovens mais espertos da música brasileira, e o Japan Pop Show foi lançado simultaneamente aqui, nos EUA e no Japão. Como é a recepção do público no exterior, os shows?
A recepção é muito boa, os shows são excelentes. A história da música brasileira é grande e os gringos respeitam. Mas agente também ralou pra caramba. Tocamos, fizemos turnês bem pesadas. Cada canto que abria as portas a gente entrava. Tem que tentar agarrar as oportunidades.

Você toca com o Arnaldo Antunes, e também já tocou com outros artistas, como a Céu, além de participar do disco do Amabis. A música deles chega a influenciar o teu trabalho?
Totalmente! Cada um saca música de um jeito. Eu, por exemplo, sempre me guio pelo ritmo, pelo balanço. Então, trabalhar com o Arnaldo que vai pela poesia, ou com a Céu, que vai pela melodia é rico e me ensina muito.

Me lembro de quando tava pensando em lançar meu primeiro disco e de aprender muito com o Arnaldo, de buscar sempre a individualidade, de buscar sons e músicas diferentes, tentar trazer coisas novas, tentar incomodar o ouvinte.

Como é organizar a agenda com tantos shows? Dá tempo de ensaiar novos trabalhos pra o seu disco?

Tem que dar um jeito ué! E agenda é sempre meio maluca, tem temporadas que tem coisa pra caramba, tem temporada mais tranquila. Agora, pelo menos pra mim, dezembro, janeiro, fevereiro, março é um tempo de menos show e bom pra pensar em disco. Depois disso, desencana.

Você tem parcerias fantásticas nos discos, com o Blackalicious, o Marku Ribas, Nereu Gargalo, e isso só pra citar alguns. Como foi trabalhar com essa galera?
Foi demais! Esses artistas antigos, que viveram outro momento da musica, como o Nereu e o Marku, são muito especiais. Muito diferenciados, baita músicos, super expressivos, super musicais. Mestres mesmo.
As gravações dos dois foram mágicas. De ficar assistindo, maravilhado. Cada take melhor que o outro.
O Blackalicious foi legal por ter essa onda da escola americana do hip hop, que é muito classe. Lá é onde tá a raiz do lance. Os caras cantam muito, programam muito, sabem tudo de música. Vai além.

Já tem ideia de quando sai um novo trabalho? Vai ter alguma parceria bacana?
Olha, o disco em si já tá pronto. Tem agora um bolo de coisas pra resolver, burocracias, divulgação, material gráfico e nessa parte eu sambo um pouco. Acho que ainda dá tempo de sair nesse segundo semestre. Agora, o disco, além dos músicos que tocam comigo, tem participação só do RussoPassaPusso e da Céu. Tem também um arranjo do Gui Amabis.

No Japan Pop Show você tem uma música com o B Negão, e o disco em si possui um lado político, com críticas sociais. Hoje, um dos debates mais vivos – não só na música – é a valorização da cultura brasileira pelo governo. Como você vê as políticas do Ministério da Cultura, os problemas com download? Qual sua opinião sobre o Ecad e a Ordem dos Músicos?
O ministério da cultura mudou significativamente o panorama cultural brasileiro nos últimos anos. Acho que pra melhor porque foram muitos investimentos e que possibilitaram que se fomentasse as artes como um todo. Mas acho que agora chegamos num paradigma da politica escolhida. Porque a ideia de incentivo pela inciativa privada acabou resultando em grandes empresas fazendo propaganda de si mesmas com o dinheiro público e com artistas de garoto propaganda.

Além disso a politicagem comeu solta. O que fez com que muitas pessoas chegassem lá não pelo mérito do trabalho, mas pela capacidade de lidar com a maquina burocrática. Até aí, talvez tenha sempre sido assim. Mas chegou no ponto em que se criou um novo tipo de trabalho, que são as pessoas que escrevem e cuidam de editais, que são empresas gigantes e que movimentam muito dinheiro.

Rolou também de artistas competindo com outros artistas por projetos que nem sempre tinha claro os critérios das escolhas. Enfim, é complexo o tema e tem muitos lados diferentes. OMB é o maior absurdo! Mas, estamos na torcida, parece que tá em curso de acabar mesmo. Ontem mesmo pipocaram na net as notícias que o STF julgou desnecessário a obrigatoriedade da filiação. Enfim, tem que acabar, é escrotão.

Sempre achei que aquele “aviso” no meio de Compacto era o modo como você enxerga e faz música, é isso mesmo?
Hahaha! Totalmente: "use sua imaginação e faça o que lhe faz sentir bem!"


O texto acima foi originalmente escrito para o site da Revista Continente

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