"O que eu leio e o que eu faço - Bea Rodrigues"

por - 17:52



As bandas de música noise/no wave/shoegazer (ou do que quer que você queira chamar) tem uma tradição muito forte de sempre ter uma integrante feminina na formação. Puxando na memória: Kim Deal (Pixies), Kim Gordon (Sonic Youth), Bilinda Butcher e Debbie Googe (My Bloody Valentine) e na minha memória a Nina Magalhães( da Super Amarelo, a melhor banda de guitar-pop que já existiu em Maceió).

O lance é que a presença dessas integrantes inspirou muitas garotas a querer fazer um som, especialmente nessa vibe dos barulhos que se intercalam com vozes doces que se intercalam com pancadaria. Aqui no Brasil temos The BiggsHuman Trash (SP) e Renegades of Punk (SE), bandas que já firmaram sua importância no cenário independente brasileiro e que tem em sua formação integrantes femininas que se garantem muito na performance e na atitude.

Eis que, por indicação do Diego, do Hominis Canidae, fui apresentado a banda Mavka, de Sorocaba(SP). Com um nome massa e esquisito desse eu só podia crer que era coisa boa! Mas eu estava errado: o som é muito bom! Belo instrumental e uma guitarreira muito responsável na execução. Duas garotas fazem parte da formação: Duda Caciatori (teclados) e Bea Rodrigues (voz e baixo). É a Bea então que é a próxima personagem de "O que eu leio e o que eu faço".

Conversamos um pouco via email sobre o que faz parte do seu estilo de compor, como começou a fazer um rock, família, amigos, perguntas que ficaram um pouco mal formuladas (logo seguidas por pedidos de desculpa de ambas as partes) dentre outras coisas. Material finíssimo o dessa entrevista, confere ae!

(Bruno Jaborandy ) Como funciona o processo de composição da Mavka? Todos escrevem?


(Bea Rodrigues) No Mavka quem costuma fazer as letras sou eu e o gringo, porque somos os dois que cantam, mas isso também não é uma regra absoluta, saca? Tem uma música nossa que foi uma adaptação de um texto da Duda, do antigo blog que ela tinha. passamos pro inglês e adequamos à métrica, melodia, etc.

(BJ) Como começou tua história com relação a música? Com que idade começou a tocar?


(BR) Eu sempre lembro de ter música em casa. Minha mãe e meu pai sempre foram muito ligados a isso. meu pai era baixista em uma banda de jazz quando eu era bem pequena e teve um estúdio na casa em que morávamos antes deles se separarem, quando eu tinha lá uns 3 ou 4 anos. minha mãe me acordava todos os dias cantando "Here comes the Sun" dos Beatles, por exemplo. A trilha sonora da minha infância/começo de adolescência sempre foi um dos dois escutando jazz, bossa nova, blues, mpb, meu pai curtia muito rock progressivo - curte ainda, né, fazer o que? Minha mãe se deixasse escutava Bob Dylan o dia todo. Eu cantava em algumas bandas que nunca saíram da garagem na adolescência. de Hole a metal melódico - pasmem - mas afinal adolescência é pra fazer merda mesmo. Baixo eu comecei a tocar lá pelos 17 anos, quando saí do colégio. Sempre gostei dos timbres graves mas meu pai relutava em me ensinar porque achava minhas mãos pequenas demais.




(BJ) Você ainda é estudante ou já trabalha? Qual sua formação?


(BR) Eu me formei em psicologia mas trabalho com fotografia desde 2006 [me formei em 2010]. apenas terminei o curso, não tinha interesse mais em atuar na área e trabalhei com diversos ramos em fotografia desde então. ano que vem começo uma graduação em fotografia e artes visuais na panamericana.


(BJ) Difícil conciliar a música com as outras atividades?


(BR) Não acho muito difícil porque consigo estruturar vários freelas, então consigo alguma flexibilidade, e mesmo quando consigo algo mais fixo tento negociar. com a fotografia de garagem, que é o que eu realmente amo fazer em termos de foto e que trabalho com o coletivo we shot them  a coisa fica ainda mais próxima por ser o mesmo "ambiente de atuação"por assim dizer, já que tocar e clicar acontecem no mesmo lugar hehe

(BJ) Teve alguma musicista que te fez querer tocar baixo? Alguém que você admira e tal?

(BR) Baixo? opa!  teve sim. no baixo foi a Melissa auf der Maur [ex Hole e ex Smashing Pumpkins].




(BJ) Como você vê a participação das garotas na cena rock de Sorocaba?

(BR) Então...é eu nunca encarei isso como algo a ser reparado, saca? Tem um monte de gente atuando em sorocaba, seja no rasgada coletiva [coletivo de lá], seja no asteroid[bar massa com som foda onde rola show toda semana], seja na tentáculos [uma loja de roupas alternativas que fornece espaço pras bandas], seja no sound [é um bar], seja nas outras formas de manifestação musical, teatral, literária...

(BJ) Você costuma ler blogs e zines virtuais?


(BR) Eu leio muito o Floga-Se, tenho uma parceria com o fernando com as fotos que, quando possível, executamos, leio o Hominis Canidae, às vezes o rockinpress, mas tudo hábito novo, desse ano.

(BJ) Como se dá essa tua parceria no Floga-se? São só fotografias ou vc faz textos tbm?


(BR) Eu fiz uma resenha uma vez do loomer toca My Bloody Valentine que rolou no Asteroid Bar e normalmente quando vamos ao mesmo show ele usa tanto fotos dele quanto as minhas nos posts! {:





(BJ)Com que idade mais ou menos você compôs a primeira música?


(BR) Mais ou menos aos 14 ou 15 anos eu acho. eu fazia muito texto-texto, tipo prosa, antes. criava contos e coisas assim, a maioria eu começava e nunca terminava. aí um dia da adolescência eu conheci o bob dylan e fiquei perdidamente apaixonada pelas letras dele e então eu decidi começar a tentar escrever algumas. claro que de início ficava uma tremenda merda mas hoje eu fico satisfeita mas continuo tendo-o como inspiração.

(BJ)Você costuma compor quando está sozinha também, tipo em casa?


(BR) Costumo compor em casa sim, a maioria das minhas ideias vem - vai vendo - quando estou no banho ou quando estou andando. Mais ou menos assim: eu sou distraída então quando eu conheço o caminho por onde eu tenho que passar eu não olho mais tanto pra frente, eu fico reparando em detalhes, o lance de tirar fotos me deu esse hábito, de caçar coisas que eu ainda não tenha visto naquele lugar que me é tão cotidiano sabe, aí às vezes eu vejo alguma coisa e associo a alguma frase, ou uma palavra chave que seja. uma das músicas do Mavka exemplifica bem, ela se chama "truth is dynamite" e essa frase estava escrita num muro pelo qual eu passava voltando do meu antigo trabalho. ela me chamava a atenção todos os dias, até que um dia eu sentei e escrevi a letra toda numa só, baseada nessa frase.




(BJ) As referências literárias do Bob Dylan te levaram a conhecer algum escritor ou escritora?

(BR)eu conheci Dylan e Virginia Woolf na mesma época. Por causa do Dylan eu conheci o Kerouac e o Allen Ginsberg, do movimento beat.

(BJ) Além dele, quais seus compositores favoritos?


(BR) Além do Dylan eu sou muito fã do Lee Ranaldo e do Thurston Moore, gosto muito da Cat Power, Eddie Vedder sempre teve letras importantes na minha vida também, seja com o projeto solo ou com o Pearl Jam mesmo, as letras cretinas do Hole sempre me encantaram, mas deve ser uma coisa de ser fêmea e saber o que é quando ela fala de coisas muito femininas rs não saberia dizer.

(BJ)Você tem costume de ler poesia?


(BR)Leio muito pouco. de poesia só gosto do Neruda e do Maiakovski, mas é mais por falta de costume acho.

(BJ)Pra gente terminar: quais seus cinco livros favoritos?


Mrs dalloway, da Virginia Woolf

Orgulho e Preconceito, da Jane Austen [não há fêmea no mundo que resista ao Mr Darcy, fazer o que rs]

A náusea, Sartre

As intermitências da Morte, Saramago

O amor é um cão dos diabos, Bukowski.

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2 comentários

  1. >Deixa eu ver se eu entendi!A menina é gata, canta bem, gosta de rock (tem ate banda!) e cita Saramago, Sartre e Bukowski entre os livros da vida?!(L)

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  2. "(...)meu pai curtia muito rock progressivo – curte ainda, né, fazer o que?"



    O rock progressivo é um estilo mais "bastardizado" do que o punk jamais foi.

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