A serenada solidão de Junio Barreto

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Se no imaginário popular o homem do interior nordestino é bruto, Junio Barreto é a antítese desse pensamento. É carinho sem descrição. O sosseguinho pernambucano, natural de Caruaru, possui voz forte e letras marcantes onde imperam, sobretudo, o amor e a fé. E se em Setembro, seu novo disco, o público encontrará menos as letras com palavras em diminutivo, continua forte a presença do mar e da mulher amada, mesmo que aqui a lembrança seja mais dolorosa que antes. E não são só nas composições que estão as mudanças. Junio agora aventura-se também em melodias um pouco mais agitadas, bailando em bases que lembram a surf music e o rock iê iê iê – que volta cada vez mais ao hype –, com a ajuda da bateria de Pupillo, o violão de Seu Jorge, os teclados de Chiquinho e Vitor Araújo, as guitarras de Gustavo Ruiz e Junior Boca, entre tantos outros colaboradores.

Apesar do estranhamento inicial que pode causar, a aventura à que Junio se presta é bem vinda, e caminha harmonicamente com o espírito de Setembro. Cinematográfico e literário, é possível imaginar o homem abandonado pela mulher amada, dançando nas noites em tantos outros braços, enquanto aguarda a alvorada de si mesmo, ou o fim de sua “mala-suerte”, como diria o cearense e não menos romântico Xico Sá.




SETEMBRO [Dir: Pedro Severien / Rodrigo Campos] from MULISHA.EC on Vimeo.




O raio-x dos assombros de Junio começa em Serenada Solidão, sambinha de quem ri do próprio infortúnio. A metalinguagem é explícita, e o caruaruense se atira de vez “nos impérios que o mar rege”, e inicia sua jornada em busca da cura dos feitiços amorosos. Já na faixa-título, a melancolia dá lugar à feliz lembrança, com guitarras agitadas e imagens psicodélicas da mulher amada, e seu corpo que “luava ouro”.A triste Jardim Imperial é talvez a faixa que mais lembre os antigos trabalhos do poeta, que acompanhado por uma leve melodia relembra com sua voz profunda a “suprema provação” pela qual passou graças à sua “formosa dona dos estragos”. Junio roga, “e se caíres chuva, banha eu”, como quem pede para ter a alma lavada. Luxuosa canção dor-de-cotovelo, daquelas que só se curam depois de muitas noites em claro, Rios de passar traz o coreto das belíssimas vozes de Céu, Marina de La Riva e Luiza Maita, além dos trombones de Misael França e Zilmar Medeiros.  Aqui o narrador, já conformado com a partida, canta alguns dos versos mais bonitos de todo o disco.

No samba-valsinha Noturna, o piano e o Casiotone de Vitor Araújo dão um tom quase lúdico ao passeio que Junio faz pelo corpo da mulher amada, louvado por ele, como um romântico voyeur que a observa dormir, enquanto imagina milagres ao lembrar a junção de seus corpos.  Fineza continua o clima de samba, e com o conto do passeio do sol e seu brilho, a poesia ganha força total.


 


Depois do sambinha leve de Gafieira da maré, que saúda a “rosa marinha” que enfeitiça,  é a vez da sedutora Passione. Com um delicioso clima brega de casa da luz vermelha, a parceria de Junio com Jorge Du Peixe não só dá vontade de dançar a dois, como traz um refrão que pede para ser cantado: “Passione, tenho por tu/Tanto guardadinho amor, agressive não”. Verdadeira canção do amor safado, faz parte da trilha sonora do filme Febre do Rato, de Cláudio Assis, e por pouco não fica fora do disco de Junio.

A instrumental Vamos abraçar o sol começa a anunciar o fim da jornada, que chega com o Alento da lagoinha, trazendo enfim a alvorada que Junio tanto aguardava no início do álbum. Para quem já viu uma apresentação do caruaruense, é possível imaginá-lo cantar abrindo os braços, como quem abraça o mundo. E assim, com o minimalismo dos arranjos de Pupillo e Vitor Araújo, Junio encerra seu álbum, reencontrando enfim o seu sosseguinho.



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