Los Olvidados: Sinfonia da Crueldade

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Durante os letreiros iniciais do filme, somos alertados: esta película está baseada íntegramente en hechos de la vida real y todos sus personajes son auténticos.

A cada segundo de Los Olvidados, de Luis Buñuel, ecoa o pessimismo e a descrença no ser humano. O filme é habitado por jovens delinquentes, abandonados pela sociedade, tudo mostrado de um jeito extremamente cru, ofensivo. Seus personagens são desprovidos de esperança, apenas sobrevivem e não enxergam nada além do presente.

Pertencente à fase mexicana do diretor, Los Olvidados dialoga com Accattone (Desajuste Social) de Pier Paolo Pasolini, Les 400 Coups (Os Incompreendidos), de François Truffaut, Brutti Sporchi e Cattivi (Feios Sujos e Malvados), de Ettore Scola, Kids, de Larry Clark e Pixote, de Hector Babenco. Embora todos esses títulos sejam posteriores ao filme de Buñuel, nenhum deles conseguiu alcançar o grau de crueldade presente em Los Olvidados. Talvez o que mais chegue perto, seja o suicídio do menino Edmund, em Germania Anno Zero, de Roberto Rossellini.

Apesar da nítida influência do neo realismo italiano na fase mexicana do diretor surrealista, aqui Buñuel parte de uma realidade crua para uma espécie de realidade onírica que, por muitas vezes, se assemelha a um pesadelo, que só chega ao fim com a morte de suas personagens. Se por um lado, o neo realismo explorava a realidade sem muito tempo para o imaginário de seus personagens, já que eles lutavam pela sobrevivência e essa mesma luta já trazia em anexo seus sonhos carregados de esperança de um lugar ao sol (mesmo que no fim todos perdessem a dignidade e fossem atingidos pela frustração total); Buñuel, por outro lado, investe no pessimismo total, todos já nascem derrotados, não há nada a perder. No final do filme, a morte de um dos delinquentes é comemorada por um homem que grita: “um a menos, um a menos, deveriam ter sido mortos antes de nascer”.

O diretor atém-se à leitura psicológica de seus personagens. O que parece ser uma visão niilista, torna-se uma sinfonia de diagnósticos de uma sociedade doente. Buñuel torna-se um médico que aponta a doença, mas que também oferece os antídotos pra todos os males expostos.

A trama gira em torno do garoto Pedro (Alfonso Mejía): ele vive mais na rua que em casa, sente-se rejeitado por sua mãe. Esta se desiludiu com o filho e se ocupa trabalhando e cuidando de seus filhos mais novos, sozinha, sem o auxílio de um marido. A escola de Pedro é a rua, é lá que ele aprende pequenos furtos, a sobreviver com o uso da violência e da malandragem. Seu professor é Jaibo (Roberto Cobo), um foragido do reformatório que cita a instituição como uma universidade do crime. Ele está disposto a ensinar a seus discípulos todos os macetes aprendidos.

Jaibo suspeita que Julian (Javier Amézcua) seja o seu delator. Julian parece ser o único personagem honesto do filme, trabalha duro para sustentar a família, carrega o pai alcoólatra do bar para casa, mas logo é assassinado covardemente por Jaibo. Morre o primeiro vestígio de esperança, o pessimismo abre alas. Outra personagem surge, Ojito (Mário Ramírez): uma criança indígena, inocente, abandonada pelo pai na feira e que acaba por ser acolhida (ou explorada) pelo velho cego Don Carmelo (Miguel Inclán). Ao ser maltratado, ora pelos garotos de rua, ora pelo cego, pela fome ou pelo abandono, Ojito se transforma. Mas a sua malícia ainda é carregada de ingenuidade, permanece no filme como a personagem mais nobre, ele sobrevive e sua inocência aos poucos diminui.

Pedro simboliza a fatalidade da injustiça, sempre que tenta se regenerar, seu inimigo íntimo Jaibo o arrasta novamente para o abismo. Jaibo personifica o mal, é egoísta, sem caráter ou escrúpulos, causa a prisão de Pedro e se aproveita de sua mãe (Estela Inta). Jaibo seduz a mãe de Pedro, enxerga nela a imagem da santa mãe que perdeu quando era criança. Misturado com suas ansiedades sexuais, esse sentimento edipiano chega ao ápice quando a mãe de Pedro acolhe Jaibo com amor materno e piedoso, ao mesmo tempo que enxerga no delinquente a possibilidade de saciar suas próprias carências, causadas pela morte do marido.

Jaibo rouba tudo de Pedro, sua mãe, sua inocência, sua dignidade. Jaibo funciona como uma premonição social do próprio futuro de Pedro – analfabeto, abandonado, que luta pra sair do ciclo da marginalidade, mas sempre volta às dificuldades de se adequar às normas vigentes, se não pelas ciladas de Jaibo, pelas portas fechadas da sociedade. Jaibo é o espelho de Pedro.

Pedro se sente marginal, o mundo o enxerga como marginal e uma coisa realimenta a outra. Todo marginal é inventado, ou por influência exterior, ou pelo próprio coração amargurado, quando um se apoia no outro, a marginalidade alcança o seu estágio de glória.

As cenas de pesadelos de Pedro soam como óperas de sua própria realidade grotesca. Buñuel se manifesta com a maestria de seu surrealismo de sempre, com o auxílio da incrível fotografia de Gabriel Figueroa.

Em Los Ouvidados, Buñuel sugere três tipos de personagens. O bom (Juan), o primeiro a morrer. Os marginais (Jaibo, Pedro e outras crianças), que também acabam morrendo. E os em estado de prutrefação, que sobrevivem como mortos-vivos sem dignidade (a mãe de Pedro, o cego, Ojito, a menina, o pai alcoólatra de Juan).

Los Olvidados é uma obra extrema, causou escandalo na época, foi censurado, mas rendeu a Buñuel o prêmio de melhor diretor em Cannes em 1951. Apesar da cena mais cruel do filme, em que o cadáver de Pedro é atirado pela ribanceira baldia se misturando ao lixo, a cena mais emblemática talvez seja a que Pedro, em um descaso total, atira um ovo na câmera, gema e clara escorrem. Durante todo o filme, Pedro faz analogia entre homens e galinhas. Esse ovo estoura na testa de cada espectador, tal qual um aborto, como se Buñuel vaiasse o público e declarasse que o primeiro a morrer foi Deus.



Direção: Luis Buñuel
Produção: Óscar Dancigers
Roteiro: Luis Alcoriza, Luis Buñuel
Com:
Alfonso Mejía
Estela Inda
Miguel Inclán
Roberto Cobo
Alma Delia Fuentes
Francisco Jambrina
Jesús Navarro
Música: Rodolfo Halffter, Gustavo Pittaluga
Fotografia: Gabriel Figueroa
Montagem: Carlos Savage
Distribuição: Koch-Lorber Films
Release date(s) December 9, 1950 (Mexico)
Running time 80 min.
Language Spanish

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