O Céu sobre os ombros de todos nós

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Quero mais esse instante que é maior que a vida. Se te pergunto me respondes? Quem sou eu? não sei. Quem sou eu? sou. Quem sou eu? amor. Por sobre os ombros, o peso dos desejos. Por sobre os ombros, a leveza do céu”. O pequeno poema, presente no site oficial do filme O céu sobre os ombros, do estreante Sérgio Oliveira, define bem a profundidade do que se encontrará pela frente.

O longa conta a história de três personagens distintos, que nunca se encontram, ao mesmo tempo em que se cruzam na rota do peso de seus desejos, e da busca pelo amor. Everlyn Barbin é uma transexual que fez mestrado sobre uma hermafrodita do século XIX. Distante da família, que não faz ideia da sua atual identidade, vive entre a prostituição e os cursos sobre sexualidade, nos quais é professora. Solitária e sonhadora, sacia sua sede afetiva com os clientes, enquanto alimenta uma história de amor virtual. Se Everlyn acredita que putas e santas são a mesma coisa, ela encaixa-se perfeitamente em sua ideologia.

Com fortes tendências suicidas, Lwei é um africano que escreve vários livros ao mesmo tempo, sem chegar ao final de nenhum. Como nunca trabalhou, é sustentado pela mãe e pela mulher, com quem atravessa uma crise, após a perda do filho que ela gestou durante sete meses. Extremamente frágil, apesar da pose de poeta turrão, Lwei precisa encontrar forças para dar apoio à esposa, além de buscar a felicidade e o esquecimento da pena que sente pelo filho de seu primeiro casamento, que é deficiente. Uma das cenas mais belas do filme é apresentada logo no início, com Lwei embaixo do chuveiro, e não se pode saber se à água estão misturadas suas lágrimas.

Quase uma caricatura – e todos somos, em algum ponto de nossas vidas – Murari é um devoto da religião Hare Krishna e do Atlético Mineiro. Líder da Galoucura (torcida organizada do Galo), já vivenciou cerca de cinco anos de celibato em um mosteiro. Atendente de telemarketing, cozinheiro de um restaurante vegetariano, anda na corda bamba, e pende entre a busca pelo amor e o reconhecimento profissional, e a proposta de desligamento do ego e do material – pontos fortes de sua filosofia religiosa.
 


A solidão interior é um dos principais elos entre essas ricas figuras da sociedade, que de tão reais e curiosas poderiam certamente ser fruto da imaginação do roteirista. Graças a tanta riqueza, e ao ritmo impresso por Sérgio e pela montagem de Ricardo Pretti – além da trilha sonora, que pontua belamente as cenas –, ficção e documentário andam de mãos dadas e, na trama psicologicamente densa, só são decifradas pelo olhar pessoal do espectador.

Grande vencedor do Festival de Brasília de 2010, e depois de ter passado por vários festivais nacionais e internacionais, entre os quais, este ano, o Festival de Rotterdam, a Mostra Tiradentes e a Mostra Internacional de São Paulo, O céu sobre os ombros entra em cartaz nos cinemas brasileiros a partir de 18 de novembro, com distribuição da Vitrine Filmes. Extremamente inteligente e humano, é uma obra que merece atenção. Seja pelas cenas silenciosas e simples que tudo dizem, ou pelas falas de Everlyn, Murari e Lwei, que dão cada vez mais vontade de conhecê-los, o longa tira o espectador de sua zona de conforto, apresentando-lhe um novo olhar para a própria vida.



Ps.: Outro ponto forte do projeto (como pode ser observado ao clicar nos links que estão nessa postagem) é a interatividade a que ele se propõe, com blogs que são alimentados pelos personagens do documentário.

 

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