Jeff Tweedy e Wilco - nunca me decepcionam

por - 15:18



Em sonhei de novo em te matar na noite passada e isso me pareceu certo”. Beleza, Jeff. Pesado, muito pesado. Se essa letra estivesse inserida em um instrumental hardcore ou em uma chamada murder ballad do Everly Brothers ela pareceria natural. Mas não. É no instrumental calmo e melodioso de ‘Via Chicago’ em que ela aparece. Essa é uma das características mais marcantes nas composições de Jeff Tweedy. Elas parecem inadequadas, fortes demais. ‘Via Chicago’ é o tipo de canção que abre espaço na multidão metendo os peitos.

Com certeza quando ele escreveu isso a intenção não era agradar. Nem você, nem eu, nem locutores de rádio, nem os grandões do show business. A música, nesse caso, é a catarse do mestre Jeff. Versos como esse saem de mentes que buscam a redenção para os tormentos via notas musicais. De vez em quando você tem dores de cabeça, não é? Pense em como seria ter isso todos os dias. Jeff sofre de enxaqueca crônica. No documentário ‘I Was Trying to Break Your Heart’, após uma discussão com o multi-instrumentista Jay Bennet, ele vomita no banheiro do estúdio. Ele conta que quando adolescente chegava a vomitar oito vezes por noite por culpa da enxaqueca e tinha que ir pro hospital, desidratado.






Na biografia da banda ‘Wilco – Learning How to Die’ o autor, Greg Kot, jornalista de música muito conhecido nos EUA, remexe nas raízes da formação musical de Jeff Tweedy. Conta como a adolescência foi marcada pela música e que o leque de bandas que Jeff ouvia ia desde canções montanhesas até Bad Brains e Black Flag. Foi com essa vibe, de misturar música folk e country com hardcore, que surgiu o Uncle Tupello.

A banda foi crescendo no underground do estado de Illinois, cuja capital Chicago é considerada um grande berço de artistas de rock, incluindo Smashing Pumpkins, Smoking Popes, Alkaline Trio e todas as bandas dos irmãos Kinsella. O alcance do Uncle Tupello foi tão grande que fez com que uma versão de uma música da Carter Family que eles gravaram desse o nome ao principal veículo de música independente de Illinois, o No Depression e teve um disco produzido pelo guitarrista do R.EM. Peter Buck. Jeff Tweedy começou tocando baixo e depois assumiu o violão, quando conseguiu que as canções que compunha começassem a ser gravadas. Jay Farrar, o líder da banda, foi se irritando com o espaço que ia começando a ser dividido com o lado mais compositor de Jeff e decidiu dar fim a banda.





Jay montou o Son Volt, uma banda muito boa, e continuou a misturar country com guitarras mais pesadas. O primeiro disco do Son Volt foi aclamado pela crítica e fez com que Jeff quisesse que o primeiro disco de sua nova banda, Wilco, também tivesse sucesso. Não foi o que aconteceu. O belo ‘A.M.’ não foi muito compreendido na época e Jeff entrou em crise mas segurou a onda. Depois veio ‘Being There’, discaço, belas letras, instrumental bonito, mas ainda não foi um sucesso comercial.

A história mudou com ‘Summerteeth’. Foi nesse disco que ‘Via Chicago’ deu as caras. Virou sucesso nas rádios independentes americanas. Jeff começou a criar canções com uma roupagem altamente pop, no bom sentido. Pop na vibe do Brian Wilson. Foram lá que começaram as colagens sonoras, as experimentações. O que esperar de um cantor com uma voz folk que tem como um de seus álbum favoritos o ‘Flowers of Romance’ do PIL (banda que John Lydon montou depois que saiu do Sex Pistols)?







Ainda descansando dos shows do ‘Summerteeth’ o Wilco começou a gravar o que viria a ser o álbum mais aclamado da banda, por tudo que ele representou. Querendo hits altamente viáveis comercialmente como os de ‘Summerteeht’. O novo disco, que foi nomeado ‘Yankee, Hotel, Foxtrot’, as letras YHF em alfabeto de rádio, era ainda pop, só que era ainda mais experimental. Barulhos, sonoridades diferentes, uma banda a cada dia mais entrosada, Glen Kotche tocando bateria daquele jeito que só ele faz. E a banda foi dispensada da gravadora. Os fãs tomaram as dores do Wilco e o apoio que eles receberam nos meses posteriores só ficou maior do que já era. A execução ao vivo das músicas do ‘YHF’ era apoteótica.

Reconquistando seu espaço nas grandes gravadoras Wilco seguiu gravando. Vieram ‘A Ghost is Born’, ‘Sky Blue Sky’ – grande volta as origens, parecido com o ‘Being There’, ‘Wilco (The Album)’ e ‘The Whole Love’. É pegando desse último disco que eu vou falar porque a banda e seu intérprete não me decepcionam.

A verdade é que Jeff Tweedy não é nenhum bonzinho. Isso já é do caralho. O cara se expõe ali, frágil, com o violão ou a guitarra em punhos, tocando a sua música, mas sabe ser um líder. Quando achou que não tava mais rolando demitiu Jay Bennet (que infelizmente faleceu em 2009), demitiu também o antigo baterista e contratou Glen Kotche. Geralmente eu fico com um pé atrás com caras assim. Mas o lance é que ele sabe fazer sua parte enquanto artista solo sabe o que eu to falando.





Quem assistiu ‘Sunken Treasure – Live in the Pacific Northwest’ sabe o que eu tô falando. O cara decidiu sair tocando solo. E é impressionante a força que o trabalho dele tem. A voz dele não é de nenhum Johnny Cash. É pequena, sofrida, tem pequenos problemas de afinação. Tem um momento do show em que ele dá um super escracho na galera que fica falando alto enquanto ele toca. Fica puto com quem sai pra show de folk achando que vai pra balada. Meu herói! Ele fala “ eu aqui, colocando meu coração pra fora, cantando e vocês aí sem prestar atenção. Acho que vocês não tem apreço pelo dinheiro que gastaram para essa apresentação.” Se ele fosse do Fugazi tinha até chamado os caras pra devolver o dinheiro do ingresso.





Esperando o novo baixar na internet eu ouvi ‘I might’ que tem direito a baixo com distorção e o caralho a quatro. Destaque para aquele som de moog que é amado por quem curte country rock e folk. Sei que já com essa faixa eles não me decepcionaram. E agora, neste momento, enquanto eu ouço o disco eu mantenho um sorriso no rosto. Fazer o que? Essa banda nunca me decepciona!

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3 comentários

  1. >Being There não é bem um álbum do Wilco. A ideia pra esse disco começou com a filha do poeta americano Woody Guthrie, que vendo que seu pai tinha mais de 30 músicas compostas escondidas no porão mesmo após sua morte, decidiu fazer um tributo. Para isso, chamou o cantor britânico Billy Bragg pra compor um disco para as letras do Woody. Billy então, achando que precisava de alguma influência americana pra deixar a sonoridade do disco completa, convidou o Wilco. Por isso que no disco, os vocais são divididos (quem o escuta muito, como eu, percebe que o Jeff não canta em todas as músicas) e boa parte das músicas do disco são cantadas pelo Bragg. A vida do Woody, como essa história da filha dele com Billy Bragg começou e as gravações do disco com o Wilco são explicadas no doc Man In The Sand. Vale.No mais, perfeita a resenha. Sou mega fã do Wilco, e acho que eles nunca vão me decepcionar (nem mesmo com a morgadinha Sunloathe) =PJéssica Figueiredo

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  2. >Nem é viu. Esse que você tá falando aí em cima é o Mermaid Avenue. O Being There é um dos melhores discos do Wilco, cala boca Jéssica.

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  3. Na contra-mão das coisas que se destacam ,o que resta do 'Summerteeth' depois de "Can't Stand it" e "Via Chicago"? Nunca será um bom CD. Minto, Mermaid Avenue de 1998 e 2000 [Billy Braga] possuem músicas de gosto duvidoso.No mais Jeff Tweedy is God! e dormi com ele durante muito tempo.

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