Uma viagem confessional em/até “Haveno” com a Constantina...

por - 21:50



Foi lançado nesta semana talvez o principal registro da música nacional em 2011, sem alardes e trombetas. Você não vai ver na MTV, nenhum Vj vai comentar, mas nesta semana nasceu o novo trabalho (O quarto registro) da banda mineira de música instrumental Constantina, intitulado de “Haveno” que no belo idioma quase morto esperanto significa porto, abrigo. São sete faixas que navegam por uma musicalidade extensa e absurdamente bem resolvida e expressada durante um passeio de quase cinquenta minutos. Este é sem sombra de dúvidas o melhor trabalho do grupo, o mais bem feito e elaborado (tanto nos registros sonoros quanto na arte). Os sete musicos são expressos em cada um dos instrumentos orgânicos, eletrônicos, analógicos, a arte é representativa de uma viagem, cada postal se refere a uma canção e pode ser enviado ao longe, se perder nos céus e no mar. Os encartes em forma de postais soltos trazem também versos de Nils Skare (livro: A antibruma), Lucas Morais (integrante da banda) e o cantor Wado. Além de belos desenhos feitos por Bruno Nunes (também integrante). Vale muito a compra do físico, segue um texto mal escrito inspirado no novo petardo sonoro (o disco é muito mais que isso)!




Na saída uma imobilidade tônica tenta tomar conta de nossos corpos, o peso morto matem o barco vagaroso, tentando impedir o avanço num desbravamento do desconhecido (como a vida). Isso é perceptível nos loops e samples iniciais da canção, mas ela avança sobre vibrafones e guitarras um tanto contidas a principio, tudo muito bem elaborado. Ganha vida e rapidez com instrumentos de sopro e quebras na bateria e percussão. Os instrumentos se intercalam numa crescente quase apoteótica e nos só estamos falando dos seis primeiros minutos do disco, muito mar ainda teremos que navegar.




E esse mar aberto é Azul Marinho, do mais escuro possível tom de ciano. O caminho é calmo a maior parte do tempo, refletido em águas limpas como a sonoridade dos instrumentos. É incontestável a importância do sopro nesta nova fase da constantina, ele da o tom desta canção. Alternando entre trombones baixos que se intercalam com palmas e riffs de guitarras, mas nem sabemos se isso é rock. O rótulo para banda esta perdido, largado ao marasmo, tanto o que beber e trafegar, seguir apenas um caminho é ate contraditório.




Então conhecemos o nosso ajudante, o responsável por fazer o barco seguir pelo caminho, Juan, El Marinero. O titulo da música já deixa claro a enorme influência latina que tem tomado conta da banda ao longo dos últimos anos (talvez por culpa do baterista Daniel Nunes, cada vez mais interagindo com os hermanos argentinos). Nesta faixa vem atrelada uma nova característica, a presença de samples e batidas eletrônicas (Daniel de novo?), atreladas a um piano/orgão tomam conta da maior parte da faixa, uma apresentação calma de como funciona nossa embarcação.


  Constantina - Benjamin Guimarães by constantina

Ele apresenta o seu companheiro de viagem companheiro, o capitão Benjamin Guimarães, responsável por escolher o melhor caminho e nos guiar. A canção tem inicio de maneira tímida, uma guitarra dedilhada, mas esta se mistura como se por camadas crescentes seguidas por órgão, vibrafones, bateria e baixo. É a faixa mais longa do disco, deixando claro que o percurso é longo e o capitão sabe tudo sobre seu barco. No meio da música uma das melhores seqüenciais de instrumentos deste trabalho, batidas eletrônicas, vibrafones, guitarras, pianos, baixos e interferências propositais que deixam claro aonde o condutor irá nos levar e o que precisamos alcançar. Única faixa que não deixa claro a presença dos instrumentos de sopro, mesmo sendo uma aula intercalada de sons.




Chegamos então na faixa mais tocante do registro para minha pessoal, descobrimos o peso da Bagagem Extra (que nome genial!) em nossa jornada. E ela vem carregada de elementos percussivos, é um mix de todas as influências possíveis de serem carregadas por sete integrantes ao longo dos anos e trabalhos. É a música onde a guitarra se faz mais presente, viva e imponente, mesmo que em duelo direto com o percussivo que acompanha e quebra o tempo todo na bateria. Com a entrada do sopro alto e forte, a bagagem deixa clara quão pesado é o fardo a se carregar, melancolicamente nos remete num looping de instrumentos em um ritmo de marcha. É a canção mais relevante ao vivo, devido à presença de um novo instrumento, a voz, que também faz a interação entre banda e público deixar claro que é tudo uma coisa só. Lembro que comentei com lamento o fato da voz só ter sido encaixada na música pós-gravação da mesma, não estando presente no disco. Mas aqui corrijo um erro, ela esta presente o tempo todo, em qualquer um que a faixa (impossível não acompanhar a melodia com a voz!).


  Constantina - Pequenas Embarcações by constantina

A melancolia do peso das bagagens interfere e muito nas Pequenas Embarcações, uma bela introdução com violão que é acompanhada por ruídos eletrônicos intercalados e uma bateria tranqüila. A calmaria toma conta de toda nau e ela segue sem rumo, como a brisa, recheada de ruídos pouco distintos a ouvidos não acostumados (mas bem expostos e explorados aqui). Deve ter sido a faixa mais complicada nas gravações, é a melodia mais bem feita de todo Haveno, aconselho muito a audição com fones para não perder um único barulho no infinito e se deixar levar pelo caminho aberto que nos mostra a terra firme...





Vemos então o Monte Roraima, que começa firme como uma pisada em terra, necessária para equilíbrio e seqüência no desbravamento do desconhecido. Parece uma compilação de tudo que foi feito durante toda a viagem (todos os instrumentos estão presentes), nenhum prevalece realmente, mas o sopro se faz presente durante a maior parte do tempo junto com a percussão. O baterista Daniel Nunes disse que Haveno nos “Remete tanto ao lugar da calmaria depois das tempestades quanto também da saída para novos rumos, novos caminhos, novas possibilidades.” Acho que é exatamente isso o que está faixa quer dizer encerrando o disco, a banda está longe de alcançar todas as possibilidades sonoras, existe ainda muito por vir, é necessário continuar avançando, andando, ultrapassando todos os obstáculos do caminho...


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