Melancholia: Dança da Morte

por - 12:08


Do começo ao fim, Melancolia, de Lars Von Trier, reflete sobre a morte. Em todos os sentidos possíveis.

Com um prólogo que muito se assemelha à cena inicial de Anticristo (no qual desfilam os signos que farão parte da trama, de forma lírica, em câmera lenta), o começo de Melancolia chega a ser surrealista: chuva de pássaros mortos, planos simétricos (que lembram a estética esquizofrênica de O Iluminado, de Kubricky), uma noiva arrastando com dificuldade pesados fios de lã, movimentos lentos, quase estáticos para imagens absurdas. Paisagens comuns a qualquer delírio de Luis Buñuel. O planeta terra se choca com outro. Nada mais sensacional e absurdo que o apocalipse.

Se em Anticristo o prólogo desenhava uma composição realista e esclarecedora para quem suportava assistir ao filme até o fim com seu conteúdo violento; em Melancolia, por sua vez, Lars Von Trier trabalha os signos de forma mais inconsciente (para o público), expõe os símbolos da trama de maneira distorcida, alterada, disfarçada, como se fossem flashs de memória de personagens que se defrontam com o momento da morte. A música "Tristão e Isolda" de Wagner, totalmente adequada à cena, dá lugar, aos poucos, a um som grave e crescente. O fim (do mundo, da vida) está próximo. Para quem? Para Lars Von Trier? Para suas personagens? Ou para o público?



Justine, além de ser o nome do primeiro capítulo do filme, é também o nome da personagem central de Melancolia, interpretada por Kirsten Dunst. A estética do filme muda radicalmente. Relembramos o Lars Von Trier de Os Idiotas ou O Grande Chefe. Lars expõe as personagens propositadamente de forma amadorística, como se fosse um filme caseiro. Nos tornamos íntimos dessas personagens, seja pelos planos fechados ou pelo jeito com que eles se aproximam e expõem as suas neuroses, seus traumas, suas fraquezas.

Justine está se casando com Michael (Alexander Skarsgard), um rapaz tímido e desajeitado. Ela é controlada pela irmã Clair (Charlotte Gainsbourg) e pelo cunhado John (Kiefer Sutherland), que se esforçam para adequar Justine às normas de uma sociedade burguesa. Durante a cerimônia, Justine caminha para uma espécie de suicídio social. Seu humor muda na medida em que outras personagens se revelam. Seu pai (John Hurt) é um ser patético que rouba talheres da festa e galanteia duas mulheres que se chamam Beth. Sua mãe (Charlotte Rampling) é uma mulher desiludida e agnóstica, que se porta na festa como se estivesse em um funeral. Seu cunhado John, apesar de milionário, vive a jogar na cara de Justine cada centavo gasto na festa. Seu chefe (Stellan Skarsgard) lança uma campanha publicitaria em plena festa.

O clima de mal-estar cresce gradualmente e lembramos de outro filme dinamarquês pertencente ao manifesto Dogma 95, Festa de família, de Thomas Vintemberg.

A vida social de Justine passa a perder o sentido. O casamento, bem como a festa vão por água abaixo. Justine proclama a sua própria morte, no momento em que a vida social está acima da própria vida. Se o temor da morte está na perda total dessa vida social, Justine é a defunta primogênita do filme. Abre mão do noivo, da festa, do chefe e seu corpo está exausto, cada vez mais cansado.

Por outro lado, Justine regressa para um caminho instintivo e primitivo de sua condição humana. Essa regressão fica clara na cena em que ela se isola no campo e urina enquanto observa as mudanças astronômicas causadas pelo planeta "Melancolia", que se aproxima da Terra. A música de Wagner retorna formando uma combinação dramática inusitada.

Outra cena que simboliza o que poderíamos chamar de "primeira morte" da personagem, é a sequência em que Justine tem um pequeno surto e troca os livros de arte abertos da estante de seu cunhado. Obras concretas e modernas, dão lugar a quadros clássicos obscuros com cenas de suicídio, genocídio, guerras, purgatórios. Justine não acredita mais na vida. É atingida por (ou pela) "Melancolia".

Claire, irmã de Justine, é também o nome do segundo e derradeiro capítulo do filme. Claire está no auge de sua vida social, é casada com um homem rico, tem um filho (Cameron Spurr) e mora em uma enorme mansão. É assombrada pelo desajuste social de Claire e pela aproximação do planeta "Melancolia". Na medida em que o medo de Clair cresce, Justine se recupera, mas mantém a sua posição de total desesperança.

O Deus de Claire é John, seu marido rico. É ele quem dita as regras de uma bem sucedida vida social. John passa o segundo capítulo acalmando Clair sobre os perigos da aproximação de Melancolia. Mas a morte de Claire se inicia na medida em que põe em cheque a sua fé cega pelo otimismo do marido diante das trágicas previsões científicas. Clair inicia a sua dança da morte, compra veneno para ser usado com urgência, caso Melancolia destrua a Terra. Seu medo cresce com o decorrer da fita. Não sabemos qual tipo de morte mais assusta Clair, se a social ou a física.

A postura de Justine para a possível catástrofe é totalmente oposta à reação de Clair, por uma questão de ordem de fatores. Morrendo socialmente no primeiro capítulo do filme, Justine não tem mais o que perder, apenas aceita a sua condição diante da natureza. O que poderia ser uma ligação cósmica, dá lugar ao ceticismo. Para Justine, a esperança já está morta. Em uma conversa com Clair sobre o fim do planeta, Justine exclama: "a Terra é má". Já Clair, mesmo diante da morte, é incapaz de se desvencilhar dos seus apegos.

Lars Von Trier cria uma inversão dramática. Enquanto Justine expõe as suas limitações e fraquezas no início do filme, no decorrer da trama, ela surge como a personagem mais preparada para morrer, porque já experimentou a morte em outra ocasião. Embora mantenha uma postura de descrença na vida, Justine estabelece alguma ligação mística com a natureza, seu ceticismo não é total, vide a cena em que se despe na beira do rio sob a luz do estranho planeta Melancolia. Em outra cena, Justine ao revelar o fim do mundo a sua irmã, diz saber sobre o futuro por algum motivo sobrenatural. O diretor cria um paradoxo, Justine percorre um caminho místico para alcançar o vazio existencial e por conta disso, compreende melhor essa natureza. O vazio agora é a sua crença.

A compreensão de Justine parece estar acima da própria natureza que a rodeia. Em duas cenas, Justine tenta atravessar a ponte de madeira montada no cavalo que se nega em seguir em frente. O que está do outro lado da ponte? A morte? O vazio? A revelação definitiva? Em outro momento da fita, os cavalos que antes estavam alvoroçados pela aproximação da catástrofe parecem compreender depois, juntos a Justine, os enigmas da morte e se acalmam. Ao contrário das outras personagens que se desesperam ao se aproximarem do fim.

Calcado no roteiro detalhado e na performance dos atores, Lars Von Trier mostra como cada um reage diante da morte. Clair e John dão adeus ao mundo racional e morrem feito bichos assustados, o filho do casal morre sob o manto da inocência e Justine morre como quem tudo compreende, com a dignidade de quem já morreu mil vezes.

O apocalipse reinventado por Lars Von Trier faz com que todos nós morramos juntos, abraçados à nossa solidão. Sem deuses ou demônios. Apenas o vazio.

texto originalmente publicado no blog oolhoderramado.wordpress.com

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1 comentários

  1. >justine é retratação da melancolia... o melancólico tem o saber do Real, do não sentido... é, dos sujeitos, talvez o mais sábio...

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