Todo mundo sambando no Passo Torto

por - 15:14



Ultimamente tenho escutado gêneros musicais que tinha largado há uma cota. Sempre curti samba e algumas dessas novas levas de artistas nacionais, como Kiko Dinucci e Romulo Fróes. Porém, de um tempo pra cá, larguei muita coisa para focar em gêneros específicos. Passei a ouvir 2pac e tudo que eu curtia de volta e talvez tenha sido o momento certo para escutar o novo projeto desses dois com o Marcelo Cabral e Rodrigo Campos, o Passo Torto. Infelizmente, não serei capaz de dissecar o disco todo, de cabo a rabo e vocês só poderão acompanhar uma mini-resenha, superficial, porém de coração.

Começarei dizendo que o disco é ótimo, realmente ótimo. O problema de muita gente que fazia um som nessa praia era a de querer ser conceitual, ser o novo Chico feat Itamar Assumpção, o que é mais que pretensioso. O Passo Torto não quer isso. Começa com muita sinceridade em “A Música da Mulher Morta”, que conta, de maneira bonita e com o violão arrebentando dependendo da parte da letra, alguém passou na frente da casa na qual houve uma morte. Em da Vila Guilherme ao Imirim, inicia algo que está presente nesse disco do começo ao fim e talvez o que mais tenha me cativado: ele é sobre coisas corriqueiras, o metrô, o bairro, a ida e vinda. Na faixa “Faria Lima Pra Cá”, a música é sobre a rotina de um morador paulistano, tomando a linha amarela ou pegando um ônibus bem cheio na avenida que tem mais engravatados folgados de São Paulo.



Passo Torto by passotorto



Temos tudo o que o samba pede, de cavaco ao vocal calmo. Em É Mesmo Assim, temos uma música que, pode ser viagem minha, remete um pouco ao começo a fase Ou Não do Walter Franco, principalmente pela letra contar com palavras jogadas em certos momentos: “a noite morta, o calafrio, chuva fina”. Na sequência, uma letra profunda e que reflete – sem toda aquela coisa de aluno de Letras metido a intelectual -, a condição do Cidadão da periferia, rondando, esquizofrênico, no Jardim Valquiria (sub-bairro dentro do Capão Redondo, zona sul e periférica de São Paulo). Samuel vem e vai pela Augusta, como transeunte, cabuloso pra caralho e marca registro, com um samba calmo, como faixa 6 do disco.

Por Causa Dela é aquela música mais clássica, com uma letra muito bonita e bem escrita por Kiko Dinucci e Romulo Fróes, e uma melodia tranquilíssima, que chega a te enganar que é sobre alguma mina e etc: “uso a imaginação/penso em cantar em inglês/os versos da minha canção/aquela que você me fez/esqueço da rima final/afinal/não há rima pro amor/nem amor, nem amor”. Três Canções de Segunda-feira me lembra um pouco Caetano Veloso(somente a parte boa, por favor). A letra, o clima, a maneira que os instrumentos são tocados e tudo mais, entretanto, repito e friso, é a parte boa do Caetano, ok? Sem Título, Sem Amor, se eu saquei a ideia da música, é uma das mais geniais do disco. A sacada é muito boa: “mas a canção morreu, a canção morreu, eu te dou cem reais pelo amor”, uma crítica, bem de leve, a tudo que não é feito com o coração? Espero que seja e assim, chegamos a décima faixa do álbum, Detalhe Azul. A letra é curta, mas a música é longa e a melodia se estende, no começo um tanto quanto agitada, até o vocal parar de ressoar os versos e chegarmos a algo mais sensível, delicado e dócil, calmo, como foi o disco até agora. Com o desenrolar da faixa, algumas coisas são experimentadas, vão entrando instrumentos e instrumentos e barulhos e barulhos, e o coração acaba por disparar.

Para fechar, Cavalieri, a décima primeira faixa de Passo Torto, traz de volta e para finalizar, uma espécie de simplicidade da capital, dizendo que “Otaviano pirou, Guilherme se arrependeu e Frederico faleceu”. O bom tom da melodia agora, fica em algo que remete o ouvinte, de leve, bem de leve, a Baden Powell, principalmente pelos versos finais: “nessa manhã devemos hastear/nossa bandeira no fim do pomar/se o inimigo nos quiser vencer/mil inimigos nos abaterão/mil inimigos se abaterão/mil inimigos nos abaterão”.

Passo Torto é um ótimo cartão de visitas do projeto desses três artistas e do produtor Marcelo Cabral. O que me cativou, além de toda a técnica presente no disco, foi a simplicidade e o quão rotineiro e próximo isso é de qualquer pessoa. Se o tiozinho retratado em “Cidadão” escutar essa música, é bem provável de que pare e pense: “nossa, sou eu nessa música aí” e é aí que eles acertaram em cheio: não precisa ter toda aquela ideia de criar metáforas sobre generais militares e etc., a ditadura acabou em 84, o problema agora é outro. Talvez o metrô, a estação faria lima, o bairro, ou o cidadão esquizofrênico, acaba dependendo do ponto de vista e do seu passo, passo torto.


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