Julian Lynch e outras aventuras

por - 12:09


Não sei até que ponto ainda me é tragável a safra de psicodelia lo-fi que vem saindo dos Estados Unidos nos últimos anos, epitomada e encerrada em si mesma na estética Not Not Fun (toma, filósofos!) com artistas como Pocahaunted, Sun Araw, Topaz Ragz, etc. Há uns dois meses o Ducktails passou por Madrid na sua turnê européia com Julian Lynch e Big Troubles, e resolvi deixar de ser ranzinza e ver no que iria dar. Minhas referências eram o Landscapes e o homônimo do Ducktails, além de tentativas sem resultado de ouvir os dois primeiros do Julian Lynch (foda-se, certo?).

Depois de procurar por alguns minutos a porta de entrada da casa junto a um homem de perna mecânica que também zanzava vacilante pela rua deserta, entramos juntos na garagem de um edifício e avançamos até um tipo de depósito de materiais no subsolo, onde as três bandas se apresentariam. Havia vinis das bandas numa banca improvisada, latas de cerveja em baldes e umas vinte pessoas. Todos pareciam se conhecer.

Big Troubles foi um desastre. Não conhecia a banda, é impressionante a capacidade de um grupo soar tão genérico. Após o show voltaram ao palco o baterista e o baixista, acompanhados de outros dois guitarristas (um deles o ilustre Julian Lynch), e deu-se início a nova apresentação. Era outro artista comparado ao que eu já (pouco) conhecia, e aquelas músicas desconhecidas, que depois constatei serem principalmente dos dois últimos discos, me renderam. Entre música soul, psych-folk, uma passagem de 10 minutos de sludge metal, solos virtuosos de guitarra e canções a capella, o som do Julian Lynch me hipnotizou.

Antropólogo por formação, Lynch vai pelo caminho da etnomusicologia rumo a um Phd (vide entrevista). Sabendo disso, entende-se melhor a presença de um tipo de espiritualidade folclórica nos seus últimos discos. A faixa de abertura de Mare (2010) soa como uma canção sufi psicodélica tocada por Jim O'Rourke e Panda Bear com John Lennon nos vocais. O disco transcorre em um clima misterioso porém otimista, em uma ambiência etérea lo-fi constante. Terra, de 2011, é mais consistente que o trabalho anterior, flertando com algo mais progressivo, art-rock e jazz, porém sem abandonar o folk e a psicodelia.



Quanto à apresentação do Ducktails que tinha ido para ver... na terceira música eu já estava na rua em direção ao metrô.


Por Eduardo Haddad Jr.


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