"O que eu leio e o que eu faço - Cícero"

por - 17:18


Pesquisando sobre esse cara eu viajei na ideia que agora já podemos falar na década passada. Essa década passada são os anos 2000 a 2010. Muito estranho isso. Não que não seja verdade, mas soa estranho para mim, embora bom porque auxilie a marcar uma época. Ou, como no caso do Cícero, o - como vi na entrevistarealizada por Jorge Wagner para o Scream & Yell -  pseudo-movimento indie carioca da década passada. Foi nesse “pseudo-movimento” que a banda de Cícero, Alice, começou a mostrar as canções desse interessante compositor carioca.Cícero, que é produtor e DJ de três festas alternativas do Rio de Janeiro, lançou em junho desse ano um disco que com certeza vai para o meu Top 10 desse ano, o intimista Canções de Apartamento. Como menino de apartamento que sou esse disco me atingiu com suas letras confessionais e aquele jeito amarantiano de cantar, me lembrou até a voz do meu amigo Leo Trindade, o Moderato.Com uma combinação de 25 anos de idade e a chegada de uma época em que as ilusões ficaram para trás e que o mundo real mostrou as suas garras, Cícero, que tem um clarinete, um acordeon, um tamborim, um pandeiro, duas guitarras, um violão, um piano e está namorando um banjo, diz que, na banda em que tocava  “era como se eu andasse numa rua, com opções de esquerda ou direita. Sozinho é um grande descampado. Qualquer direção é direção”.

Confira agora o papo que tive com o figura durante toda essa semana, inaugurando o que meu brother Lueba sugeriu: duas perguntas por dia. Muito interessante a ideia já que uma pergunta gera uma resposta que gera mais perguntas e por aí vai. Cícero respondeu a todas de forma muito calorosa e foi super receptivo à ideia de participar da coluna. Vejam agora o bom papo que rolou:

(Bruno Jaborandy) O quanto de influência o que você lê tem no que você faz musicalmente?

(Cícero) Toda. O que a gente lê verbaliza o que a gente sente. Essa é a ponte. Tem vezes que tenho a impressão de que só passei a sentir aquela coisa depois de ler. Parece que inventaram um sentir novo pra mim naquilo. Eu faço música pra dividir isso. Os meus "sentires".

(BJ) Se você pudesse escrever a trilha para a adaptação de um livro para o cinema, de qual livro seria?

(C) O Pequeno Príncipe.

(BJ) O que você achou da adaptação do Pequeno Príncipe, realizada em 1974?

(C) Eu não vi. Soube que tinham feito o filme, mas ainda não vi. Lembro de ter baixado esse filme e o Lobo da Estepe. Os dois vieram dublados em algum idioma que não faço a menor idéia qual era. Acabei não vendo.






(BJ) O que você sentiu quando compôs sua primeira canção?
(C) Lembro que foi usando os únicos 3 acordes que sabia tocar. Lá menor, Dó e Ré menor. Mudei a ordem dos acordes de "Ainda é cedo", que foi a primeira música que consegui tirar. Tinha uns 13 anos. Eu não lembro o que senti, mas lembro de ter sido a primeira vez que fiquei 100% envolvido com alguma coisa. Fiquei o final de semana inteiro sentado na cama tocando aquilo e escrevendo a letra. Horas e horas. Nunca tinha ficado tão concentrado na vida. Eu sempre tive um déficit de atenção muito acentuado. De lá pra cá foi ladeira abaixo. Cada vez passando mais tempo compondo. É a única hora que minha cabeça desacelera.(BJ)Pra você qual é a diferença do processo de composição solo e com uma banda?

(C) Referência. Na banda eu tinha a mesma liberdade de composição que tenho solo. Mas eu tinha referências. Quatro amigos comentando, estimulando idéias boas, desestimulando idéias ruins. Pensava o arranjo em função dos instrumentos. Na banda era como se eu andasse numa rua, com opções de esquerda ou direita. Sozinho é um grande descampado. Qualquer direção é direção.






(BJ) Qual a melhor hora do dia para compor?(C) Madrugada. Chega a ser cliché, mas é de madrugada que o mundo deixa a gente sossegado. Tem menos energia circulando e confundindo a gente.(BJ) Como é sua relação com os instrumentos musicais? Você compôe no violão ou no piano?

(C) Eu tenho vários, mas toco todos de curioso. Brinco de tocar, na verdade. Tenho um clarinete, um acordeon, um tamborim, um pandeiro, duas guitarras, um violão, um piano, estou namorando um banjo... Mas eu componho no violão. É o que toco desde criança. Comecei a estudar formalmente piano há 1 ano, mas ainda não me entendi com ele a ponto de compor.

(BJ) Além do piano o que você estuda atualmente?

(C) Oficialmente, só piano. Terminei a faculdade de Direito e resolvi me dedicar só a isso. Mas sou apaixonado por filosofia. Penso seriamente em começar uma faculdade de filosofia.






(BJ)Já tem alguma turnê para o projeto solo em mente?
(C) Sim, sim. Acabei de montar a banda na semana passada e agora vou começar a ensaiar. Daí depois é começar a ver lugares e tocar.(BJ) Você costuma ler poesia?

(C) Poema é o que mais leio, disparado. Como te falei, tenho um problema enorme com atenção e foco. Sempre tive. Por melhor que seja o romance, ou crônica, eu acabo desligando a atenção no meio. Perdi a conta dos livros que parei na metade, no começo, na reta final. Tenho mais livros lidos até a metade do que livros lidos por inteiro. Com essa forma de poesia encontrei meu ritmo. Por maior que ela seja, é pouco provável que tenha o tamanho de um romance. Você pode pintar um sentimento em um livro ou em três linhas. É só questão de forma. Drummond, Leminski, Neruda & Vinícius. Foram meus quatro vícios de adolescência.

(BJ) Já musicou algum poema, só pra ver como fica e tal?

Não. Nunca coloquei melodia em letra. Sempre começo pela música e a letra vem depois. Escrevo muitos poemas e alguns acabam virando música. Mas eu desconstruo eles, pego só a intenção. Com poemas de outras pessoas acho que seria um desrespeito.





(BJ) Nesse apartamento de onde saem as canções, será que sai alguma prosa tambem?
(C) Nunca escrevi prosa. Só poemas. Na verdade, acho que já devo ter me aventurado, mas nada que eu gostasse...(BJ) Quais seus cinco livros favoritos?

(C) Difícil essa, heim... vou pegar um de que cada linha:

Polonaises - Leminski
O lobo da Estepe - Hesse
Antologia Poética - Drummond
Assim Falou Zaratustra - Nietzsche
Antônio Carlos Jobim - Helena Jobim



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1 comentários

  1. >Uma maravilha essa entrevista, parecia que eu tava na mesa tomando um suquinho de laranja com vocês.Gostei.

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