Avante: o reencontro entre o cantador e o guitarrista

por - 15:15



Os riffs de guitarra começam baixos, como se "preparassem o ouvinte para o salto". E não é por menos: cinco anos após o lançamento de seu último álbum com a Fuloresta (e três anos após o disco Violas de bronze, com Roberto Corrêa), o pernambucano Siba Veloso volta à guitarra, abrindo a safra de 2012 com o esperado Avante. Produzido por um dos melhores guitarristas do país, o cearense Fernando Catatau, e com a ajuda dos músicos Léo Gervázio (tuba), Samuca Fraga (bateria) e Antônio Loureiro (vibrafone e teclados), o disco é um grande presente, tanto para o músico quanto para seu público.

Depois de quase 20 anos com seu nome vinculado à tradição da música nordestina, graças às influências explícitas do coco, cavalo marinho, forró e maracatu nos grupos Mestre Ambrósio e Fuloresta do Samba, Siba volta ao instrumento que o iniciou na música, numa bela transição (o músico chegou a vender sua antiga guitarra), que ainda apresenta traços de seus trabalhos anteriores, preservando sua identidade. O preparo, no entanto, foi longo: entre o processo de composição e gravação, o pernambucano sentia-se como numa terapia, segundo ele, "demorada e conflituosa". Enquanto tateava de volta à guitarra, Siba contou com a ajuda de Catatau, que, além de produtor, foi também amigo e um dos grandes inspiradores do disco, sendo o Método tufo de experiências - da Cidadão Instigado - um dos pontos de partida para Avante.

Não só a melodia, mais elétrica, tornou-se terapêutica. As canções possuem um tom confessional, e parecem contar a história de uma caminhada de descoberta do homem e do poeta, que amadurece após naufragar nos "balés da tormenta". Este é, possivelmente, o trabalho mais autobiográfico do músico, que confessa que, "nesse disco, a matéria-prima foi muito da minha vida, das coisas que passei. Talvez eu tenha tentado economizar com o psicólogo, não sei".

Graças à vontade (e coragem) que Siba teve de mergulhar em si e no seu passado, nesse disco podemos ouvir algumas de suas mais belas poesias, seja em tributo que presta aos cantadores, ou em momentos de melancolia, como em Qasida, a penúltima faixa, que percorre memórias afetivas, embaladas pela guitarra de Catatau. O solo do cearense, aliada à poesia da letra que é declamada por Siba, fazem com que a canção seja dolorosamente bela.

Na realidade, Avante é formado por um conjunto de memorabílias que ficaram guardadas por um certo tempo, e vêm à tona nestes pouco mais de 40 minutos de ótima música. O poeta começa procurando sua identidade diante do caos, em Preparando o salto, e ao final desta já tenta deixar para trás tudo que o prende, para deparar-se com uma Brisa que, ao invés de ajudar sua jangada na navegação, o castiga com seus carinhos.







Ariana é o bolero-breguinha do amor nascendo, daqueles que se dança junto, e pouco importa o mundo se acabando, o importante é que "só sobrou nós dois no manto azul". Cativante, é seguida pelas já conhecidas rimas de Cantando ciranda na beira do mar e A bagaceira. A segunda é uma linda homenagem ao carnaval, e é possível imaginar o folião que passou a manhã ardendo sob o sol olindense ir com alegria para Recife, sustentado apenas pela mistura de "cachaça e gellys".

Depois do respiro lúdico, somos levados à sequência formada por Canoa Furada - também regravada -, Mute, Um verso preso e Avante. Agrupadas, parecem contar o ápice da busca do poeta por sua voz. A letra da faixa-título representa, para Siba, o desejo de não silenciar e o vigor da poesia, bases de seu trabalho. Ele revela ainda que, a música - e o álbum como o todo - tem mais a ver com a ideia de "descobrir sua força interior, para poder achar a propulsão que leva ao movimento", do que com a quebra de uma fase e o início de outra.

Embora desafios e melancolias deem corpo a Avante, o álbum termina com o sopro leve de Bravura e Brilho, que só é possível através do contato com a infância, e traz os super-heróis que povoam o mundo do filho de Siba (que está junto com ele, na foto de capa do CD).

Por causa das influências que vão desde Jimi Hendrix às guitarras do oeste africano - e especialmente à transposição da música tribal da África ao som mais elétrico e urbano -, passando pelas sonoridades cubanas e caribenhas dos anos 1940, com uma pitada da Cidadão Instigado, definir o estilo de Avanteé uma tarefa difícil. Porém, por conta das nossas recorrentes necessidades de classificação, quem se propuser à aventura terá que concordar com Catatau: trata-se de um "rock estranho". O certo é que não há lugar para saudosismos. Assim como migrou sem problemas do Mestre Ambrósio para a Fuloresta, Siba chega ao novo projeto com vigor e sinceridade, emocionando, ao transformar sua trajetória em poesia.




Registro - Além do álbum, Siba gravou também um documentário, que mostra seu processo de realização. Siba - Nos balés da tormenta, gravado por Caio Jobim e Pablo Francischelli, da Doble Chapa, deve ficar pronto em abril e, segundo Caio, vai correr o circuito de festivais, além de ser exibido em um canal de televisão.

O show -
Depois de ter rodado um pouco em São Paulo no último semestre de 2011 (como uma espécie de ensaio da banda, que só havia se reunido para gravar o disco), a apresentação chega ao Recife no dia 28 de janeiro, às 21h na Rua da Moeda, de graça. Com o carisma reconhecido de Siba, e a força de entrosamento que ele tem com o público, Avante, ao vivo, deverá ser como a audição do álbum: sublime e intenso.

Obs.: O texto acima foi originalmente escrito para a Revista Continente. A versão editada dele pode ser encontrada na edição de Janeiro de 2012.

Você também pode gostar

1 comentários