"Te pego na saída!"

por - 18:18




Eu sou um banana. Não me envergonho em constatar isto. Aliás, me envergonho, mas é verdade. Nunca sapequei a porrada em ninguém e nem nunca procurei fazer isso pra provar minha masculinidade, pra conquistar a fêmea do bando ou pra tomar os territórios de Vladivostok no jogo de War. Talvez por isso eu seja como sou. Se tivesse zerado alguém na pancada, talvez fosse um cara mais confiante, bonito, com dinheiro ou com 12 anos na penitenciária a cumprir.

Desde molequinho, eu sempre fui o mais alto da turma e isso me dava moral com a molecada. Só mesmo o Bin Laden iria brigar com o World Trade Center, e isso só aconteceu anos depois de minha infância, mas enfim. Mas conforme fui crescendo, fui encontrando gente do meu tamanho e a chance de partir pra ignorância ia aumentando, até que finalmente chegou. Tinha um moleque muito gordo e alto que estudava comigo e que queria me bater por motivos que até hoje eu desconheço. Quando a luta estava praticamente marcada, não fiz nada. Fiquei parado e com medo das possibilidades que uma briga podia proporcionar: desde a glória em ser aceito pelo grupo por ser uma máquina de destruição em massa até o desespero por ser preso pelo crime ambiental de matar um animal da montanha. E no fim das contas, eu não briguei. O garoto trocou a luta do século pela fila do lanche. Sábia decisão. Espero que este lanche não tenha entupido as artérias dele atualmente.

Depois disso, só consigo me lembrar das vezes em que tive que intimidar para que todos pensassem que eu fosse o demônio paulistinha. Na época funcionava bem, até porque os tempos eram outros. Bastava citar dois bairros da periferia, dois órgãos que compunham o sistema digestório, o nome de um objeto pontiagudo qualquer e terminar falando “eu sou cruel”. Desta forma, as pessoas imaginavam que você era o assassino da luz vermelha e te deixavam em paz.  Bons tempos, eu diria. Quando isso não funcionava, bastava apelar para as ofensas de baixíssimo nível. Algumas vezes isso deixava a galera ainda mais puta da vida, mas sempre conseguia fazer alguém dar risada, o que amenizava a situação. Nessas horas eu agradecia aos céus por ser negro. E por assistir aos shows do Chris Rock.

Hoje em dia eu não dou mais pra esse negócio de brigar e intimidar ninguém. Isso é coisa de pit boy que toma açaí e usa seu amado jiu jitsu no primeiro mané que pisar no seu ki chute branco da paz. Os tempos são outros e não precisamos mais dar com o tacape na cabeça de uma mulher pra provar a ela que somos másculos o suficiente pra convencê-la de que somos bons reprodutores. Até porque isso nem faz meu estilo. Eu sou um cara de boa que gosta de comer bons queijos, beber bons vinhos e fazer amor com lindas mulheres. E aí, consegui te convencer? Eu sei. Não.


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