"Guia prático para fingir estar atrasado"

por - 18:57


Considerando os tempos de hoje talvez este pequeno manual não seja nem necessário, mas como não sabemos como será o dia de amanhã, façamos ele mesmo assim. Nunca se sabe quando vai ser necessário ser rápido e confortável como uma mentira. Se bem que é bem fácil saber quando você vai precisar mentir sim, caso contrário, você não consideraria uma boa idéia mentir, pra começo de conversa. Mas enfim, vamos ao que interessa.

Inicialmente, façamos como um professor chato do ensino médio que não sabe como começar a aula e começa por algo aparentemente óbvio, mas que na verdade é desnecessário por completo: vamos definir pressa. Basicamente, ter pressa significa querer chegar rápido de um lugar a outro, de maneira que você pareça ridículo de alguma forma, fazendo com que todos a sua volta percebam que você precisa chegar a algum lugar em um curto período de tempo.

Esta definição já mostra incoerências que gente atrasada costuma praticar. Se você sabe que está atrasado, por que fazer as coisas mais rapidamente? Você não será capaz de voltar no tempo se tentar andar mais rápido que ele. Além do mais, por que dar pinta de que está atrasado? As pessoas NÃO sairão da sua frente, os carros NÃO pararão para você passar e sempre vai rolar aquela velhinha pra te atrasar ainda mais, passeando com o pequeno poodle francês que se acha o Dado Dollabela. Este é o estereótipo de atrasado que devemos evitar, uma vez que sabemos que ele é o tipo de atrasado que ganha fama de atrasado e é reconhecido na rua como “o atrasado não somente em tempo, mas em desenvolvimento cerebral”.

Depois de muito explicar a teoria vaga e quase inútil, vamos ao prático. Primeiramente, para parecer atrasado, você precisa ter certeza de que está atrasado. Como? Faça o que qualquer ser humano faz ao natural. Culpe algo para justificar seu atraso. Governo, ônibus, passeata da força sindical, metrô, carros demais na rua, muito oxigênio, sol demais, bicicletas de menos, camisinhas assassinas, falta de mulher, inflação, enfim. Isso fará com que as pessoas vejam o quanto ocupado você é ou o quanto você é bom em argumentar sobre aquilo que te fez atrasar.

Outro aspecto interessante para simular bem um atraso é o modo de andar. Não precisa ser rápido e desengonçado, como um gordo numa esteira rolante. Pode ser um caminhar leve e concentrado, mantendo a cabeça levemente abaixada. Desta forma, se alguém olhar pra você, não vai deduzir de cara que você está atrasado, mas que está indo a algum lugar, como qualquer outro. É válido também não dar indícios de distração, como colocar as mãos nos bolsos. Gente distraída não está atrasada, está na nóia. Em caso de emergência, use o celular para fingir que está fazendo algo importante. Celulares têm muitas utilidades funcionais, mas utilidade social, só tem essa: fingir ser alguém ocupado.

Por fim, para parecer uma pessoa com pressa, é preciso de uma coisa fundamental. Não, não é pressa, ainda que se você a tiver, o manual se transforma num grande pedaço de bosta. Mas eu me refiro ao fato de atestar sua pressa a todos que podem questioná-la. Exemplo: aquele pessoal que faz pesquisa e que pede um minuto da sua atenção, e que nunca de fato é só um minuto. Para eles e para qualquer outro que colocar sua credibilidade a prova, diga em alto e bom tom: “desculpa, eu estou atrasado” e não olhe para trás. Quanto mais certeza você tiver quando falar isso, melhor. Japoneses são muito bons nisso. Eles falam tão incisivamente que parecem ter certeza até na dúvida. Como quando perguntei a um japonês no ônibus se ele sabia onde ficava determinada rua. “NÃO SEI”, ele disse. E até que ele me convenceu de que realmente não sabia.

Bem, espero que este seja um documento de utilidade a você leitor. De alguma maneira espero ter feito a diferença na sua vida, se tratando de mentir covardemente com a fiel credibilidade de uma verdade. Até porque, são poucas as vezes em que devemos parecer apressados, mas lhe afirmo com certeza de que todas estas dicas foram testadas e aprovadas... com ratos de laboratório...  americanos... do século XIX.

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