Ávore da Vida luta entre o belo e o prolixo

por - 12:07



Um dos grandes perigos da criação artística – especialmente no cinema – é a prolixidade. Quando o autor envolve-se muito com a história, e não consegue distanciar-se para olhar o resultado com a visão do espectador, cair nesse erro é quase uma certeza. Com Terrence Malick e seu mais novo trabalho, Árvore da Vida (The Tree of Life), o público oscila entre o tédio (podendo inclusive beirar a sonolência) e a paz de espírito, sendo este segundo possivelmente a real intenção do filme.

Vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 2011, Árvore da Vida dialoga sobre o sentido da vida a partir da história de uma família que vive num subúrbio americano em meados de 1950. Enquanto o pai (Brad Pitt) é extremamente rigoroso e exigente, a mãe (Jessica Chastain) é a personificação da paz e árvore que sustenta e acolhe o núcleo familiar. A família segue normalmente com seus altos e baixos até que um de seus três garotos – o do meio – morre. A partir daí a crise se instala profundamente, deixando lacunas no filho mais velho, que ainda adulto (interpretado por Sean Penn) culpa o comportamento do pai pela morte de seu irmão.

O personagem de Penn transmite a imagem do homem vazio e deslocado entre os prédios e a vida moderna. Silencioso durante quase todas as cenas, é visivelmente atormentado pelo passado, mas encontra a paz, em momento apocalíptico e celestial.

Tomando o núcleo familiar e a espiritualidade da mãe como mote, Malick faz um passeio pela criação, com quase 50 minutos de sequência de abertura – a fase mais sonolenta do filme – seguindo o caminho da graça divina em contato com a natureza. Após o estranhamento causado pelas imagens que nos são mostradas nesses momentos – que estão presentes não só aí, mas também durante o filme –, e que mais parecem slides que vimos no colégio ou documentários do Discovery Channel, conseguimos perceber detalhes de som que indicam a forte presença de Deus em tudo aquilo, como raios e erupções vulcânicas contra um angelical céu azul.




De certa forma, esses minutos são bonitos e trazem mensagens importantes ao longo do filme, visto que, postos entre a american family, dialogam constantemente com o espectador, seja sobre o caminho da natureza e o caminho da graça – fala da mãe que fica impressa na mente do público – ou o sentido da vida e da fé em um Deus que dá e também tira (daí a importância de Jó no filme, não só na citação de abertura, visto que este personagem bíblico perdeu tudo, mas continuou temente a Deus). Porém, fica aqui a eterna sensação de que a história seria bem contada em um curta.

Com um ensinamento delicado e belo, o diretor tem êxito em algumas passagens do longa, mas poderia ter editado melhor outras. Ao bater na mesma tecla, de forma nada inovadora, ele pode perder a atenção de parte do público presente. Por dialogar tanto com o espectador, certamente Malick consegue imprimir a sua ideia na cabeça deste. Porém, ao entregar-se tanto e expor-se de tal forma na tela, de modo que não consegue cortar certas passagens, pode ser comparado a experiências cinematográficas nada boas, como o brasileiro Nosso Lar.

Por ser extremamente espiritual e pessoal – Malick passou por uma situação semelhante, pois seu irmão mais novo suicidou-se –, o filme possui o mesmo impacto no público. Uma opção interessante é assisti-lo na mesma semana em que se vê Melancholia, de Lars Von Trier. Com diretores tão opostos em suas visões, os longas se complementam e dialogam entre si e com o público, que sai de ambas as sessões com vários pensamentos em erupção. Na verdade, penso se Von Trier não teria ganho a Palma de Ouro no lugar de Malick, caso não tivesse falado tanta besteira em um só debate.


Curiosidades:

O longa levou dois anos para ser montado, e contou com cinco montadores.

Por sua estranheza de diálogo e demora, não é bem recebido por boa parte do público. Nos EUA, alguns cinemas chegaram a colocar avisos de que não devolveriam o dinheiro daqueles que se propusessem a assisti-lo.

O texto acima foi originalmente escrito para o site da Revista Continente

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