Quem está no eixo e quem está fora dele?

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A palavra é "memético"



Antes dos sites e blogs, sempre fiz parte de outras plataformas para troca de informação virtual (Orkut, listas, fóruns, etc) e foi numa delas que fiquei sabendo do Fora do Eixo. Está organização que, sendo bem leigo e superficial, me foi informado ter sido criada em Cuiabá (cidade do centro-oeste) que tinha por objetivo difundir a cultura em todo o Brasil, tirando o eixo do Rio – São Paulo (Sudeste) e colocando outras cidades no mapa da cultura do país, ou fortalecendo os locais que já apareciam de maneira mais organizada. Achei a ideia muito interessante, confesso aqui por uma idéia egoísta e bairrista (como bom pernambucano que sou) de que quem sabe assim outros pólos apareceriam e Recife deixaria de ser o Oasis de cultura que tinha se tornado.

Logo após isso apareceu a ABRAFIN, que tinha como norte ser uma associação dos organizadores de Festivais Independentes do país, criando assim uma organização e ligação entre eles, centralizando e organizando estes eventos que tinham surgido em vários locais do Brasil. Vários festivais entraram para associação, entre eles os locais Abril Pro Rock, Recbeat e MIMO criando uma rede de bem interessante, inclusive lembro um cartão postal onde estavam todos os festivais filiados a ABRAFIN, com o mês e local onde eles ocorreriam (se você fosse rico, daria para conferir boa parte deles). No meu modo de pensar, ABRAFIN e Fora do Eixo não combinavam, mas um dos integrantes principais da associação também era um dos responsáveis pelo coletivo. Para mim, o Fora do Eixo buscava descentralizar as atividades culturais e dar mais espaço para bandas que eram de cidades fora dos grandes centros, fazendo ascender as bandas e cultura daquelas cidades, enquanto a ABRAFIN seria um órgão centralizador dos Festivais Independentes (mais comercial e burocrático).











O Lumo apagou, uma pena...



O movimento Fora do Eixo foi se espalhando pelos quatro cantos da nação, não só eu achei massa, boa parte do Brasil comprou a idéia. Incluindo o Recife, onde inclusive praticamente todo mundo era FDE, que por aqui atendia pela alcunha de Lumo Coletivo. Digo que todo mundo era da Lumo porque umas 20 bandas da cidade estavam atreladas, inclusive algumas piadas dos de fora do esquema foram feitas na cidade, perguntas como “Quem não é Lumo Coletivo?!” e o logo aparecia em todos os locais e sites, “Não agüento mais Lumo Coletivo”, etc. Sempre tentei aparecer nos eventos realizados pelo coletivo, boa parte deles fora dos locais onde já rolava os shows de bandas alternativas do Recife e ate mal divulgados (era o começo, ainda estavam se organizando, pensava).

Recife é uma cidade complicada, culturalmente formada e fomentada, onde inclusive a característica megalomaníaca da cidade fez com que algumas bandas ou participantes de nossa cultura demonstrassem um ego por demais inflado. Assim sendo, o caráter coletivo do Lumo (e da FDE) numa cidade onda a cultura (principalmente a música) é feita de maneira egoísta e desunida (ou unida em panelas) somado as falhas estruturais e organizacionais da instituição no Recife fez com que boa parte das bandas saísse em debandada da estrutura do Coletivo. O Lumo tentou continuar, com as mesmas falhas de estrutura e organização, porém mais enfraquecidas pela diminuição no numero de bandas ate culminar no fim da estrutura na cidade. No fim, o fator mais positivo do Lumo para mim foram as transmissões online dos Festivais, que rendeu uma bela parceria com o Hominis Canidae e vários bootlegs dos shows nos festivais da cidade.

Isso tudo que eu falei acima não aconteceu do dia pra noite, mas sim em alguns anos. Durante esse tempo o Fora do Eixo se firmou principalmente como um agente das bandas, fazendo com que elas rodassem o Brasil dentro dos Festivais da ABRAFIN (se você for bom ou tiver cacife para isso) ou nos pontos de apoio espalhados por diversas cidades do Brasil (inclusive colocando o interior do Brasil na rota dos shows alternativos).  Neste momento surgiram noticias de alguns problemas, o primeiro seria a falta de estrutura encontrada pelas bandas nestes tours pelo Brasil (as chamadas roubadas), shows mal divulgados e tocavam pra pouca gente, equipamento ruim, dormindo mal, etc. Várias historias foram contadas (não só por bandas pernambucanas), um “gringo” me confidenciou que o ponto mais positivo destas tours do FDE estava no fato das bandas terem astúcia de fazer contatos nas cidades (fora dos do FDE) para quem sabe num futuro voltar com melhores condições.




Isso vai em qual das categorias de problema?! Foi muito foda isso...



Outro problema citado por alguns de dentro e de fora do FDE seria o privilégio de algumas bandas em detrimento de outras, o tal do “apadrinhamento”, que não é a coisa mais correta do mundo, mas convenhamos acontece na cultura e na música desde que ninguém aqui era nascido. O terceiro ponto (em minha opinião, o mais perigoso) era a chamado por nós de “atrelamento por conversão”, linkando a participação ou ausência das bandas em eventos da ABRAFIN/ FDE ao fato das bandas entrarem no agenciamento ou no esquema do Fora do Eixo, na igreja seria o tal do “converter-se aquela doutrina”. Sendo bem sincero, isto pode realmente acontecer (de maneira sutil a maior parte do tempo), a música é um produto e deve realmente ser vendido, mas por sua qualidade e não por seus apadrinhamentos ou atrelamentos a A e B, nem por sua política ou localização geográfica. E entendam, caso esse tipo de coisa aconteça, acho que a função do gestor do evento é escolher a banda que ele quer que toque no seu festival (é egoísta, eu sei, mas é um direito dele) e não engolir qualquer coisa. Não vou discutir a política solidária do Fora do Eixo, acho inclusive que eles são claros com relação a isso, quem recebe cubocard sabe o que ele significa.

É inegável o trabalho que o Fora do Eixo tem feito no Brasil, com a própria ABRAFIN que acabou sendo engolida pelo FDE, ou fora dela. Neste mês de dezembro, durante o congresso nacional do Fora do Eixo, surge a noticia de que vários festivais desatrelaram-se da Associação Brasileira de Festivais Independentes, entre eles todos os do estado de Pernambuco (alguns motivos já foram citados no texto, característica da cultura na cidade do Recife e de seus habitantes), por não aceitarem fazer parte desta política institucional de coletividade, parceria “obrigatória” ou pensar política de cultura.  E sim, a política é a principal função e motivo de existir do Fora do Eixo, porque como alguns dos integrantes já me disseram “Tudo é política”, e isso é verdade.




Não existe rancor em PE (batidinha estilo Glory Box pra acompanhar)...



Eis que no balanço do congresso nacional do Fora do Eixo, Pablo Capilé é questionado sobre a falta de êxito nas ações do FDE em Pernambuco e ele responde de uma maneira repetitiva, agressiva e um tanto "memêtica" dizendo que culpa disso é do rancor contido nas cabeças e mentes que atuam na cultura do estado e também os que consomem. A priori não vi a fala do Capilé (não tenho net rápida e o vídeo sumiu do stream um dia após o evento), vi e acompanhei apenas a repercussão e o estrago causado pela fala do mesmo. Tanto que no dia seguinte em outra transmissão ao vivo retomaram o assunto (provavelmente a maior audiência no vídeo ao vivo da historia da FDE) no qual eu vi muito rancor, mas nas cabeças do Fora do Eixo com o estado de Pernambuco. Eu não sei se é uma atitude política maquiavélica de tentar ofender a egolombra da cultura do estado desunido de Pernambuco para magoar a vaidade dos mesmos e ser chamado para uma conversa ou se foi realmente um tiro no pé e um fim nas relações culturais entre FDE e bandas de PE. Conhecendo um pouco da cultura atual do estado, acho mais fácil chamarem o Capilé pra curtir o carnaval e colocarem ele no eixo daqui que o contrario. Ou por acaso as bandas de Pernambuco vão boicotar o Fora do Eixo?! Acho bem difícil!

Não achei 100% ruim à colocação do Fora Do Eixo sobre o estado de PE, pelo menos levantou uma discussão pertinente para cultura do estado. Produzir disco sem ter espaço pra tocar ou ficar esperando os palcos e financiamentos públicos ou os grandes festivais da cidade não faz da cena uma "cena realmente", funcionando o ano todo e com riqueza de publico, cultura e troca de espaços, com dinamismo de nomes nos espaços públicos e na estruturalização destes espaços. Um pouco mais de coletividade e um pouco menos de ego não seria uma coisa ruim de acontecer. Agora, senhor Capilé dizer que não existe nenhuma produção relevante no estado em 2011 é até ignorância, nós fizemos uma lista onde convidamos dezenas de pessoas do Brasil (pouco quorum no Recife) e apenas na nossa coleta INDIE duas bandas entraram entre as 15 mais votadas, outras oito foram lembradas. Isso porque não atuamos ou temos impacto na CULTURA POPULAR do estado de Pernambuco como deveríamos. Então, com relação a produção cultural e musical do Recife (pensando em diversidade e qualidade musical e não mercado), o senhor Pablo falou uma asneira tremenda!



Imagina se Capilé faz o The Playboys voltar? Seria o 360 da Babilônia né?!...



De qualquer forma, espero que o Fora do Eixo pense um pouco na música e não atue com politicagem para com a cultura e bandas do estado, fechando portas para os grupos daqui nos festivais pelo Brasil (dizem que tem 150 festivais né?! Queria ver uma lista de onde eles ocorrem tanto!). Também espero que eles comecem a agir numa reforma política e não só cultural do Brasil, pois já vejo ranços de politicagem brasileira da pior espécie na rede FDE (e olhe que estou vendo de fora). Esta na hora do Fora do Eixo assumir sua parcela de culpa no processo, sem querer ofender os demais estados e locais do Brasil, mas quando você tem um público um pouco mais seleto você precisa se esforçar um pouco mais e não vi esse esforço do FDE por aqui. E olhe que eu tentei ajudar no que podia, divulgando os últimos eventos por aqui (que tive que insistir muito pra divulgar, tanto que pensei que isso era posicionamento político do FDE, a não divulgação de eventos) e o fato da estrutura ser sempre falha, tanto na localização quanto no equipamento da maioria dos eventos.

Fora isso, reconheço que a política publica do estado de PE realmente dificultou a vida de quem tenta trabalhar com cultura, tanto na esfera privada quanto até tentando entrar na esfera pública do negocio. Os que estão por lá não querem largar o osso, tanto as bandas nos eventos públicos, quanto os gestores e ate parte do público (que prefere pagar em impostos desviados, que em ingresso para shows), não vejo esta troca acontecendo no Recife. Pelo visto a falta de apoio de público, de bandas e público fez o Fora do Eixo largar o estado de Pernambuco, um direito dele, mas eles não deveriam guardar rancor, porque isto é política. A cultura do Estado e as bandas e cabeças de artistas e consumidores locais seguem a política deles sem impor a ninguém, que tal vocês começarem a fazer o mesmo?! Existem os que pensem de forma diferente, a individualidade de pensamento do ser humano deve ser mantida e preservada, sem magoas ou rancor.







Pra finalizar, li o levantamento anual que acabou de sair no site do coletivo Fora do Eixo (um dos compromissos é com a transparência, parabéns por isso!) e fiquei me perguntando quem está no eixo agora?! Se a ideia era tirar o EIXO cultural do Sudeste, tentando inclusive fugir da característica comercial que faz com que a região seja o centro do negócio e as bandas andem ou morem por lá, o FDE precisa se esforçar mais. Preocupa-me a desigualdade sendo mantida, coisa que não parecia ser o objetivo da instituição a principio, fui informado que o maior número de eventos aconteceu no Nordeste em 2011, mesmo assim os números continuam bem desiguais, continuemos acompanhando...

Dados oficiais do FDE: Foram realizadas 150 turnês, passando por 133 cidades, 26% delas em SP e 24% no Nordeste, com uma média de 12 shows a cada turnê. Ainda em 2011, foram realizados 1.133 eventos, sendo 31,6% no Nordeste, 27,3% em SP, 13,7% em MG, 2,6% no RJ e ES (Sudeste 43,6%), 9,9% no Norte, 8,7% no Sul e 6,1% no Centro Oeste. Ate em cineclubes a ação é mais forte no Sudeste “750 sessões no Brasil, sendo 226 em SP, 167 em MG, 33 em RJ e ES, 45 no Centro Oeste, 130 no Norte, 65 no Nordeste, e 84 na Região Sul”.

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4 comentários

  1. >Até agora o post mais conciso e pé no chão sobre este episódio. É isso aí!!!

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  2. >Galera parabéns pela questão levantada. Gostei do posicionamento.

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  3. >Muito bom o texto, véi... De verdade.E esses dados da turnê são uma tristeza, parece que ainda enxergam o Nordeste como um estado só.

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  4. Conheci o Hominis Canidade outro dia por acaso e agora esse texto maravilhoso, doidimais

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