"O que eu leio e o que eu faço - Quique Brown"

por - 12:10




O que pensar de uma banda cujo nome se refere a uma doença escabrosa? Doença quase medieval, resultado da sujeira, da proliferação de roedores? Mais especificamente da urina desses roedores? Seria a utilização de nomes considerados “nojentos” uma tradição do hardcore? Só de memória já podemos lembrar de: Merda, Discarga, Catarro. Nomes sujos para sons sujos. Mas sujos no bom sentido. Uma bagaceira de distorções com vocais gritando letras caóticas e performances enlouquecidas. Essa é a receita da banda de Bragança Paulista (SP) Leptospirose.

Nas guitarras e vocais desta banda está um rapaz que é uma mistura de educador com pai de família com estrela do rock doido. Seu nome é Luís Henrique Camargo Duarte, o que é inclusive o nome de uma das suas canções. O apelido é Quique. Com quase certeza podemos afirmar que por causa de Henrique. Henrique: Rique: Quique. O lance é que além de ser essas coisas todas Quique Brown ainda escreveu o livro “Guitarra e Ossos Quebrados”, lançado de forma independente pela Laja Records, do Fábio Mozine (Mukeka di Rato, Os Pedrero, Merda). O enredo do livro trata da turnê que o Leptospirose e o Merda fizeram pela Europa.

Tocar em squats, conhecer pessoas estranhas no Velho Continente e até passar por um grave acidente de carro que por pouco não deixou Mozine sem andar. Muita coisa aconteceu nesses dias em que esses brasileiros encararam o continente europeu. Para saber um pouco de onde surgiu a idéia de escrever esse livro além de outros detalhes, inclusive o de querer se candidatar a vereador, conversei com Quique Brown durante uma semana por email, naquele esquema duas perguntas por dia. Curtam agora o papo show de bola que eu tive com o roqueiro de visual a la Ron Jeremy:

(Bruno Jaborandy) Como é teu processo de composição pra Leptospirose? Você pensa primeiro na melodia ou faz a letra e encaixa na melodia?


(Quique Brown) Tudo começa com uma faixa instrumental, tanto no Mula Poney quanto no Aqua Mad Max, a maioria das músicas ganharam letra pouco antes das gravações, na pressão pra fechar os discos. Sentei na frente do computador com o word aberto e violão na mão e soquei o pau digitando um monte de coisas que aos poucos foram tomando forma. Como o Leptospirose é só gritaria, eu nem piro muito eu imaginar uma melodia muito doida e tal, não dá pra fugir muito do que ta no instrumental, vem meio natural, vou lá dou uns gritos e pronto!

(BJ) Como surgiu a idéia para o "Guitarra e Ossos Quebrados"?


(QB) Na Europa eu mantinha um diário que se perdeu no acidente, quando cheguei em casa não consegui reescrever a parada em forma de diário, soava estranho demais, fui escrevendo estilo história, o lance foi ficando legal, conversei sobre lançar a parada com Mozine, o cara topou e deu no que deu.





(BJ) Tu se inspirou em algum livro que tenha lido para escrever o "Guitarra e Ossos Quebrados"?


(QB) A linguagem do livro é rápida, gosto muito da literatura 'beat' isso pode ter me influenciado, no campo da música o que mais me influenciou foi o Jason 2001 uma Odisséia na Europa do Leonardo Panço.

(BJ) Quem mais do hardcore brasileiro você acha que podia escrever um livro? Que teria boas histórias para contar?


(QB) Já dei idéia pro Ete dele lançar um livro com pôsters e histórias de show, tipo cada poster uma história. Bandas clássicas como Ratos, Cólera etc devem render ótimas histórias, esses caras aí tem tantas que da até pra jornalista ou sei lá agitar isso!







(BJ) Qual compositor do hardcore brasileiro tu acha que mais manda bem nas letras?


(QB) Gosto muito do Frango do Galinha Preta, de Brasília, as letras dele são sempre muito diretas, pequenas e carregadas de conteúdo, enquanto nego faz umas letras do tamanho de Faroeste Caboclo pra supostamente dizer alguma coisa ele diz muitas com cerca de 10 palavras, o cara detona geral, pra mim ele não é bom só dentro do punk hardcore não, pra mim ele ta muito a frente daquilo que a mídia musical chama de "novos compositores da MPB" e toda essa parafernália!





(BJ) Você costuma ler livros sobre música?


(QB) Costumo total, biografias, livros didáticos etc. a última biografia que eu li foi uma do Luiz Gonzaga chamada Vida de Viajante, o último sobre escola e tal foi um doidão chamado O Ouvido Pensante, que rendeu até um nome de música do Leptos.

(BJ) Você também é professor de música, não é? Como é a experiência?


(QB) Tenho uma escola de musica em sociedade com o velhote, baxista do Leptospirose, chamada Escola de Música Jardim Elétrico e dou aulas de musica em outras duas escolas 'formais' que possuem convênio com a gente. Na nossa escola existem os alunos que se matriculam num instrumento qualquer, tem aulas individuais e passam pelo menos uns 3 ou 4 meses do ano tendo aulas de 'banda', nas escolas 'formais', a gente da apenas aulas de banda - pega uma molecada que nunca pegou um instrumento na vida e arma um esquema pra que eles saiam tocando, estamos neste ramo a 3 anos e tudo tem sido muito poderoso em varios aspectos.

(BJ) Como é ser professor de música? Quais os pros e contras?

(QB) Ser professor de música é muito doido e gratificante pra mim que estudei pedagogia e respiro música o dia inteiro. Encaro a disciplina como algo que vai muito além do simples fato de tocar, gosto de ver a molecada encarando a parada como arte, dou aula pro Ensino Fundamental II. O legal de ser professor nos dias de hoje é que por mais que role todo esse papo (que ainda não saiu do papel) de que o ensino de música será obrigatório a partir deste mês em todo o Brasil, que as universidades estejam criando uma série de cursos de especialização em educação musical pra suprir essa demanda e tudo mais, tudo aquilo que envolve educação musical no Brasil é extremamente cru, isso faz com que a gente tenha que agitar as coisas a nossa maneira, se arriscando o tempo todo. Pra mim esse desafio de meter as caras e fazer acontecer no maior estilo Do It Yourself é muito poderoso, o DIY é o que eu encaro como estilo de vida e sendo assim acho que não tenho muito do que reclamar da minha profissão não né? hehehe Acho que vivemos um momento muito forte na área da educação musical e que há muito o que discutir a respeito disso, essa falta de possibilidade de troca com outros profissionais é pelo menos pra mim, o grande 'contra' dessa onda escolar toda!






(BJ) Já colocou teus alunos para ouvir o Leptospirose?


(QB) Sempre boto, mostro as partes, comento a ideia da letra e tudo mais, adora fazer isso! Estive em Brasilia semana passada, Velhote não pode ir pois estava com pneumonia e quem tocou baixo pra gente foi o Frango vocalista da galinha preta. No ensaio rolou uma fita semelhante a essa de mostrar as musicas pros alunos, a coisa fica mais profunda, a gente vai  mostrando as coisas por partes, o entendimento final pra quem tá de fora acaba sendo muito legal, o cara passa a entender exatamento como aquilo foi construido.

(BJ) Qual a memória do primeiro livro que você leu?


(QB) Do primeiro livro eu não tenho muita memória não. Coleção Vaga-Lume. Mas dos primeiros livros que eu gostei eu tenho bastante, foi um de poemas do Paulo Leminsky que meu amigo Antenor me emprestou e eu pirei demais, e o Liberdade Sem Medo do A.S. Neill, que eu comprei muito por acaso num sebo, comprei pela contracapa que dizia "uma verdadeira revolução na teoria e na prática da educação" o livro conta a história da escola livre Sumerhill, pirei tanto nele que fui parar num curso de pedagogia.

(BJ) Quais outros livros te levaram a cursar pedagogia?


(QB) O livro que me levou ao curso foi o Liberdade Sem Medo mesmo, mas pirei com Paulo Freire, Escola da Ponte etc.






(BJ) E essa lance ae na política, como começou?


(QB) Desde de 2004 que nego me convida pra ser candidato a vereador aqui em Bragança. Em 2004 eu pulei fora, e em 2008 eu topei mas não fiz campanha, sai mais pra ver como era o esquema, fui o 32º mais votado de um total de 217 candidatos, atualmente estou em busca de um partido pra me filiar, tudo indica que vai ser um lance fera. As eleições 2012 que me aguardem!!!







(BJ) Quais seus cinco livros favoritos?


(QB) Utopia Selvagem (Darcy Ribeiro), O Teste do Ácido do Refresco Elétrico (Tom Wolfe), On The Road (Jack Kerouak), Fabulário Geral do Delírio Cotidiano (Charles Bukowski) e Mate-Me Por Favor (Larry "Legs" McNeil e Gilliam McCain)

(BJ) Que conselho você daria para alguém a fim de fazer um rock doido?


(QB) Acho que o crime é se arriscar, não ter medo de extrapolar aquilo que chamam de 'estilo musical', ouvir vários tipos de música e principalmente montar uma banda com a rapaziada certa, com uma rapaziada livre.




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