Travolta Discos e o marasmo que a Baixa Augusta criou

por - 12:08



No meio daquele amontoado de prédios no Centro da cidade, entre a Avenida São João, em frente ao Largo do Paissandu – e tudo que ele tem a oferecer – e a Rua 24 de Maio, da para ver uma espécie de shopping, num vai e vem de pessoas, sob aquele sol frívolo do inverno paulistano. “Grandes Galerias”, conhecida a partir da década de 70, por conta dos punks, como Galeria do Rock. Lá em cima, no terceiro andar, bem no final do corredor, em frente ao parapeito que te dá uma ótima vista da cidade, tem uma lojinha, número 302. Dentro dela, CDs, camisetas, caixas com vinis dentro, até então, apenas mais um comércio da galeria, mas não, ali se encontra a loja de um selo musical paulistano conhecido entre o meio alternativo e contra-cultural, a Travolta Discos.


Cleiton Sotte, um dos donos e criadores da Travolta, ao lado de Ailton, falou sobre a cena independente, tendências por conta da internet, shows e claro, sobre a Travolta Discos.


Paulo Marcondes: Como a Travolta começou?


Cleiton Sotte: A Travolta começou em 2004 se não me engano, lançando disco, a gente ainda faz um festival chamado Kool Metal Fest e foi meio que uma progressão natural dele. Porque sempre colocamos bandas que não eram conhecidas e não tinham espaço dentro da cena independente, era sempre uma banda que era meio termo entre uma coisa e outra e ficava ali meio desfocada, no meio de varias vertentes que rolavam no independente, dai o Envydust que era aqui de São Paulo chegou com o disco pronto pro Ailton e não tinha quem lançar, e a gente já tinha colocado eles pra tocarem no festival, e era uma banda em que a gente acreditava, e foi meio que duas coisas que acabaram a calhar e falamos “pô vamos lançar” e foi muito rápido. Tinha uma órbita de pessoas, de bandas e projetos em torno da gente e acabamos lançando assim.


PM: Desde quando você está na Travolta?


CS: Desde 2004. O Ailton chegou e falou, com o esqueleto do CD, “tem esse disco”, contou meio a história e disse: “tô a fim de lançar”. Aí começamos a fazer as coisas juntos. Eu faço mais a parte dos releases, a parte mais chata, que tem que fazer o src e a coisa vai indo.


PM: Tem algum critério de seleção para a banda entrar no casting?


CS: Putz, ficar animado com o que escuta e o que vê. Quase todas as bandas que lançamos, conhecemos em show, acompanhamos nascer ou a gente gostava de longe. Os últimos lançamentos são de bandas mais velhas, não tinha quem lançasse e entramos nessa. Na maioria das vezes, já tínhamos uma admiração pelos músicos, e a outra metade foi bandas que a gente viu, se apaixonou e ninguém tinha o menor interesse. Não ficamos empolgados com a ideia de lançar grupos grande, queremos lançar discos e artistas que a gente goste e seja legal.


PM: Então não fecha um estilo, metal, grindcore...


CS: Não, se você pegar as bandas, elas são completamente diferentes uma da outra. Tem o Envydust que era screamo, o Eu Serei a Hiena que é instrumental Fugazi, tem grind lá do Are You God? O Minuit que era mó banda pop. Era mais gostar da banda...








PM: E como você vê a cena independente atual? Acha que está melhor?


CS: Tem coisa que tá melhor e tem coisa que piorou. Melhorou um pouco a estrutura, essa coisa de equipamento, os lugares estão um pouco melhores em relação a isso. Essa coisa de Augusta ter um monte de lugar, de show com uma estrutura mais ou menos básica, tá melhor pra banda se apresentar. Em compensação, tem um lado que tá meio chato, porque centralizou demais essa coisa de Augusta. Antigamente tinha um monte de show em bairro, a galera achava um bar que tinha um palco e fazia um esforço pra fazer a apresentação acontecer lá, isso eu não tô vendo tanto. O pessoal não tinha lugar pra tocar e ia lá e fazia a coisa acontecer, muita banda que admiramos, a gente viu e conheceu nesses shows assim. Se você catar as programações de casas são basicamente as mesmas bandas, muda o mês e você vê o mesmo nome, eu não sei se acontece dessas bandas não estarem conseguindo chegar e também não sei se as bandas não sabem fazer ou não têm interesse de fazer um corre assim, de tentar achar algo e fazer a coisa funcionar e acontecer, então isso tá num sentimento meio de marasmo, nada de novo acontece.

PM: Você acha que tem como uma banda independente viver disso, sem trabalhar por fora, longe da grande indústria?

CS: Não sei se tem regra pra isso, porque vai da banda, de muita gente querer vê-la, vai dessa banda conseguir se encaixar, marcar show em SESC. Ainda tem lugares que pagam bem, mas nem todos os grupos têm perfil pra esses lugares. Tem banda que o cara se vira fazendo projeto de SESC, tipo, banda cover de Beatles, junta cinco caras e acaba virando outro tipo de emprego, ele acaba tirando uma grana assim do músico e o trabalho autoral dele ele mantém com isso ai, com outros projetos de música que o cara faz, agora, algumas bandas conseguem, conseguem tocar nesse circuito de SESC que tem um cachê e conseguem agilizar som ao entorno e conseguir manter uma banda, mas não é a regra.

PM: Você acha que a internet ajuda ou prejudica a cena independente? Tanto pra vocês que tem o selo, quanto pras bandas.

CS: Teve uma época que aconteceu um “voo de galinha” de bandas do final de 90 para o começo de 2000. Daí a indústria brasileira de gravadora estava se ferrando por causa de pirataria, então o modelo que os caras criaram de ter um sucesso e um monte de cópia daquilo, se fincaram nisso por várias décadas, e morreu nisso, na pirataria que eles perderam. Por outro lado o independente cresceu muito, porque bandas começaram a vender tiragens de mil, 2 mil, 5 mil CDs, e esse voo de galinha meio que consolidou uma geração ali do CPM pro NX, que eram grupos grandes, independentes que vendiam bastante discos e conseguiram fazer girar e sobreviver como banda. Um monte de gente veio ali, o Dance of Days, Dead Fish, Hateen e etc. Quando veio a internet ao mesmo tempo em que os fãs conseguiram se encontrar muito rapidamente, falar: “nossa, tem bastante gente que gosta desse tipo de som”, o negócio caiu porque deixou de existir uma receita das bandas que era a venda de discos. Então quando veio essa crise que a internet jogou a indústria musical pra lá, o independente acabou vindo e sendo varrido junto, porque agora pra você vender mil CDs levam uns dois anos dependendo, se a banda não toca muito. Vendia mais rápido, girava mais dinheiro e agora os artistas dependem muito de show e ainda é muito difícil você viajar pelo Brasil porque é muito caro pra uma banda independente. Ter um grupo assim no país é extremamente difícil, porque ou você vai sem ganhar nada, ou o cara, o promotor da outra cidade se ferra pra bancar o custo de uma banda menor. Ai o cara toca e não compra o CD porque já tem a musica, então você tem que criar outro jeito de conseguir uma grana pra poder manter a banda.








PM: Você acha que é bom e ruim ao mesmo tempo então?
CS: Sim, o pessoal está descobrindo como faz pra se manter como um artista independente. Pra você se manter como uma banda sem contrato com gravadoras, você tem que ter um emprego, daí sua música começa a ter destaque, o pessoal se interessar pelo seu som e terá que viajar, então você vai ter que dedicar um tempo, ai sai do seu emprego pra não ganhar nada com a banda e a realidade está aí, o cara vai ter conta pra pagar. Então sempre tem essa encruzilhada. Várias gerações de bandas independentes morriam nisso, porque tinha um circuito muito pequeno. Antes era Rio-São Paulo, hoje até tem mais, as bandas circulavam isso aí e estagnavam, não tinha mais pra onde ir. Não ia viajar mais e ia acabar morrendo pela falta de interesse do público. “Pô, esses caras de novo”.

“O cara não vai comprar pra descobrir, ele vai comprar o que já gosta.”

PM: Vocês são a favor do download?

Cleiton: Eu sou, eu faço download também. Não da pra ser contra...

Ailton: Hoje em dia inverteu a ordem da coisa, atualmente o cara baixa, ouve e se ele gostar  compra e não afeta, dentro da realidade atual, ajudaria.

Cleiton: Ajuda mais do que atrapalha. É uma questão que já foi, sabe?

Ailton: O cara não vai comprar pra descobrir, ele vai comprar o que já gosta.

Cleiton: pra banda lançar um disco e vender, ela vai ter que tocar mais, os artistas que mais vendem são os que mais tocam, pelo menos no nosso caso. Vende mais em banquinha de show do que na loja (risos).

PM: Já teve alguma briga entre o selo e músicos? Porque na cena independente tem o fator ego, como aconteceu com o Mombojó e o Elma recentemente.

CS: Com a gente o máximo que aconteceu foi uma banda se sentir desprestigiada por que outra tava tocando muito e eles diziam “pô, porque a gente não tava tocando tanto”, mas essa banda não trabalhava da maneira que a outra trabalhava, mas assim, eles tiveram uma ideia errada de que estando no selo as coisas iriam acontecer mais fáceis, que ia cair show no colo... a banda que tocava muito trabalhava pra isso, corria atrás, a outra não, ficava mais no computador esperando o show chegar. O máximo que aconteceu com a gente, com a experiência da Travolta, foi isso, mas também, coisas da vida...

PM: Tem alguma banda que vocês queiram colocar no casting e nunca conseguiram?

CS: Não, acho que não (risos).

PM: Quais bandas você destacaria da atualidade?

CS: Fire Driven que tem o Zeek que era do Ludovic, o Cesinha Lost... são tudo uns caras velhos do rock, mas a banda é nova, tem o TEST que está aí, Calistoga, Western Day, Quarto Negro, Noala, Umbilichaos que é uma linha Godflesh, Jesu, de um cara de São Paulo que eu nem sei quem é, mas ele mandou o myspace, legal pra caramba o som. Que eu lembro essas aí.




PM: E a Travolta tá de olho nelas pra ver se consegue lançar alguma?
CS: Geralmente a gente lança quando o cara chega com o disco pronto (risos). Estamos de olho em todo mundo pra ver o que está acontecendo, o que eles estão produzindo, o que estão gravando, porque às vezes leva tempo, até o grupo montar repertório, você sentir firmeza que a banda vai realmente existir, porque tem umas que só ensaiam – que são incríveis – , ai você vai lá e pergunta “vão tocar?” e eles “ah não, só ensaiar, show dá dor de cabeça” (risos), igual aconteceu com os amigos.

PM: Você falou do Kool Metal Fest que a Travolta produz, tem alguma outra festa que agenciam? Elas têm uma periodicidade?

CS: A gente tem o Travolta Discos Extravaganza que a ideia era ser mensal, mas a gente não conseguiu ainda, ai o mensal virou três meses (risos). Muitas vezes a gente faz o show porque tem banda vindo de outro estado e não tem a data pra fazer, ai assumimos a responsabilidade de produzir esse show e pegamos artistas próximos para fazer. Então às vezes a periodicidade é ter uma banda meio na roubada: “olha, a gente tá indo aí, tem algum show?”, se não conseguimos encaixá-los em apresentações de camaradas, acabamos produzindo. Pra montar um casting legal de um show tem muito o lance de agenda, os caras já estão tocando em outro lugar e não sei o quê, então às vezes até temos uma lista de bandas pra fazer um show mas não acontece porque eles já têm alguma coisa marcada.

PM: Bom, pra terminar, tem alguma festa que tá vindo, algum disco que vai ser lançado agora?

Cleiton: Talvez vamos fazer um Kool Metal esse ano, mas também tá nessa coisa de agenda... Lançamento...

Ailton: a gente vai fazer o lançamento do compacto do TEST, em vinil 7 polegadas, que esse ai tá mais encaminhado, basicamente é isso.





 


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