A arte de envelhecer ouvindo barulho.

por - 11:11



mais um ano que se vai. uma simbologia sem fim, a cada 365 (ou 366) dias, que necessita renovação, quase que funcionando como um placebo temporário que nos dá noção do tempo passado. do tempo gasto. do tempo perdido. mas, como bons humanos que somos, com idéias pré-construidas e automaticamente estabelecidas pela rotina, esse tempo é simplesmente inserido nos dogmas e sensos comuns desse dia-a-dia moroso e... pronto! quando você acorda, já se passaram 50 anos.

por quê eu tô dizendo isso? porque o ano tá acabando de novo? porque estou fazendo mais um aniversário? niet: é só parar um pouco e ver que o tempo passa, de fato. e se você não se ligar, acaba pensando que sua vida tá nos 45 do segundo tempo e tudo que você fez não valeu de nada.

bom... disso eu não posso reclamar. minha vida vai passando, como a de todo mundo, mas já fiz várias coisas com ela. o suficiente pra conseguir dividi-la em várias "fases" e ter bastante estória pra contar - coisa que muito me diverte, estórias pra contar. com certeza serei um daqueles tiozinhos de fila de banco que vira pro garoto de trás e começa a contar algum causo de "quando eu era jovem, em milenovecentos e máquina à vapor..."dia desses, numa festa de uma amiga, um "conhecido" me disse, no meio de uma conversa, uma parada meio que assim: "ah, chega uma época que a gente cresce e deixa de ouvir som de moleque...", e eu pensei "como assim, deixa de ouvir som de moleque? o que quer dizer com isso exatamente? (no caso eu sabia que se tratava de) punk / hardcore devem ser deixados de lado quando a gente "cresce"? e consequentemente toda aquela ideia libertária que esse som te trás pra vida também deve ser abandonado, em nome do "amadurecimento"?? peraí! eu tenho quase 40 e ainda sou um moleque então???...que imagem atípica eu tive de mim mesmo.curioso no entanto foi que essa conversa surgiu no mesmo dia que eu vi isso aqui, que na minha humilde opinião, é um petardo de originalidade e genialidade derivadas das novas tecnologias computadorescas:






(um pequeno adendo sobre a video-colagem Hardcore or Die, do amontoado belga Soulwax / 2Many DJs, que já demonstravam anteriormente a existência comprovada de inteligência e bom-gosto dentro de um gênero "pegajoso" que é o eletro; nas sessions anteriores do Radio Soulwax, já haviam demonstrado bastante habilidade e uma charmosa coesão de sonoridades, juntando em "mashups" coisas díspares como Peaches & Velvet Underground, Stooges & Salt-n-Pepa, Basement Jaxxx & The Clash, Nirvana & Destiny's Child, entre outras bizarrices não-correlativas. Nessa "faixa", eles conseguem captar de modo homogêneo e unísono o puro creme do milho verde do hardcore oitentista americano e europeu. sobra até um espacinho pro HC brasileiro, representado pelo icônico Olho Seco... fuck yeah!, diriam os haters! você assiste o video inteiro - 1 hora de colagens - aqui)

o negocio todo que me fez pensar mesmo sobre isso é de como lidamos com o passar do tempo. muita gente ainda pensa que só quando se tem 17 anos a pessoa tem um direito justificável de ouvir barulho, punk rock, grind, ter pensamentos subversivos, ter direito de protestar na rua, porque depois dessa idade você é "adulto" e tem que se comportar como uma pessoa velha e sensata, de respeito, com "valores". tem que deixar de ouvir Insted e 7 Seconds e Minor Threat e Cólera, tem que começar a ouvir Stravinsky, Gainsbourgh, Coltrane, e dessa forma, dar um pulo evolutivo no que era cabeçudo e começar a ser seletivo e contido.

pois bem, eu tenho uma novidade pra quem pensa assim: quando eu tinha 17, eu ouvia sim 7 Seconds e Minor Threat. mas com 17 eu ouvia Stravinsky e Gainsbourgh também. já com 17 minha única forma de enxergar uma divindade era ouvindo Love Supreme do Coltrane. com 17 eu me vestia da mesma forma que me visto ainda hoje, com quase 40. com 17 eu já tinha lido algumas obras de kafka, Dostô, Salinger, Nietsche. com 17 eu já agia com o mesmo bom-senso que ainda há em mim. obviamente aprendi e aprendo cada vez mais com o passar do tempo e com as pessoas com quem convivo diariamente. é o minimo que podemos fazer de útil, vendo o tempo passar assim, completamente sem rédeas, eu considero.






o caso não é exatamente "crescer", vamos chegar num acordo: o caso é saber quem você é, e porquê você faz o que você faz. "passar por uma fase" não justifica fazer um monte de merda e culpar a inexperiência. a maioria das pessoas teria uma obrigação natural de saber disso; eu daria um desconto pra quem teve uma infância e adolescência conturbada, mas mesmo pessoas que sofreram traumas e foram destratados na tenra idade, muitas vezes, tem mais noção de bom-senso do que filhinhos-de-papai imensamente bem-cuidados, porém mergulhados na joselitagem até o pescoço porque não ganharam uma mobilete quando completaram 12 anos, ou um carro do ano quando terminaram a faculdade). mas foda mesmo, MESMO, é ter de ouvir isso de um cara que termina sua faculdade de cinema na USP, não antes sem passar pelos melhores cursos preparatórios e economicamente seletivos do país, e ainda tem a boiada de fazer sua pós - ou cursos livres adicionais, o que for - em Londres, de onde continua em bates-volta ao Brasil (esse "paisinho pobre e relevante") à cada semestre, e onde ocasionalmente conhece seus ídolos do submundo grindcore, entre outros previlégios, e dessa forma se dá o direito de se sentir, ao mesmo tempo, muito mais próximo do underground, o mesmo underground qual criticará quando estiver reunido com o outro nível da camada social superior. pois é... o submundo nos reserva estórias realmente surpreendentes; provavelmente eu não acreditaria, se não vivenciasse com meus próprios globos oculares.

e veja bem! ao contrário do que possa parecer, isso não é nenhum tipo de desabafo, pode acreditar; é só mais um desses fatos contraditórios que vemos TODOS OS DIAS em qualquer lugar qual possamos frequentar, e que mesmo ficando boquiabertos com tamanha discordância, notamos que pessoas conseguem lidar de forma perfeitamente normal, sem ao menos se dar ao trabalho de retocar um óleo de peroba ali, de leve, naquela imensa caruda. vemos isso todo dia, você vê isso todo dia. eu sei. e engole esse sapo-boi à palo-seco mesmo. eu sei. aham, pessoas são estranhas.

pra essas pessoas, TODAS ELAS, só dedico esse som aqui: Discharge. das antigas, 1980. EP Fight Back.




pode ser "som de moleque", mas parte disso vai comigo até o fim da minha vida. seja até amanhã, seja daqui os próximos 50 anos: o que as "causas aleatórias" do mundo escolherem pra mim. idade não importa, o que importa são as atitudes diárias que você toma consigo próprio. eu, por exemplo, costumo pensar que o verdadeiro espírito libertário vive na escarrada de um velho caquético, na porta de uma igreja, quase acertando o pé do padre.

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2 comentários

  1. >cara concordo contigo em tudo isso! é muito tosco achar que cada idade tem um tipo de música para ser ouvido, eu sou criança, sou moleque, sou adulto, sou jovem, sou velha, sou tudo junto, tudo isso faz parte do meu ser humano, não é preciso restringir a cultura a uma questão etária nem a qualquer outra.

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  2. >se pararmos pra pensar esse "amadurecimento" musical poderia se dar de maneira reversa, ouvirmos bethoven na infância e discharge quando adultos, a verdade é que tem que gostar mesmo da parada pra que isso não seja mesmo só uma "fase".

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