E nunca mais atirar Lírios aos Anjos

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Nenê Altro no auto-exílio, na vida simples que sempre quis, de volta a produtividade na cena independente e longe do caos da Rua Augusta e das noites sem fim



Fábio Luiz Altro deveria ter um temperamento forte, daquelas sicilianas que gritam no metrô por qualquer coisa, pela sua descendência italiana e ser sério pela parte oriental que carrega em seu sangue. Mas parece que a coisa não é tão seguida a risca assim, ao menos não pra ele. Um dos pioneiros do movimento Straight Edge no Brasil, Nenê Altro, como é conhecido, já viveu de tudo: militou em diversos grupos anarquistas na década de 90, teve projetos musicais que passaram do punk ao powerviolence, como o Sick Terror, passou por uma triste fase junkie, quando morou na Cracolândia, lançou dois livros, mais de 50 discos e... puta, muito mais coisas! Resumindo: o cara despirocou mesmo!

Nos meados dos anos 80, ainda na adolescência, Nenê passou a ter contato com o movimento punk: “acho que foi com uns 14 anos, deve ter sido lá pra 84, 85... não, não 86”, lembra. Na sua época de militância anarquista, principalmente pela Juventude Libertária, mais ou menos nesse período, também panfletou na porta do Teatro Municipal, quando não estava de plantão no seu antigo trampo de balconista de farmácia. De lá pra cá, foram várias bandas, inúmeros projetos, incluindo zines, folhetins, coletâneas, selo de disco, produtora de show e festivais independentes. Depois de ter trago o Straight Edge para o Brasil, acabou o deixando ainda na década de 90: “Meu rompimento com o Straight Edge foi uma briga pessoal que aconteceu ali no meio. E até então eu não tinha nada contra. Tanto que quando eu saí, continuei dentro do movimento até 2004”, disse Nenê.





No seu período de envolvimento com o punk, além de trazer a ideia de não beber dentro do movimento, foi importante para o nascimento do hardcore na década de 90. “No final dos anos 80 teve uma coisa muito bizarra em São Paulo. Quando começamos a pirar no Black Flag, Germs, Void, Ripcord, Larm, todas essas coisas que passamos a ouvir pra caralho, os punks começaram a chamar a gente de metaleiro. E pra vencer esse obstáculo foi foda”, comentou Nenê Altro.

Após deixar de lado a ideia de não fumar, não beber, não usar droga e não comer nada de origem animal, Nenê Altro caiu num abismo, daqueles bem profundos, envolvendo-se com drogas: “A droga é a pior merda que existe. Porque além de você ajudar o cartel, você se fode”, comenta Nenê. Além da cocaína, tornou-se alcóolatra, viveu assim por 5 anos e deu uma baita diminuída na coisa, tanto que pediu uma soda limonada enquanto devorava umas asinhas de frango: “diminuir o álcool foi mais difícil do que cortar a droga química. Porque o álcool te dá aquela sensação de posso beber mais um pouco, mas não é assim, ele vem e te pega de uma vez”, complementa.






Nesta época, viveu muito ali pelo centro de São Paulo, escreveu “Os Funerais do Coelho Branco” e gritou histericamente contra os demônios que lhe rondavam em 2005 no disco Lírios aos Anjos, do Dance of Days: “o Funerais representa o modo que eu vivia na época, tanto que ele é meio sem pé nem cabeça, porque eu vivia uma fase sem pé nem cabeça. É um livro sem começo nem fim, igual eram meus dias neste período”, reflete. Ali pro lado da Timbiras, Guainazes, Altro retratou pensamentos, momentos e lembranças não tão bem recordadas de uma mente que vivia sob efeito de álcool, em ‘poemas’, que soam mais como uma boa cagada, do que algo que deixaria Oswald de Andrade feliz, como neste trecho: “A gente cresce com a idéia de que tem que acreditar em alguma coisa, mas não imagina que a maior certeza de nossas vidas é que essa coisa, qualquer que seja ela, vai ser arrancada da gente sem piedade. E é assim que a gente se torna adulto. Perdendo os sonhos”.

Com seu projeto musical que deu mais certo, o Dance of Days, lançou até agora 11 discos, cada um abordando um assunto diferente, uma fase diferente, entretanto, com um mesmo propósito, como falou Nenê: “O Six foi algo bem meu, o História, a gente brinca que é o Pela Paz em Todo Mundo do emo, porque é um disco politicão, o Coração de Tróia, é algo mais nervoso que o A História Não Tem Fim, o Valsa é um disco de esperança, de vitória, o Lírios, algo mais deprê, o Insônia, um disco perturbado, eu não dormia nessa época, o Dança das Estações um álbum que surgiu das sobras maravilhosas das gravações do Insônia e o Disco Preto um grito que tive que dar sobre a fase que vivi, um disco de libertação”.

 


Hoje, Nenê Altro tem 39 anos, mora em São Vicente, do lado da praia. Coisa de 5 minutos, numa kitnet. Acha que precisa mudar, que necessita de um cômodo a mais para fazer de escritório e tocar mais projetos adiante, fazer muito mais coisas virar: “a gente (ele e a esposa Nicolle) tá querendo mudar, pegar um ap com 1 dormitório, sei lá, algo pra fazer um escritório, porque tá foda (risos)”. Não bebe como antes, parou totalmente de usar cocaína, se afastou de uma caralhada de gente do passado mas mantém o vício constante de sempre começar algum projeto novo para tentar movimentar uma cena que vive em xeque.Fotos: acervo pessoal, enviadas pelo Nenê Altro. As duas do show possuem o crédito na foto.

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