'O que eu leio e o que eu faço - Roberto Kramer'

por - 15:15



Quem já o viu no palco, com seu estilo literalmente shoegazer - olhando para baixo o tempo todo, cantando suave e com muita atenção no que faz em sua guitarra – ou o encontrou em uma festa, calmamente conversando, com uma cerveja na mão, não sabe a que velocidade viaja o pensamento de Roberto Kramer, guitarrista e vocalista da excelente banda pernambucana Team Radio.

O cara tem ideias muito sólidas, e até polêmicas, sobre determinados assuntos, principalmente os que envolvem fazer música, e faz um trabalho carregado de referências, sejam elas as mais diversas. Posso dizer que essa foi uma das entrevistas que mais me surpreendeu, no bom sentido, lógico! Confira agora a conversa que tive com Roberto, via email, sobre sua estada nos EUA, suas influências na composição, trabalho, estudo e, é claro, livros. Vamo lá:

Conversando com a Marina (tecladista e vocalista da Team Radio) ela me contou que o processo criativo de vocês geralmente nasce das jam sessions que rolam nos ensaios, como funciona isso?


Bem, nas músicas mais novas isso é verdade. Elas estão mais "soltas", agora todos compõem, não sou somente eu quem vem com  as idéias formadas, não se tem mais certeza de nada! Dessa forma, "jamming", podemos errar o bastante até criar arranjos interessantes. Por enquanto, nas últimas duas ou três músicas, está sendo assim, não sei até quando iremos insistir com esse modo de criação, mas qualquer tipo de experiência é válida para o grupo.

Vocês primeiro pensam na melodia ou na letra?


No processo de composição da Team.Radio, primeiramente sempre aparecem as harmonias ou melodias instrumentais. Eu particularmente não me recordo de uma letra ter vindo primeiro, até porque, pra mim, faz muito mais sentido escrever uma letra depois da melodia do vocal criada. Acho forçado encaixar uma letra anteriormente escrita, ela estará sujeita à mudanças, pois obviamente nem tudo irá casar com a melodia, sendo assim, já não fará mais o mesmo sentido a letra escrita.







Você estuda produção musical, né? Você acha que o que aprende na sua graduação te ajuda com as composições e arranjos?


Quase isso! É produção fonográfica, na Faculdade Barros Melo - AESO. É um curso de tecnólogo, de nível superior, onde aprendo o que vem por trás da criação artística, ou seja, as partes técnicas. Exemplo: Ética e Legislação dos direitos autorais, técnicas de gravação, mixagem, masterização, eletrônica pra áudio, música eletrônica, digital workstation, etc. O curso definitivamente não me adicionou, em termos artísticos, nada... nunca "aprendi" música. Tenho uma base teórica mínima, sei o que é um Lá, Lá maior, menor com sétima, não passa disso. E de que adianta saber tocar e ler um monte de escalas e acordes se não se tem confiança e originalidade o bastante para compor? Esse é o grande problema dos artistas brasileiros que estão atingindo o mercado nos últimos anos. Artistas como Jeneci, Eddie, Mombojó... estão vivendo um processo de auto-reciclagem, mais conhecido como o "cover do cover", sem instinto criativo, com medo de tentar, sem "self-confidence" alguma. Mas, enfim... acho que aprender teoria e harmonia musical é para quem quer seguir carreira na música clássica, ser músico de estúdio, arranjador, o que não é o meu caso, e voltando ao curso, ele é apenas um curso técnico, que me ajuda a compreender cada função do mercado, e nisso ele foi muito válido. 

Com que idade você começou a compor? Qual foi seu primeiro instrumento?


Eu tinha entre 13 e 15 anos. Cara, comecei pelo baixo elétrico! Tinha um violão gianinni estudo em casa, quando tinha uns 12 anos, mas só sabia tocar alguns acordes, depois apareceu a vontade de ser baixista, e fiz a primeira banda de colégio tocando baixo. Velhos tempos do HC melódico, daí você pode tirar suas conclusões.

Quando você compôs pela primeira vez quais eram suas referências?


Se a pergunta for relacionada a referências musicais acho que sempre variou com o tempo. O que me influencia é o que ouço no momento. Já se a pergunta for relacionada a algo mais abrangente, tipo, referências para escrever, vindas de livros, ou filmes, acho que também pode ser. Coisas acontecem na minha vida que acabo não percebendo, mas aplico referências do tipo todos os dias, sem perceber. Hank Moody, da série Californication é um gênio! (rs), mesmo não seguindo um padrão de vida parecido . Enfim, acho que com todos funciona dessa forma, não sou uma pessoa especial nem nada do tipo.






Quando começou sua aproximação com a guitarra?


Então, eu comecei no baixo, como foi citado anteriormente. Com o passar do tempo tive algumas bandas (durante quase 4 anos, creio), indo de samba até metal. Depois comprei um violão novo, uns amigos de colégio me ensinaram alguns acordes, e desde lá aprendi na vontade, não sou um músico nada acadêmico (não tenho desprezo a academia, foi somente a nível de observação). Depois de um bom tempo tirando músicas do weezer no violão pedi ao meu pai uma guitarra, até hoje não sei porque comprei uma guitarra semi-acústica, visto que naquela época, com meus 15 pra 16 anos, eu só ouvia rock com guitarras mais agressivas, metal também, etc., enfim, comprei uma semi, da Ibanez, junto com ela veio um pedal de distorção. Na primeira semana com esses equipamentos compus várias músicas, praticava no mínimo 4h por dia, era mais que sagrado esse processo. Junto as canções, veio a vontade de tocar numa banda como guitarrista, compositor e cantor (quando era baixista não tinha espaço, nem moral para imposições artísticas, era sempre muito acanhado). Cantar era, e ainda é, o que faço pior, canto porque gosto, mas não gosto de me ouvir. Resumindo, tive algumas bandas onde aprendi a me comportar como guitarrista, fui morar nos EUA, compus algumas "love-songs" por lá, voltei e fiz a Team.Radio, em setembro de 2008 acho. Essa é basicamente minha trajetória com a guitarra! (rs)



Como foi essa experiência de morar na gringa?


Foi interessante, ainda mais porque vivi só. A experiência de vida morando sozinho, tipo... coisas de uma rotina tediosa, foi o que mais ganhei. Exemplo: fazer m* e ter que se virar, no improviso, para contornar os erros. Por roupa para lavar, cuidar da alimentação, pagar contas, essas coisas. Acho que é normal acontecer o mesmo com qualquer um que comece uma vida só, todos deveriam passar por essa experiência, tem suas vantagens.








Fala um pouco mais dessas love-songs.


Acho que Brian Wilson responderia muito melhor essa pergunta... rs. Bem, eu estava "naquela"... entende? Levei um violão que peguei num rolo com um amigo meu (em troca dei um Big Muff, pedal de fuzz, geralmente usado para guitarras), e lá comecei a tocar nas horas vagas do trabalho. Não tenho muito o que falar sobre isso... foi um momento de solidão, saudade, de algo que nunca deu certo. Fui tocando, e as canções foram saindo. Hoje ainda tenho as anotações dessas músicas em uma caixinha, com as letras, alguns acordes, pena que lembro somente de algumas músicas inteiras, fiz várias na época. Pensei até em gravar um disco, voz e violão, estilo Kings of Convenience quando voltasse (rs), mas tudo desandou e não gravei nada. Acho até bom, não sei se essas canções ainda fariam o mesmo sentido hoje... talvez sim.

Não rola de gravar um outro projeto com essas músicas?


Talvez... eu já tive uns projetos solos, mas somente como brincadeira, passatempo. Tem umas músicas que fiz e gravei aqui: http://soundcloud.com/parachutemusic, já essas que fiz nos EUA não acho que um dia gravarei, não é uma pretensão minha pelo menos. Desejo levar a sério um projeto solo, parar para gravar um disco todo sozinho, ou algo parecido. Ter banda, projeto, etc., dá muito trabalho, por enquanto está tranquilo a Team.Radio apenas, deixa estar.

Você foi para lá pra trabalhar no quê?


Tive três trabalhos por lá. Primeiro num Resort, como housekeeper, depois no Wendy's, em outra cidade, e por último fiz umas viagens com um tatuador, fui seu assistente na medida do possível! rs. Foi quando mais viajei, conheci várias partes do Texas.






E esse lance com a tatuagem, você chegou a aprender a tatuar?


Que nada!  Só fiz viajar, aproveitar os últimos meses por lá. Trabalhei antes, e isso de "assistente" foi somente uma desculpa. Foi bem legal, apesar da vida muito louca durante esse tempo.

Na hora de decidir o que estudar você ficou em dúvida com relação a 
outros cursos?

Eu já estudei publicidade e jornalismo, em ambos fiquei por 3 semestres, mas tinha que largar, não havia aptidão alguma. Depois o curso apareceu como a melhor das opções possíveis. Um curso em Recife, aliás Olinda, que poderia me trazer uma bagagem técnica que precisava. Hoje trabalho no estúdio de rádio e áudio da faculdade, gravei bandas, locuções, jingles, etc., uma ótima experiência prática. Acho que já tenho condição de trabalhar em qualquer área do ramo, mas prefiro a área de composição para cinema e videogame, tanto que esse é o temo da minha monografia, que apresento ainda esse ano.

Quais os compositores que você admira e o quanto eles influenciam teu trabalho?


Cara, foram várias fases, mas poderia dar alguns nomes de artistas que foram, e são, minha "escola": Neal Hefti, Brian Wilson e o Beach Boys, Milton Nascimento, Lô Borges, Elliott Smith, Shugo Tokumaru, Toe, Beto Guedes, Neil Young, Crosby, Stills & Nash, Harry Nilsson, The Radio Dept., Ozma, Teenage Fanclub... muita coisa. Hoje em dia estou ouvindo muito um disco do Noel, (self-tittled), de 1987 creio, o freestyle real. Tem umas bandas novas, dessa onda de "chill-wave", da nova safra americana, exemplo: Best Coast, Panda Bear, Washed Out, Toro y Moi, Girls, Ariel Pink... são bandas bem legais.





Algumas dessas composições guardadas são em português?

Não que eu me lembre. Escrevo poucas canções em português porque... pq não curto como fica na minha voz, nas minhas músicas... e que fique claro que eu não nego o português, nem qualquer outra língua.

Qual a melhor hora do dia para criar, na tua opinião?


Essa pergunta ainda não sei responder. Mas se pudesse escolher um horário fixo para compor todos os dias seria entre as 6 e 8h da manhã, horário mais bonito e calmo do dia.

Dessa nova safra de bandas brasileiras quais são as que você curte?


Hum... existem algumas bandas muito boas. Tem o Jan Felipe (RJ), que hoje mora na frança. Ouço esse rapaz fazem uns três anos, e, desde lá, nada me fascinou tanto por aqui no Brasil. Mas continuando, é.. tem o Inverness (SP), Labirinto (SP), a Nantes (SE), uma de minhas prediletas. Existe uma banda chamada Camera, acho que de Minas, banda muito boa. Recentemente Marina, de minha banda, postou no mural do Facebook dela uma apresentação deles no estúdio do Trama Virtual. Muito legal.











O que você costuma ler no seu tempo livre?

Cara, últimamente tenho lido mangás. Hoshi no Koe eu recomendo, assim como Bakuman.  
Já livros... na verdade eu leio muitos livros técnicos, de mixagem para videogame, por exemplo. Literatura mesmo, tipo romances, eu só me sinto atraído pelos "noiados", "esquisitos". Hehe. Adoro William Gibson, Phillip K. Dick, literatura cyberpunk, Robert Crumb. Curto muito estudar cultura japonesa também, até comprei um livro dia desses.

Isso tem influência nas composições que você faz?
Não diretamente. Nunca escrevi uma música baseada em um lirvro, ou um filme, etc., mas indiretamente com certeza.

Quais seus cinco livros favoritos?


Tenho a memória muito fraca, meu livro predileto é quase sempre o último que leio. Eu escolho bem! rs, não leva a mal. :) 

Vamo lá, cara, faz um esforcinho.... Os 5 livros prediletos são a pergunta clássica da coluna...










Edgar Allan Poe - Os Assassinatos da Rua Morgue (conto)



William Gibson - Neuromancer (romance)



Yuki Urushibara - Mushishi (manga)



Sun Tzu - A Arte da Guerra (tratado militar)



Gabriel Garcia Marquez - Memorias de minhas putas tristes (romance)


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