boas vindas ao caos.

por - 15:29



essa segunda semana de outubro de 2011 começou estranha. vou usar esse adjetivo, "estranha", pra não me precipitar em conclusões ainda inconclusivas e pra não dizer que a semana, a segunda semana de outubro de 2011, teve início o verdadeiro "despertar do homem moderno". tambores e trombetas, por favor.ao menos é o que se observa nessa movimentação intensamente caótica que busca, contraditoriamente, uma intrínseca organização social. todo o caos usado em busca de uma nova organização evolutiva: um caminho completamente coerente com a distância que esse complexo pensamento moderno percorreu até aqui. e infelizmente até aqui, em vão. tenho medo, de fato, de pensar assim. sinceridade. tenho um senso quase de auto-policiamento pra não soar tão pessimista. mas no fim de qualquer conclusão dessa minha mente limitada, a resposta é sempre a mesma: infelizmente, tudo em vão.essa semana algumas notícias me levaram a crer que essa nebulosa visão de nosso futuro está selada. tudo parece já determinado. por partes, começando com alguns exemplos:

- noticia #1:o escritor americano Douglas Rushkoff, numa matéria traduzida por um grande jornal corporativista brasileiro, afirma que os serviços do Correio estão seriamente ameaçados de extinção por causa de uma ferramenta tecnologica que todos nós conhecemos: o email. nos ultimos 4 anos, os serviços do Correio diminuiram em média 22%, e correm o risco de falirem se não pensarem numa solução rápida. se o Correio morrer, leva com ele 600 mil empregos, pelo menos, somente nos Estados Unidos. minha conclusão: já sabíamos disso, porque nada barra o caminho da tecnologia. ela é o atual alicerce do desenvolvimento humano, social e teórico, e não pode ser interferida. 600 mil pessoas lá ficarão sem empregos, não tenho dúvidas. e consequentemente aqui também. e em todos os lugares do planeta.

- noticia #2:essa semana, o numero de habitantes humanos desse planeta batem a casa de 7 bilhões. somos 7 bilhões de pessoas, e subindo. o primeiro bilhão quebrou a barreira há somente 150 anos atrás, se não me engano. desde a invenção da escrita, marco inicial da evolução humana, foram 5400 anos. após a descoberta da penicilina e do saneamento básico, há menos de 200 anos, pulamos de 1 bilhão e pouco pra 7 bilhões. a tecnologia acabando com os empregos, e a população aumentando como se não houvesse amanhã. literalmente.

- além dessas noticias, que foram especificamente marcantes na semana, vemos mais do mesmo: médicos envolvidos em escandalo de tráfico de orgãos, jovem quebra braço de garota por ser rejeitado em festa, advogado corregedor agride sexualmente garota dentro de metrô lotado, cara alcoolizado faz estrago dirigindo carro, ministro faz caixa dois em ONGs de fachada e nega tudo vêemente... ou seja, mais do mesmo. barbaridades que já estão inseridas no nosso dia-a-dia, à um certo contragosto, mas tá lá, todo dia lemos algo similar, e os comentários da Folha Online e Veja.com colocam a culpa de tudo o que acontece em maconheiros e comunistas. e na presidenta. e no Lula, claro.

agora pra ilustrar os fatos ocorridos dessa semana, vamos de estorinha: "senta que lá vem a estória", já dizia aquele saudoso programa da nossa infância.

havia uma cidade. nessa cidade existe um local, uma rua, chamada Wall Street. algumas pessoas que rodeiam esse local, que passam por ali casualmente, todo santo dia, pessoas simples, como nós, os passivos viventes, que tem como opção somente observar - e bem de longe (chamemos essas pessoas de "cordeiros"), de repente viram que outras pessoas, as que comandam esse trecho da cidade (as quais chamaremos de "raposas", por motivos óbvios), não são pessoas, como se propunham, que mantém a economia daquele local forte, equilibrada, estável, à frente comando do planeta: essas "raposas" estão ali somente visando o beneficio próprio. reconheçamos: algo comum da natureza das raposas. essas raposas, eles notaram, são as que estão encurralando todos esses outros, os "cordeiros", em direção à uma ribanceira bem ingreme e profunda, um precipício escuro e sem visualização de uma saída acessível. e nós, aqui do outro lado do planeta, sendo empurrados juntamente com essa ruma de cordeiros.

pois ao que parece, foi assim: um dia, alguns cordeiros por ali tiveram um "estalo". se deram ao trabalho, por míseros 5 minutos, de parar e pensar um pouco. olharam em sua volta e começaram a enxergar o reboliço. nada daquilo por qual eles trabalhavam, pagavam e se esforçavam era seu. nada naquele país era deles. forçaram a vista um pouco mais, além-mar, e viram o estrago todo causado pelas raposas para outros povos. e o estrago que ainda está por vir. e de repente resolveram dizer "não!, não está certo!, e não queremos isso!". sentiram o drama de terem suas casas roubadas e seus trabalhos minguando, pouco a pouco. e no momento que decidiram cobrar explicações de quem estava lá em cima, das raposas, o que receberam em troca foi somente a conta sobre a mesa, e as portas do buteco fechando, apressando as ovelhas à pagarem suas contas logo e vazarem dali. trocando em miúdos:




isso, meus amigos, era o caminho óbvio pra onde um sistema economico chamado CAPITALISMO GLOBALIZADO nos levaria, à todos nós. sem falsas bandeiras tremulando, sem vermelhismos, sem excessões. somente levando em conta uma análise simples, uma equação básica, o âmago desse sistema: é necessário vencer, sempre. e pra que alguém vença, outro alguém tem que perder. estava na cara! mas pra todos os efeitos, "em time que está ganhando não se mexe". não é assim o ditado? pois então...agora é aqui que entra, num esforço até antes incomum, aquela velha e batida estória do "despertar de uma nova era": ao que parece, o mundo está à um passo do colapso. o que nosso mundo tem vivenciado nesse periodo da historia é algo como um topo do limite permitido, quase transbordando. algo como seria a França às vésperas da revolução francesa, com o diferencial que, de lá pra cá, mais ou menos 300 anos, os métodos e pensamentos já progrediram alguns estágios acima. em razão desse patamar evolutivo, nota-se uma óbvia procura pela mudança, uma busca por um próximo level, mas sem apelar para a violência, já que essa faceta do bicho homem estaria (ou ao menos deveria estar) descartada, adormecida, domada pela racionalidade (tsk...). aham, não é bem assim, eu sei.vai ser dificil. nossos dias têm nas mãos um verdadeiro desafio: encontrar, por meios pacíficos, racionais e equitativos, uma mudança real, de sistema, de vida. uma nova perspectiva. os métodos mais aparentes estão comprovadamente inertes. o capitalismo chegou à um ponto que é nada mais do que "feudalismo consentido". o socialismo esbarrou nos próprios pés com planejamentos em que governantes não resolvem problemas minoritários e população se desaponta com a perda da identidade individual (não confundir com individualismo consumista). a tão sonhada auto-gestão universal está, infelizmente, há anos-luz da realidade: a falta de uma única particula da identidade humana - o bom-senso - nunca permitirá que cheguemos à tal nível de evolução.

não nego que a intenção das atuais movimentações sociais ocorridas nas ultimas semanas ao redor do mundo seja boa. é boa, claro. mostra que há algo no ar, essa inquietação, esse desejo de mudança, esse "motim global" modernizado pelo advento da internet, a ferramenta demonstrada mais eficaz em todos os tempos para a informação e organização. tudo isso é bom sim. mas há uma pergunta pairando no ar, que tem sido feita insistentemente por alguns (veja bem: pessoas que não desejam a falha do ato, ao contrário, torcem pra que tudo dê certo, afinal estamos todos no mesmo barco), uma pergunta decisiva e fundamental: se tudo der certo, se os governantes se tornarem obsoletos na prática (pois na teoria já são!), se o capitalismo vir abaixo... qual sistema de convivência humana será adotado??... mais uma vez me aposso de sábias palavras de cunho popular pra concluir: de boas intenções o "inferno" (leia-se nosso mundo) tá abarrotado...

a única coisa que eu vejo, todo dia, desde quando levanto da minha cama até deitar-me nela ao anoitecer, é que existe uma incrível harmonia entre essa caminhada caótica do homem em busca de si próprio, e o caos que reina cada fagulha do universo que conhecemos. podemos ter certeza só disso: se o universo é feito de caos, não adianta procurar a perfeição. o caos reina. o caos é a perfeição.

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1 comentários

  1. >É velho...Quando eu começo a pensar em tudo que deveria ser feito para melhorar algo, vejo o tamanho do ciclo vicioso em que participamos e não damos conta. Ao darmos conta desse ciclo, desistimos de fazer algo, pois desanimamos diante de sua grandeza. É o caos reinando.E os cordeiros apenas pensam: "É. Fazer o que?"Agora, realmente, para derrubar uma ideia é necessário propor uma outra coisa. Derrubar por derrubar, isso não existe. E o motivo da guerra continua sendo a paz.Putz, que mundo!

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