"O que eu leio e o que eu faço - Juninho Sangiorgio"

por - 12:09




Ele toca em três bandas que tem um alto conceito junto à galera que curte música hardcore: a lenda do hardcore Ratos de Porão, a pancadaria em formato power trio do Discarga e a banda instrumental mais hardcore do mundo Eu Serei a Hiena. Além disso também faz parte da banda O Inimigo. Vegan, Straight Edge, um dos fundadores da Verdurada no Brasil, o cara parece que sempre está fazendo mil coisas ao mesmo tempo.

Quando dá entrevistas em documentários ele sempre manda muito bem nas respostas. A sensação é de que ele não apenas participa da cena tocando, mas também lendo, pensando e ajudando a fazer acontecer. Para saber o que faz parte da bagagem, principalmente intelectual, que ele leva em sua rotina eu falei por email com Juninho Sangiorgio, que foi muito gente boa em responder algumas perguntinhas sobre seus hábitos de leitura e suas influências. Confere aê, pessoal:

(Bruno Jaborandy) Qual a tua primeira memória com livros, tem mais a ver com a infância ou adolescência?


(Juninho Sangiorgio) As memórias mais antigas são os clássicos que lia na escola, A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, Cazuza, de Viriato Correia etc. Isso me lembra mais a infância mesmo, nunca tive costume de ler muito na adolescência.

(BJ) Você acha que a galera do hardcore costuma ler? Ou ainda não é uma coisa tão forte?


(JS) Eu acho que o pessoal do hardcore lê sim, não é uma coisa assim tão forte nesse meio, mas desde sempre nos deparamos com recomendações de livros, citações em discos, isso é muito legal, pois dentro desse meio as pessoas acabam confiando na sugestão dos outros e sempre pegam coisas boas pra ler.





(BJ) Você chegou a ler os livros do Mozine, do Quique Brown e do Panço? O que achou deles?


(JS) Eu li os livros do Mozine, Una Gira en Sudamérica, e do Quique, Guitarra e Ossos Quebrados, esse do Panço eu não conheço. Gostei bastante, pois é como os caras estarem na sua frente contando uma história bizarra de muitas que eles sempre nos contam quando nos vemos. Acho bem interessante essa linguagem também, sem nenhuma formalidade, é outra forma de comunicar esses acontecimentos estranhos e engraçados que rolam no dia a dia do punk rock.





(BJ) Tu costuma ler livros sobre música?


(JS) Eu costumo ler bastante sobre música sim, e pra ser sincero foram os que eu mais li nos últimos tempos. Peguei o Love Supreme e o Kind of Blue, ambos do escritor Ashley Kahn. São incríveis! Contam histórias legais da vida dos músicos de jazz dessa época entre 50 e 60, e também muitos detalhes sobre as sessões de gravações dos discos. Li também um sobre a vida do Charles Mingus, e também aquele do Nelson Motta sobre o Tim Maia, O Som e a Fúria de Tim Maia. Clássico!






(BJ) Já vi você falando no documentário do Kiko Goiffman que sua postura com relação a ser vegan e straight edge tem uma pegada política muito forte. Teve algum livro que foi importante nessa formação política com relação a seu estilo de vida ou foi tudo no esquema auto-didático?


(JS) A minha formação dentro da política vegan straight edge se formou por um conjunto de informações que fui juntando durante os anos. Muita coisa de encarte de discos, fanzines antigos, alguns livros, documentários, na real é a soma de tudo. Alguns livros se destacam bem, como o clássico do Peter Singer - Libertação Animal, Direito dos Animais do Laerte Fernando Levai, e mais pra frente o livro do Eric Slywitch, Alimentação sem Carne. Esses e muitos outros foram bem importantes para a formação da galera aqui dentro do hardcore, pois mesmo as pessoas não os lendo, eram aquelas conversas trocadas no dia a dia que completavam as opiniões que todos buscavam o tempo todo.








(BJ) Pra quem quer saber mais sobre o faça-você-mesmo e sobre o panorama vegan no Brasil, que livros ou sites você recomenda?



(JS) Não sei recomendar muita coisa, mas imagino que a melhor coisa é estar no meio do pessoal, conversar bastante, ir atrás de algumas citações, buscar as coisas mais clássicas. Há pouco tempo foi lançado um fanzine que se chama Reclaim!, é uma publicação vegan straight edge anarquista muito bem feita e pode ser encontrada facilmente entra o pessoal do punk/hardcore. Sites sobre vegetarianismo tem muitos, dando um google ali aparecem muitos, e é legal ir dando uma olhada em todos, vendo onde cada um aceita e se encaixa melhor com a linguagem.









(BJ) O que te levou a estudar biologia? Teve muito a ver com o fato de você ser vegan?



(JS) Na época que estava no colegial, eu fazia processamento de dados, era uma droga! Então resolvi mudar totalmente o rumo das coisas, pesquisei um pouco sobre as faculdades de Biologia em São Paulo e escolhi a São Camilo, aqui perto da minha casa, no Ipiranga. O curso era voltado para meio ambiente, trabalhos externos, e não tanto para laboratório, daí resolvi arriscar e me dei bem. Me dediquei bastante naquela época, estudei muito, li muita coisa, foi bem legal, mas só trabalhei na área por 2 anos, logo depois cai mais de cabeça só na vida do hardoce e fiquei afastado da biologia. Ano passado voltei a fazer uns trampos nessa área, trabalhando com um amigo que tem uma empresa de gestão ambiental e controle de pragas urbanas. O lado do veganismo não ajuda muito a fazer biologia, as faculdades já tem aquele esquema padrão de ensino, e é bem difícil acrescentar coisas diferentes na cabeça dos outros alunos e professores, então fui a ovelha negra da classe sendo vegetariano, só ali pelo terceiro ano que ficou uma coisa mais fácil de conversar com uns colegas, e daquela época sei que tem 2 meninas que viraram vegetarianas e estão firmes até hoje! 








(BJ) Queria que você me contasse um pouco sobre a escolha dos títulos para as músicas do Eu Serei a Hiena porque eu sinto que tem toda uma referência intelectual e tal, ou seria viagem minha?



(JS) Eu só dei 1 nome de música até agora! hehehehehe. 90% dos nomes quem dá é o Wash (baixista). Ele usa muita influência de literatura japonesa, por ter morado lá um tempo, e também filmes lado b e bizarrices do gênero. Eu gosto muito dos nomes, acho que criou uma característica da banda, pois desde o começo usamos essa forma. Seria interessante você fazer uma entrevista com ele.



(BJ) Pra terminar: quais os cinco livros que fizeram tua cabeça? Os mais marcantes.

(JS) A Love Supreme (Ashley Kahn), A Valsa dos Adeuses (Milan Kundera), Libertação Animal (Peter Singer), Gomorra (Roberto Saviano) e o melhor de todos: As Veias Abertas da América Latina (Eduardo Galeano).



Você também pode gostar

0 comentários