Entrevista com Rogério Velloso, diretor do filme "Daquele Instante em Diante", sobre a vida de Itamar Assumpção

por - 12:10


Enquanto organizava o material para edição da entrevista me dei conta de o quão completo era o que já tinha em mãos, não quis mudar nada muito além do espaçamento, tudo se encaixou de maneira muito orgânica deixando evidente um ponto em comum: Rogério é prolíxo. Assim como Itamar, Rogério é extremamente atento a todos os pontos e os apresenta de uma maneira muito sútil e sincera. A entrevista é fruto de uma troca de e-mails no decorrer das últimas semanas, e de fato só complementou a visão multifocal que Rogério propõe o tempo inteiro, um material riquíssimo, de uma visão preciosa e muito justa sobre os fatos que cercam o universo "Itamarino". Depois de ler o resultado final, concluí: Rogério era a pessoa certa pra fazer o filme.




Alt: Você já havia feito outros documentários anteriormente né? Quais foram e em que aspecto fazer um docu
mentário sobre o Itamar diferiu dos outros?


Rogério:
Eu vim d
a videoarte, da produção de TV (nos anos 80 e 90) e do cinema publicitário. Já flertei lá atrás com o teatro (meu primeiro DRT foi de ator) e a música. Já tive vídeos que ganharam carreira fora do Brasil, fiz ficção, instalações, mas como o Itamar “Daquele Instante em Diante”, não consigo lembrar de nada parecido exatamente pela intensidade com que esse projeto (ou esta pessoa) foi tomando em minha vida. Foi um projeto que claramente me colocou diante de mim mesmo. Um teste de limites intenso.


Alt: A ideia de fazer o doc sobre o Itamar veio do pessoal do Itaú Cultural e já era proposta da série Iconoclássicos?



Rogério:
Apesar de gostar e me identificar com o Itamar nunca imaginei que um dia estaria me debruçando sobre sua história, me envolvendo com ela e me tornando um vetor para ajudar a trazê-la de volta à tona. Certo dia, lá em 2008, recebo um telefonema do Roberto Moreira S. Cruz, do Núcleo Audiovisual do Itaú Cultural me chamado para uma conversa com ele, com o Edson Natale, coordenador de Música e com a Joana Rennó. O Instituto já vinha conduzindo pesquisas sobre o Itamar dentro do escopo de um projeto de lançamento de um livro com seus cadernos (algo que vai acontecer brevemente). E tinha também gravações de um show no Itaú ainda inédito - nunca tinha sido veiculado.



A princípio o que se pensou foi na realização de um pequeno documentário para ser incluído como um extra num possível DVD destas imagens - e, conhecendo o meu passado na videoarte, o Roberto apostava em um documentário livre na linguagem, que mesmo tendo como um objetivo retratar a vida e a trajetória de alquém do quilate de Itamar Assumpção, sobre isso poderia se lançar com um olhar mais sensível e atento. Mas quando percebemos que diante de nós havia uma oportunidade única de promover com todas as forças um revival do Itamar, com o apoio total da família, um esforço de pesquisa enorme, não tive dúvidas de que estávamos diante de um longa metragem. Tenho a impressão de que quando juntamos todos os fios, perceberam que outros projetos que se iniciavam no Instituto tinham uma vibração parecida. Daí a se dar início a uma Série Iconoclássicos foi um pulo.

Alt: Qual foi o tempo e o período de produção do filme?

Rogério: Este projeto se misturou na minha vida ao longo dos últimos três anos.



Alt: Você conduz o filme de uma maneira muito dinâmica, intercalando entrevistas do Itamar, depoimentos dos entrevistados, trechos de shows, e uma das impressões que ficam é que realmente o Itamar era aquilo, que ele respirava e consumia de fato todo o seu trabalho, sua obra, como se viver não fosse diferente de estar compondo. Como foi então tocar em pontos mais próximos do Itamar não artista, o Itamar humano, que sofreu, que esteve doente e que não desejava necessariamente ter isso exposto? (Já que é um filme documental e que retratar esse lado seria uma espécie de obrigação factual?)




Rogério: O filme tomou um rumo em que o Itamar, a principio uma coleção de recortes e arquivos, vai se materializando e ganhando forma mais humana. Aliás esse rumo tem uma sincronia com a vertigem que senti quando fui chamado para mergulhar no universo itamarino. Logo eu, um candango (nasci em Brasília), mineiro por adoção, radicado em São Paulo, - apesar de sempre ter gostado muitísimo dele e de ter uma certa afinidade com esse indefinido conceito de vanguarda (bem a cara dos anos 80). Hoje fico pensando em quem escolheu quem. Porque depois de tudo descobri um Itamar que também era um estrangeiro e viu a paulicéia pela janela distante da Penha (por lá o sol se põe no skyline do centro de São Paulo e não pros lados do Morumbi, como o vê a elite paulistana), com os olhos sempre ávidos de quem se mandou do interior e foi fazer teatro experimental em Londrina, e de um certo instante em diante decidiu que o lance era ir fazer música em São Paulo. Por isso o jeito de ver o novo sabendo que se trata sempre de um mesmo ovo tentando nascer de novo.

Itamar foi um outsider e talvez isso explique não só a intensa liberdade doída de toda sua obra (misturada com sua vida) mas o seu insuspeito recolhimento. Estrangeiro também, me vi livre para pensar e sentir o que viesse pela frente, sem o ônus de ter que corresponder a alguma visão ou ordem das coisas, digamos, “paulista”. Não devia nada a ninguém a não ser a ele, Itamar.


Foram meses de apavoramento em que buscava em vão uma forma de traduzir Itamar em um filme, de achar a sua voz, a sua primeira pessoa. Forma. Estive obcecado por ela, ainda mais quando a expectativa do Instituto era por um documentário experimental. Eu ficava ali procurando estratégias que, diante do tamanho do Itamar que ia surgindo na minha frente, mais me pareceram uma busca infrutífera por pegadinhas de linguagem. Claro: Itamar era muito maior e, diante do que fez, qualquer tentativa de linguagem que vibrasse só no meu plano de autoria seria um tremendo desrespeito a uma obra gigantesca e multifacetada que só agora vai tomando seu lugar. O jeito foi colocar meu violão no saco e ir para a rua atrás dos que o conheceram mais de perto.




Quando comecei a tomar contato mais próximo com aquelas pessoas que acabariam sendo personagens, imaginava estar fazendo uma pesquisa ainda. Saia com duas câmeras bem portáteis (uma delas cabia na palma da minha mão) mas apenas para não perder nada - imaginava que depois poderia ver aquilo numa distância segura para “conceber” um filme. Não foi assim. E uma coisa para mim era certa: não queria os especialistas, os teóricos da música e da cultura para legitimar nada. Queria que Itamar e sua obra falassem por si. Queria o outro lado da moeda. Enquanto a Solange Santos mergulhava numa pesquisa bem aprofundada de imagens e que durou meses e meses, o Maurício Pereira nos ajudou a mapear a cena itamarina e a identificar os primeiros interlocutores. As pessoas foram surgindo e umas foram levando às outras. Ficaram aquelas que conquistaram sua intimidade e puderam vê-lo “nu”. O espírito era esse: estávamos fazendo uma pesquisa. De repente ficou claro para mim e para os que estavam envolvidos comigo no processo que o filme já estava acontecendo há muito tempo.

E estava fazendo da forma mais livre possível, sem roteiro ou pauta, seguindo os acontecimentos. Me arrisquei. Mas de alguma forma acho que o Itamar iria querer que fosse assim. Apesar de cada uma dessas pessoas estarem mais próximas em uma ou outra fase da vida do Itamar, de terem experimentado vivências bem distintas umas das outras, fomos percebendo que havia uma coisa comum que aparecia nesses depoimentos. Itamar espalhou mil Itamares por aí. Cada um viu uns pedacinhos.

Penso que a força desses depoimentos no filme vem de uma interligação entre eles, como se ninguém fosse dono do todo. Quis muito isso porque não queria ser dono de uma visão, mas me expor ao risco do desconhecido. Vou contar sobre o café. Nunca foi uma estratégia pensada ou um eixo definido. Na medida em que fui conhecendo um e outro - que me mandavam falar com mais uns e outros - vi que a ligação íntima que estabelecemos nos levava sempre para a cozinha. Porque era assim com o Itamar (descobri depois). Ele chegava desse jeito. Ia direto para a cozinha, fazia café (com dois dedos de açucar na sua xícara), limpava a pia e cuidava das plantas. Sempre. Em qualquer lugar que chegasse. E foi quase por mimetismo que essa faceta emergiu no filme (acho que não houve aí nem intuição nem razão, mas antenas ligadas).




Esse povo todo que ficou muito perto dele guardou essa relação com Itamar e de certa forma dividiram isso comigo, me honrando com sua intimidade. Não, não existiria um filme se fosse regado a outra droga ou outras viagens. Fui descobrindo um Itamar que foi guardado nas cabeças e nos cantinhos carinhosos das casas de seus amigos (com todas as contradições e intensidades possíveis), nos fundos das gavetas, nas portas das geladeiras, nas pilhas de fitas e discos. Um Itamar que tocou sua carreira sozinho, sem grana, lutando para gravar seus discos da forma possível, quase uma obra de guerilha, registros visuais quase sempre feitos por TVʼs públicas ou amigos mais atirados e descolados (nesse sentido não foi um Arnaldo Batista, por exemplo, que deixou uma enxurrada audiovisual atrás de si, seja em super8, 16mm, videocassetes, etc.)


Ele ficou disperso - e quase desconhecido - por aí. Ao chegar na edição tive a sorte de contar com George Queiroz que conseguiu por ordem no material, que a esta altura era gigantesco, expor as ligações e esboçar, aí sim, a primeira estrutura de montagem e de lá chegamos ao primeiro corte. Eu me vi perseguindo muito a idéia de fazer o filme em camadas, tanto como imagens e sons quanto como conceitos - como o que apreendi do som e da poesia do Itamar. Mesmo quando aparentemente vira factual, como no caso do roubo do gravador, são muitas histórias - e não uma só - que se misturam para tentar trazer à tona uma idéia ou uma percepção desta personalidade. E quando conseguimos expor sua doença e sua morte, se você prestar bem atenção, isso foi feito através dele mesmo. Itamar tocou sua história do seu jeito e de alguma maneira seus rastros chegaram até aqui como ele quis. Para mim, esse acúmulo de pedaços, fragmentos, rastros montados em um turbilhão espiral que se tornou filme em algum ponto do caminho, é precioso por ter me colocado (e a tantos que agora podem assistí-lo) diante dele assim ainda intacto - fico feliz porque acho que de alguma forma eu o coloquei a salvo de mim.

O filme volta em cartaz entre 19 e 25 de agosto, em horários e salas a serem confirmadas na semana que vem (principalmente em São Paulo rolou uma pressão, digamos, popular, para que isso acontecesse - ( bom, né?). E no dia 01 de setembro ele foi convidado para abrir o Festival INDIE em Belo Horizonte.

Entrevista: Gabriel Turner
Colaboração: Julia Rocha
Imagens: Acervo Pessoal Rogério Velloso.

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1 comentários

  1. >tem que dispor esse filme na net...não inventem de fazer um filme desse, dessa importância e não dispor gratuitamente na net, por favor.itamr gostaria muito que isso acontecesse.william

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